O Discurso de alerta de Putin e a Retirada dos EUA da Síria: Mas quem quer guerra?

“A melhor coisa que os países do dito Primeiro Mundo podem fazer pelos do Terceiro Mundo é deixá-los em paz” – Adriano Benayon
 
A fala do presidente russo na reunião expandida da cúpula do Ministério da Defesa em Moscou, dia 18/12, foi uma análise ampla do equilíbrio estratégico global. O discurso deve ser visto no contexto da queda-livre em que estão as relações EUA-Rússia, do aumento da infraestrutura da OTAN nas fronteira ocidentais da Rússia e, especialmente, das declarações de Trump sobre os EUA retirarem-se do Tratado das Forças Nucleares Intermediárias (Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty) de 1987.
Em termos genéricos, a mensagem de Putin abre-se em três direções:
– A modernização das forças armadas russas foi muito bem-sucedida e a prontidão para combate dos militares russos alcança hoje o ponto mais alto de todos os tempos;
– A Rússia desenvolveu novas armas hipersônicas de imenso poder de destruição, que estão entrando em produção em série para que acompanhem forças nucleares estratégicas, e armas para as quais os EUA simplesmente não têm qualquer resposta;
– A Rússia está determinada a garantir que quaisquer tentativas dos EUA para modificar a seu favor o equilíbrio estratégico sejam efetivamente respondidas.
 
Putin revelou que a distribuição de armamento moderno na “tríade nuclear” (forças aéreas, navais e de solo) já alcança o impressionante nível de 82%. Deixou fortemente sugerido que, consideradas as coisas com realismo, os EUA estão no ring como o boxeador que tem de lutar contra alguém de uma categoria superior de peso:

“Essas armas (estado-da-arte absolutamente únicas, como o sistema Avangard de mísseis, o míssil Sarmat, o míssil balístico hipersônico ar-ar Kinzhal, as armas Peresvet de combate a laser, etc.) multiplicarão o potencial de nosso Exército e Marinha, e garantem absolutamente a segurança da Rússia, com plena confiabilidade, por muitas décadas por vir. Essas armas consolidam o equilíbrio de forças e, assim, a estabilidade internacional. Espero que nossos sistemas deem muito o que pensar a gente acostumada se servir-se de retórica militarista e de agressão.”

O discurso de Putin visou diretamente os planos dos EUA para se retirarem do Tratado INF. E alertou:

“É passo que terá as consequências mais negativas e enfraquecerá consideravelmente a segurança regional e global. De fato, no longo prazo, pode levar à degradação e até ao colapso de toda a arquitetura de controle e de não proliferação de armas de destruição em massa (…) No evento de que os EUA venham a quebrar o Tratado – já disse publicamente e creio que é importante repetir diretamente para os senhores e senhoras aqui presentes –, seremos forçados a tomar medidas adicionais para reforçar nossa segurança.”

Putin disse claramente, como alerta explícito, que os mísseis Kinzhal hipersônicos que a Rússia acaba de desenvolver (que voam a velocidades superiores a Mach 10, com alcance médio de 2.000 quilômetros) e que estão atualmente instalados em jatos Mig-31, podem ser modificados “e postos em solo, caso seja necessário.”
Em termos geopolíticos, Putin deixou claro que Moscou “não piscará” e que o poder militar da Rússia é insuperável. Bem obviamente, o duro alerta dos russos aparece no momento em que os EUA empurram os aliados europeus a impor mais sanções contra a Rússia, e ante a ameaça dos norte-americanos de ampliarem sua presença militar no Mar Negro, depois do incidente no Estreito de Kerch, mês passado. As tensões também estão aumentando em torno da Ucrânia, país que historicamente é o Primeiro Círculo da defesa nacional russa. Já se sabe que a Rússia já enviou jatos de combate Sukhoi Su-27 e SU-30 para a base aérea de Belbek, na Crimeia.
Na 2ª-feira, o ministro Sergey Lavrov das Relações Exteriores disse, presumivelmente a partir de informações de inteligência às quais Moscou tem acesso, que a Ucrânia pode vir a encenar movimentos militares de provocação nas fronteira da Crimeia até o final desse mês, e que as Forças Armadas ucranianas já têm cerca de 12 mil soldados e grande quantidade de equipamento na linha de contato com a região do Donbass resistente.
