Gustavo Barroso & Gottfried Feder

Em ambos os autores, notamos a defesa da moralização da economia e um chamado à luta contra as altas finanças internacionais. O tema da opressão dos bancos e dos juros é mobilizado de forma bastante similar. Diferente, porém, de Barroso, Feder defendia um projeto engajado no expansionismo imperialista e no desenvolvimento industrial.

É incrível notar como as ideias de Feder dialogam com o integralismo de Gustavo Barroso, bem como possíveis trocas e argumentações concordantes dos mesmos, sempre tendo em mente que o integralismo foi um movimento “autônomo, surgido das circunstâncias históricas, sociais e políticas da sociedade brasileira da época e tinha toda uma doutrina adaptada a esta realidade, o que o diferenciava em muitos pontos do Nacional-Socialismo.
Integralistas e Nacional-Socialistas
Jefferson Rodrigues Barbosa observa que os integralistas sempre reafirmaram a originalidade de sua doutrina ante os regimes fascistas europeus, especialmente após a implantação do Estado Novo, quando o jornal “Acção” pautou seus artigos no sentido de desvencilhar o integralismo de manifestações europeias. Porém, os trechos “d‟Acção” de dezembro de 1937, que Barbosa cita, contém passagens que já haviam sido escritas por Barroso em “O quarto império” (1935) e “O integralismo e o mundo” (1936).
O fato de Integralistas e Nacional-Socialistas dizerem-se diferentes não é algo impróprio de suas respectivas ideologias que muito se aproximavam mas que porém naturalmente divergem também por muitos motivos. Le Goff diz que os escritos integralistas devem ser lidos, como monumentos: tentativas conscientes ou inconscientes de um grupo ou sociedade de passarem uma imagem de si mesmos.
Cada um dos movimentos puramente nacionalistas, isso é, que buscaram sair do espectro de um antagonismo ou dicotomia ainda reinante entre marxismo e liberalismo, esquerda e direita, progressismo e conservadorismo, oque Juan Perón (1895 – 1974) pouco depois definiria, citado a sua própria gestão, como uma “Terceira Posição” (não confundir com a ‘Terceira Via’ social-democrática dos anos 1990), tem em comum fundamentar os sentidos principais de suas identidades de dentro para fora de suas ideias e organizações.
Cabe a nós distinguir esses pontos e evoluir nossas próprias definições a partir do que foi dito e feito anteriormente, não aderindo as intenções daqueles que aceitam ingenuamente a imagem que queriam passar de si ou que podem ser simplesmente colocados “na mesma sacola”. Um dos grandes trunfos do Integralismo brasileiro era sua não-filiação a ideias estrangeiras. Enquanto o liberalismo e o marxismo seriam ideias importadas, o integralismo era considerado a única doutrina tipicamente brasileira e, por isso, a única capaz de lidar com os problemas do país. Por isso a insistência dos integralistas em reafirmar a originalidade de sua doutrina
Gustavo Barroso e Gottfried Feder
Ambos foram importantes ideólogos de seus respectivos movimentos, onde ambos têm discursos muito similares, especialmente no ataque que empreendem aos juros e ao capital financeiro. O fato de Barroso ter sido um leitor de Feder também foi um fator que corrobora com isso. Ambas as obras analisadas – “Das Programm der NSDAP” e “Brasil, colônia de banqueiros” – abordam o mesmo “x” da questão, expondo questões que vão além da política visível, onde as ações  e decisões políticas e econômicas eram ditas, não começavam nos plenários e parlamentos, mas nas mesas de negociatas da Alta Finança já a muito tempo.
Gottfried Feder (1883-1941) foi o responsável por elaborar a doutrina econômica do Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP – ‘Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei‘ – ‘Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães’). Nascido na cidade bávara de Würzburg. Em 1917, Feder funda a Liga de Combate Alemã para a Abolição da Escravidão dos Interesses Pessoais. Sua palestra na sede do Partido dos Trabalhadores Alemães, em 1919, despertou o interesse de Hitler, que se filiou e tomou as rédeas do partido, vindo a transformá-lo no NSDAP.
Gustavo Barroso (1888-1959) nasceu em Fortaleza, Ceará, vindo a ingressar na Ação Integralista Brasileira (AIB – Ação Integralista Brasileira) em 1933. Na hierarquia da AIB, ele estava atrás apenas do chefe nacional, Plínio Salgado. Entre as lideranças integralistas, ele destacava-se por abordar a temática do sionismo internacional e sua negatividade na história e na sociedade atual. Nos escritos de Barroso, vemos referências ideológicas das obras de grandes nacional-socialistas como Alfred Rosenberg, Houston Stewart Chamberlain e o já citado Gottfried Feder. Em 1934, Artur Schmidt-Elskop, ministro alemão no Brasil, escrevia que Gustavo Barroso havia lhe consultado, demonstrando interesse em materiais sobre o nacional-socialismo. Em outro momento, um relatório policial de janeiro de 1937 mostra que entre os exemplares da biblioteca do núcleo integralista de Cantagalo-RJ estava uma edição de Bases do nacional-socialismo, de Gottfried Feder.
Tanto em Barroso como em Feder, vemos uma denúncia constante do que os autores chamam de “mamonismo”, a adoração compulsiva da riqueza. Por trás do mamonismo estaria o grande capital financeiro internacional que esmaga o direito de autodeterminação dos povos. No topo dessa maquinação estaria aquilo que Feder chama de “plutocracia internacional. Barroso acusa o capitalismo internacional de forçar os países a sacrificarem enorme parcela de seu orçamento para o pagamento de dívidas. Ele define esse estado como uma “servidão dos juros do dinheiro”, lembrando a expressão cunhada pelo engenheiro alemão, Feder.

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Gottfried Feder e a “servidão dos povos”
As pessoas que agiram de forma economicamente irracional no passado já não conseguem domar o caos reinante. Espremidas por cima pelos impostos e juros, ameaçadas por baixo pelo rancor anormal das massas de trabalhadores, elas se jogaram à cegueira absurda do capital financeiro e do “Estado” a seu serviço. Os espoliadores que se beneficiam desse estado de caos permitirão a essas pessoas figurarem somente como guardadores de escravos da massa” – Gottfried Feder, “Das Programm der NSDAP und seine weltanschaulichen Grundgedanken”, p. 25, 1932.
A escolha do termo “espremidas” (ausgepreßt) demonstra a situação delicada em que as camadas médias alemãs se encontravam, hostis às altas finanças que as empurravam para a proletarização, mas temerosas diante do recrudescimento do movimento operário. A própria trajetória de Hitler representa esse estado de coisas. Ao ver os recursos de sua herança se esgotarem, Hitler passou por dificuldades financeiras, passando frio e fome, ao mesmo tempo em que se recusava a procurar um emprego regular. Seu grande temor – como o de grande parte da pequena burguesia alemã – era cair nas fileiras do proletariado vermelho organizado, que já na época eram força quase absoluta entre os sindicatos, principalmente os tradicionais operários. 