Lavrov revelou que instrutores dos EUA, Grã-Bretanha e outros países estão ajudando a armar a Ucrânia, e que há um drone dos EUA permanentemente sobre a região. (Xinhua) Dado que com certeza quase absoluta são zero as chances de o candidato dos EUA Petro Poroshenko vir a ser reeleito nas eleições de março próximo, nada mais útil aos EUA que qualquer tipo de casus belli, que ajudaria a empurrar a Ucrânia para dentro da OTAN e da União Europeia. Putin tocou apenas rapidamente na questão da Ucrânia, dizendo que o conflito na região sudeste “continuou sem trégua”.
Significativamente, em sua fala na quarta-feira, Putin fez uma referência importante à China: elogiou as manobras Vostok-2018. Disse que os exercícios militares contribuíram para “substancial avanço” no nível do treinamento operacional e de combate das forças armadas russas, e para mostrar capacidade para “mover prontamente forças e equipamento” por mais de 7 mil quilômetros “e reforçar rapidamente unidades em grandes áreas estratégicas onde for necessário.” Putin então acrescentou que é “importante” observar que unidades chinesas “também operaram sob o mesmo plano geral, em formação única com nossos soldados.” Faltou pouco para que falasse do que analistas ocidentais chamam de “aliança militar funcional” entre Rússia e China.
O orçamento da defesa da Rússia, de 46 bilhões, é pequeno ante os $725 bilhões do Pentágono. Mas fato é que, em vez de se deixar arrastar para uma corrida armamentista debilitadora, que pesaria sobre todos os recursos do país, a Rússia se manterá focada em desenvolver capacidade estratégica para infligir perdas e destruição tão colossal ao ocidente, inclusive aos EUA, que acabará com impedir que o ocidente em geral, incluídos os EUA, disparem aventuras militaristas contra a Rússia. Assim, Putin deu prioridade a “reforçar ainda mais o potencial de combate das forças nucleares estratégicas.” Destacou a importância de fazer uma rápida transição para armas com capacidades para superar os sistemas de mísseis de defesa dos EUA e, em particular para produzir e fornecer os sistemas Avangard de alcance global às forças armadas.
O comandante da Força de Mísseis Estratégicos da Rússia coronel-general Sergei Karakayev disse em entrevista ao jornal Krasnaya Zvezda, na 2ª-feiram que os primeiros sistemas de mísseis Avangard hipersônicos entrarão em prontidão para combate em 2019 na divisão de mísseis Dombarovsky, com base na Região Orenburg, no sul dos Urais. Segundo matéria da Agência TASS, o Avangard é sistema de míssil balístico estratégico com veículo transportador capaz de voar a velocidades hipersônicas nas camadas densas da atmosfera, manobrando a própria rota de voo, e em altitude, de modo a escapar de qualquer defesa antimíssil.
A retirada dos EUA da Síria e a Crítica dos amantes da guerra
O repentino comunicado da retirada iminente das forças dos EUA, do noroeste da Síria, está sendo amplamente criticado pelos especialistas norte-americanos, analistas de centros de pesquisas e muitas vozes do establishment norte-americano alegam que “a decisão do presidente Donald Trump pode criar um vácuo que será rapidamente preenchido por alguma milícia ligada ao Irã ou pela Turquia”. Mas na verdade o maior medo dos críticos de Trump em Washington é que o território sírio ocupado pelas forças norte-americanas seja devolvido ao controle das forças do governo sírio. Outro argumento sem fundamento, que se ouve vindo de muitos desses entusiastas da ocupação é que as áreas atualmente ocupadas pelos EUA poderiam cair em mãos dos grupos terroristas ‘Estado Islâmico’ (ISIS) ou Al Qaeda; esses últimos operam atualmente nas áreas ocupadas pela Turquia na Síria, na cidade de Idlib, no norte. Se for preocupação verdadeira, como os críticos de Trump explicariam o fracasso dos EUA, que nunca dão conta de eliminar os grupos do ISIS que não arredaram pé dos setores ao longo do Eufrates na província de al-Hasaka ao longo dos dois anos de ocupação norte-americana no nordeste de Síria?
Por fim, finalmente, os críticos de Trump inevitavelmente misturam todos os argumentos acima, com a fobia preferida nos EUA. Agora dizem que a Rússia e, claro, o Irã seriam os únicos países que se beneficiarão desse movimento “imprudente” dos EUA.
Verdade é que a presença de exércitos norte-americanos na província síria de al-Hasaka e na passagem de al-Tanf, na fronteira Iraque-Síria é uma “carga pesada” para o governo dos EUA, e extremamente perigosa em longo prazo. Escafeder-se do atoleiro sírio fortalecerá moral e estrategicamente a posição dos EUA na região.
Ao tempo em que espertamente o presidente Trump colhe o pretexto de uma “vitória” sobre o ISIS como evidência de que sua missão estaria “cumprida” e como via de escape rápido para fora da Síria, observadores regionais sabem que quem realmente derrotou o ISIS foram o governo sírio, com Rússia, Irã e outros aliados. E, isso, em toda a geografia síria.
Em fevereiro deste ano, quando as forças sírias tentaram cruzar o rio Eufrates para caçar o ISIS, os norte-americanos os atacaram e destruíram muitos comboios, o que provocou a morte de centenas de sírios e instrutores russos que – esses sim, lutavam para aniquilar o ISIS.
Outra vez, em julho de 2018, quando as forças sírias e seus aliados tentaram caçar o ISIS na estepe síria, o ISIS transferiu-se para área de 55 km protegida pelo fogo norte-americano ao redor da passagem de al-Tanf. Outra vez, os norte-americanos e britânicos destruíram vários veículo militares do exército sírio e seus aliados. A mensagem não poderia ser mais clara: com ou sem presença ativa de terroristas do ISIS, essa é área protegida pelos EUA.
Fronteira Síria-Iraque – Quartel das milícias xiitas iraquianas atacado dia 18/6/2018 (antes e depois do ataque, 24/6/2018)
Quando a Turquia atacou Afrin em janeiro de 2018, as forças norte-americanas não apoiaram o YPG e o PKK nas províncias curdas do norte, mas, isso sim, os abandonaram à própria sorte, forçando-os a unir-se aos milhões de refugiados deslocados internos pela guerra que a Síria não escolheu e foi-lhe imposta. Os curdos opuseram-se a que o exército sírio combatesse contra a invasão turca, mesmo que a intransigência tenha-lhes custado a vida, riquezas e propriedades. Os curdos sírios seguiram o mesmo caminho que seus irmãos no Iraque, confiantes que os EUA defenderiam a causa curda. Não entenderam que o establishment dos EUA não é instituição de caridade; que os EUA têm interesses próprios pelos quais combatem, e que não combatem por curdos nem pelo bem-estar dos povos do Oriente Médio em geral.
E o establishment norte-americano não parou aí: em agosto de 2018 advertiu Rússia e Damasco para que não atacassem os bastiões terroristas em Idlib, sob o fantástico pretexto de que o governo da Síria poderia usar armas químicas! Os EUA claramente garantiram proteção moral aos milhares de terroristas jihadistas, inclusive à al-Qaeda, com base em Idlib.
A retirada dos EUA eliminaria a proteção que os EUA deram e ainda dão aos terroristas jihadistas, cuja sobrevivência passaria a depender da capacidade da Turquia para impedir que violem o acordo temporal sobre Idlib entre Rússia, Irã e Turquia.
O establishment norte-americano nunca levou a sério a luta contra o ISIS e a al-Qaeda. Quando Obama estava no poder, limitou-se a contemplar os avanços do ISIS que se fortalecia no Iraque entre 2014-15, consciente de que logo se expandiria até a Síria. Uma profundíssima preocupação com o meio ambiente levou o bom Obama a nunca atacar milhares de caminhões, pelos quais os terroristas do ISIS contrabandeavam petróleo. A mesma preocupação com o meio ambiente garantiu mais de 1 bilhão de dólares mensais para o grupo terrorista, dentre outras fontes de renda. Tudo, porque Obama tinha sincero interesse em não contaminar o meio ambiente na Síria e no Iraque.
Quando Trump chegou ao poder, prometeu retirar-se da Síria. Mas os promotores belicistas de seu círculo íntimo convenceram-no a lá permanecer por muito mais tempo. Ofereceu então apoio militar à Força Aérea de Israel, quando permitiu que os aviões de Netanyahu pousassem em al-Hasaka, convertida em base para que Israel atacasse bases próximas do exército sírio; a base iraniana T4; e, em junho de 2018, a base de comando e controle das forças se segurança do Iraque de Al Hashd al-Shaabi, ao largo da fronteira Iraque-Síria.
Bagdá protestou contra a presença norte-americana e decidiu, já no governo do novo primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi, enviar o grosso das forças da base de Hashd al-Shaabi para as fronteiras, para limitar os movimentos de EUA-ISIS na área.