Feder (no centro, do lado de Hitler) e os líderes políticos (Gauleiters) regionais do NSDAP em 1933
O poder descomunal dos bancos sempre foi aspecto da crítica do Nacional-Socialismo. Assunto bastante debatido desde o século anterior com o crescimento da importância dos bancos na economia alemã. O poder cada vez maior do sistema bancário, transcendendo a dimensão regional, era tema central de muitos discursos que denunciavam a autoridade do capital financeiro. Os ideólogos nacional-socialistas viam no capital financeiro um entrave à economia nacional (‘Volkswirtschaft’ – Economia Nacional), que só poderia se desenvolver se prevalecesse a harmonia entre patrões e trabalhadores. Doutrina bastante pregada por Feder, vide “As bases do Nacional-Socialismo“.
O cenário no qual o nacional-socialismo emergiu, entre a primeira e a segunda década do século XX, foi marcado por sérios conflitos sociais. A concentração cada vez maior de riquezas por parte da Oligarquia local e Internacional, ignorando o sofrimento das massas e deixando-as mais próximas dos comunistas que estavam em pleno crescimento na Europa, vide a tomada de poder em 1917, pelos soviético na Rússia antes czarista.
Esse cenário ficou mais agudo principalmente no pós-guerra, onde fora assinado o Tratado de Versalhes e durante a crise de 1929. Ao narrar a história do nacional-socialismo, Walter Frank, importante historiador do Terceiro Reich (Terceiro Império Alemão), destacou a virtude de Hitler ao reconhecer o quanto as antigas camadas dirigentes da Alemanha imperial estavam obsoletas, incapazes que eram de compreender a psicologia das massas. Só Hitler teria compreendido a necessidade de se criar um novo nacionalismo, baseado no povo e atento às suas carências. Por outro lado, a agudez dos movimentos operários e os conflitos sociais cresciam na medida do medo do comunismo e sua adesão nas classes trabalhadoras. Não obstante é bom lembrar que o maior partido entre os socialistas vermelhos, os Social-Democratas alemães(SD), era parte da bancada governista do pós-guerra, oque aumenta a indignação dos nacionalistas. Portanto, o nacional-socialismo veio à tona com a proposta de uma terceira opção ao comunismo e ao capitalismo liberal.
Gottfried Feder então redigiu o programa do Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães em 1920. Neste programa encontramos os importantes 25 pontos do partido (‘Das Programm der NSDAP’).
Nele, sua crítica ao capitalismo liberal não ia contra a propriedade privada, como faziam e fazem os comunistas, mas nele, o próprio capitalismo era identificado como a ameaça à propriedade privada, onde por meio dos bancos, os especuladores da finança internacional explorando os proprietários com juros e especulação. Se, por um lado, o comunismo com sua tese científica visava a abolição da propriedade privada e do Estado, por outro, o capitalismo liberal promove a concentração de riquezas nas mãos de um grupo cada vez mais restrito. O autor valoriza o campesinato tradicional como exemplo de produção saudável, onde observa a ligação com a terra num contraste ao espírito cosmopolita e desenraizado representado pela figura do  sionismo internacional e das Altas Finanças. 

Imagem ilustrando o ditar dos 25 pontos ao NSDAP. 

 

Sobre esse “judaico-sionismo internacional”, uma importante obra de um “capitalista” norte-americano, Henry Ford (1863 – 1947), cujo título é bem específico, “O Judeu Internacional“, também escrita em 1920, aborda o assunto com muita profundidade e extensão.
Feder observa ainda que “Três grandes inimigos se colocam contra a realização do programa nacional-socialista: o marxismo, o parlamentarismo e, acima de ambos, o grande capital financeiro.” Uma elucidada desconstrução do antagonismo entre comunismo e capitalismo, ambos aliarem na mesma empreitada:

Capitalismo e marxismo são uma coisa só! Eles derivam dos mesmos fundamentos espirituais. Nós, nacional-socialistas, somos seus maiores inimigos porque nos separa um mundo; separa-nos toda uma noção de construção da sociedade. Para nós não se trata de classes ou luta de classes, de classes ou egoísmo de classes – o bem geral é a lei primordial – Gottfried Feder, “Das Programm der NSDAP”, p. 57″

A luta de classes é um fator negativo, pois desagrega a nação e incita ao egoísmo, colocando os interesses de uma classe acima dos interesses das demais. Por isso, o nacional-socialismo não se deve prender por particularidades classistas econômicas.

Apesar de todos os gritos marxistas, apesar das frases piedosas do Zentrum, apesar dos clamores da economia contra o fardo dos impostos e dos juros, desconhece-se o verdadeiro inimigo mundial, composto pelo cerne do grande capital e por seus representantes: os judeus. O povo é chicoteado pelos juros, todas as camadas sociais estão com os cobradores de impostos em seu encalço – mas quem se atreve a levantar-se contra a onipotência dos bancos e do capital financeiro? Contrariando todas as experiências, o capital financeiro, sem esforço e sem trabalho, cresce por si só cada vez mais, por meio dos juros, dividendos e aluguéis, tornando-se cada vez mais poderoso. […] Nós todos sabemos que nem os partidos de esquerda, com seus gritos mentirosos de “abaixo o capitalismo!”, nem os partidos de direita com suas frases patrióticas têm a competência de inaugurar uma nova época mundial […]. – Gottfried Feder, “Das Programm der NSDAP”, p.