No sudeste da Síria, os EUA ficaram cercados por forças iraquianas e sírias decididas a impedir que os terroristas ISIS-EUA cruzassem fosse o Eufrates, fossem as fronteiras entre Iraque e Síria. Além disso, os EUA também abastecem, a custo muito alto e sem o correspondente benefício, as dezenas de milhares de refugiados sírios no campo de refugiados de al-Rukban.
Apesar do que dizem ingenuamente alguns, para os quais a retirada dos EUA permitiria que as forças de Teerã e aliados se transferissem para Al Hasaka para ‘preencher o vácuo”, a verdade é que a República Islâmica do Irã transportou milhares de toneladas de mísseis, armas, alimentos, medicamentos e toda a infraestrutura básica necessária para a sobrevivência do establishment sírio, durante anos, sem jamais precisar de al-Hasaka, onde hoje estão os EUA. Claro que a retirada dos EUA é vitória para o Irã, porque a retirada ajuda o principal aliado de Teerã, Bashar al-Assad, a recuperar o controle de quase 1/3 da Síria, com seus recursos de petróleo e gás, e evita que a Turquia ocupe mais território no norte.
O movimento dos EUA, de sair da Síria, beneficia sobretudo a própria Síria e os sírios. Beneficiará a Rússia e as perspectivas de paz para o mundo, porque reduz significativamente a possibilidade de conflito entre as duas superpotências, cujas forças operam hoje perigosamente próximas, uma da outra. Já aconteceram contatos fatais entre EUA e Rússia no Levante, até hoje milagrosamente sem consequências.
O Irã verá com alegria os EUA saírem da Síria. A retirada dos EUA apaziguará a preocupação dos turcos quanto às forças do YPG que colaboram com o PKK nas fronteiras; e reduzirá a probabilidade de que a Turquia amplie a ocupação de Afrin e Idlib. O Iraque também se beneficiará, por já não ter de comprometer tantas forças para vigiar os EUA, obrigado a limitar os movimentos das forças dos EUA e o risco de qualquer possível choque contra elas.
O governo belicista de Israel pode lamentar perder o acesso aos aeroportos dos EUA no território sírio ocupado. Em qualquer caso, não faltará a Israel o apoio dos EUA e aliados no Oriente Médio, para servir como plataformas para os objetivos e propósitos de Israel no Oriente Médio.
Tudo isso acima pressupõe uma retirada séria dos EUA, da Síria. A retirada pode demorar de 60 a 100 dias, como anunciado, mas pode levar mais tempo. Em qualquer caso, esse intervalo possibilitará que todas as partes repensem a respectiva estratégia. Estimulará os curdos para que voltem a Damasco e reatem negociações sem condições com o governo. Dará tempo à Turquia para pensar seu próximo movimento; e permitirá à Síria planificar a reconquista do resto de seu território ocupado em 2019. Se Damasco e Moscou decidirem que podem lidar com Idlib e al-Hasaka sem a ajuda de seus aliados, espera-se que Irã possa começar a retirar da Síria milhares de homens, sem que por isso se rompam os elos que unem Irã e Síria.
Se Trump não se retirar, pode-se crer que tenha operado para desviar a atenção e fazer esquecer o assassinato de Khashoggi. Com isso, deu aos curdos muito material para reflexão sobre o que esperar dos EUA, no futuro.
EUA a um passo de ter de devolver o Af-Paq aos Talibã, al-Qaeda, por MK Bhadrakumar
Os Talibã anunciaram na terça-feira que cinco homens, da alta direção do grupo, que estiveram presos em Guantánamo, apresentaram-se ao gabinete político do grupo, no Qatar. É desenvolvimento dramático, que assinala que as conversações entre os Talibã e os EUA avançam seriamente, em busca de um acordo para o Afeganistão.
Os cinco foram figuras da alta hierarquia do governo do regime dos Talibã nos anos 1990, homens de confiança do falecido Mulá Omar: o ex-ministro do Interior Mulá Khairullah Khairkhwa; o ex-comandante do Exército Muhammad Fazil; o ex-governador de Balkh e Laghman Noorullah Noori; o vice-chefe da inteligência dos Talibã Abdul Haq Wasiq; e o comandante de comunicações dos Talibã, Nabi Omari.
Os cinco foram libertados da prisão de Guantánamo em 2014, pelo governo de Barack Obama, depois de 12 anos de prisão, em troca do sargento de Exército Bowe Bergdahl, mantido refém dos Talibã por cerca de cinco anos. Os cinco comandantes Talibã foram transferidos da Baía de Guantánamo para o Qatar, onde permaneceram sob proteção de autoridades locais. Se estão agora no escritório político dos Talibã em Doha, não há dúvida de que o movimento foi aprovado pelas autoridades do Qatar, com a concordância dos EUA.