Ao escrever que “todas as camadas sociais estão com os cobradores de impostos em seu encalço”, Feder exatamente essa questão da classe para o nacional-socialismo. Enquanto a tese marxista lutaria em benefício de uma classe específica, a do operário, o nacional-socialismo luta em prol da nação. Enquanto os partidos das democracias, ainda hoje identificavam-se com determinado segmento de classe, como por exemplo, em tese os liberais ou conservadores com a classe média e alta e os marxistas/socialistas vermelhos com a classe baixa, formando nichos eleitorais, o nacional socialismo transcendia a questão classista e busca alcançar a todos. No futuro, o NSDAP seria o primeiro partido – pelo menos da Alemanha -, a se dirigir a diferentes categorias profissionais com discursos sob medida para cada uma delas.

“Governo contra povo, partidos contra partidos originando as mais improváveis alianças, parlamentos contra governos, trabalhadores contra patrões, consumidores contra produtores, comerciantes contra produtores e consumidores, inquilinos contra proprietários, trabalhadores contra fazendeiros, funcionários públicos contra o público, classe trabalhadora contra “burguesia”, Igreja contra Estado, todos furiosamente engajados na luta contra seus inimigos, todos tendo apenas uma coisa em mente – seus próprios interesses pessoais, sua posição de poder, o interesse dos seus despojos […]. Não se pensa mais na prosperidade dos compatriotas, não se olha para as necessidades da coletividade, não cessa a caça incessante por enriquecimento próprio.” – Gottfried Feder, “Das Programm der NSDAP”, p. 27.

 

[…] mas quem, nos últimos meses, ouviu falar de trabalhadores marxistas que tenham matado seus patrões, seus correligionários, ou até mesmo um usurário e grande sugador de sangue a serviço dos bancos e da bolsa? As vítimas desse caos foram simples e humildes trabalhadores. […] os marxistas figuram como os grandes espoliadores de sua própria classe […] – Gottfried Feder, “Das Programm der NSDAP”, p. 24.

Claro que o ditado que diz que não se pode agradar “à gregos e troianos”, numa tal retórica que determina o todo do corpo nacional que compõe um país ou nação ao qual o nacional-socialismo visa determinará, por muitas vezes, que muitos teóricos estejam mais próximos da questão “proletária”, ou seja, da questão social e popular, como é o caso de Feder e Goebbels e aqueles que veem mais arrastados as questões financeiras das camadas economicamente mais altas. Difícil é politicamente organizara e articular políticas que visem não somente uma classe, mas um corpo inteiro. Foi essa sempre a questão principal entre o empresariado alemão e o NSDAP. Uma relação que não foi conflitante, quando comparamos os números da Alemanha sobre gestão nacionalista, dignos ou melhores que da época de ouro do desenvolvimento industrial de Bismarck na pós-unificação prussiana. 

Gottfried Feder, engenheiro e economista. Consolidador da doutrina econômica do Nacional Socialismo alemão na década de 1920 e 1930

 

Feder, em sua denúncia da supremacia do capital financeiro também fundamentava a situação deplorável em que a Alemanha se encontrava, moral, social e espiritualmente.
Dentre os 25 pontos do partido, Feder destaca o ponto 11, que defende a “quebra da servidão dos juros” (Brechung der Zinsknechtschaft). A servidão dos juros era a situação na qual vários povos do mundo se encontravam de submissão à opressão do dinheiro e dos juros, todos controlados pelas altas finanças. Objetificava que a “quebra da servidão dos juros é o eixo de aço em torno do qual todas as demais questões giram para uma solução da questão social.
Questionando a legitimidade da cobrança de juros, Feder dizia que a economia devia recuperar sua função primordial de servir ao homem:

A tarefa da economia nacional é suprir as necessidades, e não fornecer maior rentabilidade ao capital financeiro. Essa política econômica abrange o ponto de vista nacional-socialista acerca da propriedade privada, acerca da construção de nossa economia em suas diversas formas de organização (pequena, média, grande e imensas propriedades – cartéis e trustes) e as mais importantes questões, que dizem respeito ao fato de que a economia nacional não deve significar espoliação nacional, nem uma economia calcada em lucros! […] O sistema monetário está a serviço do Estado; o poder financeiro não pode constituir um Estado dentro do Estado.” – Gottfried Feder, “Gottfried. Das Programm der NSDAP”, p. 33.

Esse “Estado dentro do Estado” havia  arrastado a Alemanha à situação de prostração na qual ela se achava, assim como qualquer país sobre a situação de domínio financeiro do hoje definido “Sistema da Dívida” Pública, cujas bases incluem aniquilação de monopólio nacionalizado estratégico, perca territorial e decaimento cultural e das condições sociais… resumindo, países como o Brasil.
Se muitos acham exagero, que a Alemanha não fosse considerada mais pelos nacional-socialistas um Estado soberano, mas uma colônia escravizada na década de 1920, após a rendição, essa situação se faz presente hoje, por exemplo, através da rendição incondicional pós-1945, onde desde a queda do governo nacional alemão desta data, não há um tratado de paz, as tropas estrangeiras continuam, a cultura e o nacionalismo foram vedados, a população foi desnacionalizada através da educação, mídia e política controladas, onde hoje representam não mais que o coração da UE para o seu establishment unificado. Isso tudo perdura mesmo após a reunificação em 1989.
É preciso apontar uma outra diferença fundamental na obra de Feder e a concepção do nacional-socialismo sobre capitalismo liberal. A questão industrial. Uma vez que diferentemente da observação marxista e anarquista, no nacional-socialismo estão apontados como pontos vitais de importância da nação tanto a propriedade privada como a comunhão das classes ao corpo nacional e não a sua destruição, Feder distinguia dois tipos de capital: o “capital criador” e o “capital parasitário”. Este último era associado ao capital financeiro especulativo, judaico por excelência em sua origem histórica filosófica e material, que não era produtivo e beneficiava apenas um grupo restrito de pessoas. Já o capital criador era o capital industrial, produtivo, que beneficiava toda a nação e inibia os conflitos de classe.
Contrastando o “verdadeiro empresário” com o banqueiro, Feder enuncia que o primeiro deve:

[…] reconhecer as verdadeiras necessidades econômicas da nação […] e então sondar os melhores e mais baratos procedimentos de produção, reduzir os preços ao máximo para introduzir seus produtos, entregar mercadorias impecavelmente, assegurar o abastecimento, remunerar bem os seus trabalhadores a fim de ter neles consumidores de seus produtos, estar sempre atento às novidades e melhorias na empresa e nas vendas. Caso o empresário assuma essas ações como diretrizes máximas de seu negócio, ele estará servindo da melhor maneira possível à “satisfação das necessidades” e o lucro virá por si próprio, sem que ele precise lutar por ele como seu grande objetivo. O exemplo mais evidente e mais bem conhecido desse tipo de empresário é Henry Ford. Não menos expressivos nesse sentido são os verdadeiros grandes criadores de nossa indústria pesada: os Krupp, Kirdorf, Thyssen, Abbé, Mannesmann, Siemens, apenas para citar alguns. – Gottfried Feder, “Das Programm der NSDAP”, p. 46, 47.

 

Feder era entusiasta da industrialização e da modernização tecnológica. Somente advertia que os proprietários de fábricas deveriam zelar primordialmente pela qualidade dos seus produtos e pelo bem-estar de seus trabalhadores e da população em geral. Os lucros seriam apenas uma recompensa merecida. Desde que esse capital esteja nas mãos dos nacionais e seja empregado em prol da nação, ele não deve ser atacado.
Num contexto maior, a Alemanha também não gerou somente os nacional socialistas numa única bandeira levantada sobre a questão dos modos produtivos válidos à nação. Na mesma época, Werner Sombart (1863-1941), por exemplo, acusava o mercador judeu de prender seus consumidores pelos preços baixos, obtidos graças à produção de uma grande quantidade de bens, sem se preocupar com a qualidade dos mesmos. O autor, assim como Feder, exaltava a produção para uso, bem como as virtudes empresariais mais antigas, típicas das pequenas e médias empresas, nas quais a esfera da produção era mais importante do que a esfera da circulação. Oswald Spengler (1880 – 1936) também já falava sobre o alerta com relação a questão do “banqueirismo” especulativo.
Feder chega a focar que a luta nacional socialista não é de cunho somente político, social ou econômico, mas de cunho espiritual, “contra o espírito judaico-materialista dentro e fora de nós”, focando no povo alemão mas afirmando de forma categórica ao mesmo tempo que o efetivo restabelecimento do povo só pode ser alcançado de dentro para fora.

“Em última instância, tem-se um embate entre duas concepções de mundo que se expressam por meio de duas estruturas espirituais: o espírito criador e o espírito errante e rapace. O espírito enraizado e criador, mas que se eleva acima das vivências mundanas, tem o seu principal representante nos homens arianos; o espírito rapace, desenraizado, materialista e mundano, típico de mercadores, encontra nos judeus os seus principais representantes.” – Gottfried Feder, “Das Programm der NSDAP”, p. 38,39.

G. Feder (perfil)

Um último aspecto importante, puxado pelo anterior, faz referencia a unidade popular para tanto. Feder, nisso colabora com o que o próprio Adolf Hitler faz menção em seu “Mein Kampf” (Minha Luta), onde defendia a união sobre uma bandeira da Áustria (um Estado alemão) ao Império Alemão a qualquer custo e após a guerra, a retomado das regiões fronteiriças estratégicas, não só como garantia econômica para um país comprimido no centro da Europa numa época de neocolonialismo tardio mas também garantia de reavivamento motivacional popular com sentimento de integração, confiança econômica interna e disponibilidade de material humano para produção… uma vez que o nacional socialismo substitui o padrão de riqueza “ouro” ou capital especulativo pelo da força e capacidade de produção.

A ideia de que para tal projeto ser possível, é necessário a reunião do povo que constitui a nação ou o país. Feder citava que a reunião de todos os alemães em uma mesma fronteira e a restauração do império colonial alemão: “queremos ter novamente um Império Alemão livre e esse futuro Império Alemão livre deve ser o lar dos alemães”. É por isso que “Todos aqueles que têm sangue alemão e que hoje se acham sob autoridade dinamarquesa, polonesa, tcheca, italiana ou Francesa devem ser reunidos em um Império Alemão.” Logo nos pontos 1 e 3, “Nós exigimos a reunião de todos os alemães em uma grande Alemanha, com base no direito de autodeterminação dos povos” e “Nós exigimos terra e solo (colônias) para o sustento de nosso povo e para o escoamento de nosso excedente populacional.”
Apesar de isso ser reconhecido como uma natureza agressiva da política externa nacional-socialista, é necessário também levar em conta o fato da situação geopolítica em que a Alemanha fora deixada após a guerra, frente as imposições injustas de Versalhes (1918/19), onde se tornava inviável, dentro dum território desfigurado, onde várias regiões estratégicas ao desenvolvimento independente de capital financeiro externo objetivado tornava-se impraticável, culminando na falta de soberania.
Isso hoje é muito aplicável no cenário dos países emergentes que precisam sujeitar-se ao juros fácil do mercado especulativo e das extorsão da Dívida Públicas, ou mesmo o sufocamento de expansões territoriais e projeto armamentistas… como o Brasil.
Gustavo Barroso e a “colônia de banqueiros”
Brasil, colônia de banqueiros, escrito em 1934, foi um dos livros mais famosos de Gustavo Barroso. Analisando os empréstimos contraídos com banqueiros estrangeiros de 1824 até 1934, sobretudo banqueiros de origem judaica, Barroso conclui que o Brasil nunca teria sido soberano, pois à independência política se seguiria a dependência econômica. Conclui, portanto, que “É urgente que os governos deixem de ser, como os qualifica Gottfried Feder, cobradores de juros por ordem de senhores anônimos.”
“Reparai que com vinte e um anos de vida independente, estamos sempre com a corda ao pescoço, fazendo empréstimos para pagar juros de outros empréstimos, cujas sobras incorporamos a novos empréstimos, círculo vicioso em que temos vegetado até hoje, cada vez pior. […] Os juros são, como se vê, uma invenção mirífica. Sobretudo os juros de usura.” 