A parte realmente espantosa desses eventos é que esses cinco líderes dos Talibã já carregaram, aos olhos dos EUA, o estigma de serem intimamente associados à al-Qaeda. Fato é que Washington já previu há muito tempo que, mais dia menos dia, seria necessário tentar reaproximar-se construtivamente da liderança mais linha-dura dos Talibã, para os EUA conseguirem arrancar-se de seu auto-atoleiro no Afeganistão. Isso basta para explicar por que os Talibã afegãos foram atentamente deixados de fora da lista do Departamento de Estado, de Organizações Terroristas Estrangeiras. Washington criticou a versão de que o Talibã Afegão é “insurgência” com controle sobre vastas porções de território e aspirações a governar o país. Convenientemente deixou a porta aberta para negociar com os “insurgentes” e reconciliar-se com eles, queira Deus, quando chegasse a hora.
Evidentemente, o governo Trump avalia que é chegada a hora. A libertação dos cinco temidos líderes dos Talibã com ligações com al-Qaeda tem tudo a ver com conversações de paz que vêm depois da recente visita do novo representante especial dos EUA Zalmay Khalilzad ao Paquistão e Qatar. Khalilzad é diplomata fazendo hora extra, correndo para negociar qualquer paz, ainda que envolva interlocutores que tenham sido muito intimamente associados com a al-Qaeda nos anos 1990.
Na verdade, aí se vê o realismo e o frio pragmatismo de Khalilzad, que é diplomata veterano, ao mesmo tempo em que também evidencia o senso de urgência dentro do governo Trump, de que é necessário negociar algum acordo, o mais depressa possível.
Não há qualquer sinal de que o governo de Cabul tenha sido consultado ou seja parte desse desenvolvimento no Qatar. Khalilzad trabalhará em regime de distribuir a mínima quantidade indispensável de informação, caso a caso, porque a política afegã é muito fragmentada, e será pílula dura de engolir, para a elite de Cabul, admitir que cinco internos da prisão de Guantánamo estarão de volta aos palcos políticos, como protagonistas.
Mular Baradar
Bem diferente disso, Khalilzad trabalha em regime de consultas próximas e intensas com Islamabad. A libertação do ex-número 2 da hierarquia Talibã, Mulá Baradar, pelo Paquistão (por interferência de Khalilzad) está em sincronia com o desenvolvimento no Qatar. Claramente, o Paquistão está posicionando Mulá Baradar, já antecipando o início de fatídicas conversações no Qatar, em futuro muito próximo.
O tempo voa, porque estão previstas eleições presidenciais no Afeganistão em abril de 2019. Os EUA estão intensamente conscientes de que mais um governo fantoche eleito em eleições-farsa e escandalosa manipulação pós-eleitoral não terá a mínima legitimidade necessária e condenará o país à desgraça. A parte complexa agora é levar os Talibã para o campo de jogo e conseguir que joguem na próxima disputa político-eleitoral.
Como isso seja possível, em tão pouco tempo, não se sabe. Em todos os casos, o que se vê adiante é transição difícil – perigosamente semelhante à transição patrocinada pela ONU em 1992, do governo dos comunistas para o governo dos Mujahideen, que colapsou de modo tão espetacular.
No instante em que começarem as conversações com seriedade e boa-fé, desaparecerá a última grama de legitimidade que ainda exista no cenário montado em Cabul. A pressão aumentará para que se preencha o vácuo que inevitavelmente aparecerá. Porém, tudo isso comparado com 1992, a parte boa é que, se os Mujahideen Afegãos racharam em grupos rivais, com alguns como o Jamiat hoje bem afastados do controle pelos paquistaneses, o mesmo não aconteceu com os Talibã. O Paquistão está em posição para empurrá-los na direção certa.
E o Paquistão esperará reciprocidade dos EUA; esperará que levem em consideração as sensibilidades e interesses dos paquistaneses – especialmente o renascimento do relacionamento de corpo inteiro entre os dois países. É criticamente indispensável que Washington e Islamabad andem lado a lado, em busca de ‘solução conjunta’ ao longo dos próximos seis meses, para que as conversações de Khalilzad, para pôr fim à guerra no Af-Paq, sejam frutíferas e produtivas.
Traduzido por Vila Mandinga
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