A AIB – Ação Integralista Brasileira, em 1934. Movimento organizado pelos intelectuais nacionalistas da época que contava com Plínio Salgado, Gustavo Barroso e Miguel Reale como cabeças no Brasil.
 
Tal como Feder, Barroso vê nos juros um instrumento pelo qual a economia escraviza a nação ao invés de servi-la. Ambos reivindicavam o retorno de uma função moralizadora para a economia, apontando o o elemento judaico internacional da Alta Finança como principal agente desvirtuador dessa função, como os bancos Rotschild, por exemplo. Do Império à República, Barroso traça o retrato de um país espoliado pelo capital estrangeiro e pelos banqueiros e a transformação da moeda em mercadoria.
Dialogando com Feder, que denuncia a existência de poderes paralelos ao Estado na Alemanha, Barroso escreve:

“Apregoando a sua pretensão de formarem assim um Estado dentro dos outros Estados ou superior a todos os Estados, os judeus apelam para os conceitos de raça e de religião, quando qualquer nação procura impedir a formação dessas entidades nacionais, verdadeiros quistos no seu organismo.” – Gustavo Barroso, Brasil, colônia de banqueiros, p. 68.

 

Gustavo Barroso
Na era que viveu a crise de 1929 no Brasil, ela gerou um sério descontentamento em relação aos postulados liberais na economia e na política, surgem, em grande parte do antigo conservadorismo militar da Primeira República, os integralista. Após 1930 (e principalmente 1932), acreditando que sua geração definiria os rumos da nação, vários intelectuais da linha de frente da AIB tomaram a Primeira República como prova da decadência do liberalismo e passaram a atacá-la, vista seu fracasso.
Segundo Demósthenes Madureira de Pinho, militante da AIB, “o dilema fascismo-comunismo esmagava qualquer capacidade de raciocínio” da juventude da época, “a não ser dos que, herdeiros de uma situação diluída pelo tempo, sonhavam manhosamente em prosseguir naquele jogo vazio e falso que se apelidava de liberal-democracia. Estando o liberalismo destronado, Barroso tenta mostrar que uma postura que muito mas parecida com o “fascismo”, mas não importada, era a melhor opção, apontando igualmente que o comunismo e o liberalismo faziam parte do mesmo projeto:

Ela [a mocidade] repele o liberalismo que deu a argentários e governantes os meios de realizar as tramas sinistras de que resultaram a nossa escravização e a nossa corrupção. Ela deve também repelir o comunismo, que é a doutrina traiçoeira assoprada ao desespero das massas exploradas por esses mesmos judeus capitalistas e esses mesmos burgueses corruptos, a fim de tirar ao proletariado todos os seus esteios morais: disciplina, hierarquia, família, pátria e Deus, para escravizá-lo de vez ao mais grosseiro materialismo.

Ao contrário do comunismo, Barroso e os nacionalistas integralistas entenderam que o sistema capitalista tinha um viés muito mais moral do que econômico, e por sua vez, o comunismo é apenas um “alívio momentâneo” que os próprios argentários capitalistas lançaram para aplacar o furor das massas exploradas. Capitalismo liberal e comunismo/marxismo seriam doutrinas aparentemente antagônicas, mas a serviço dos mesmos interesses – os interesses judaicos –  atentando contra o povo e a classe trabalhadora, já que o afasta dos valores fundamentais como a família, a religião e a pátria.
 Desmitificando o falso antagonismo entre liberalismo e comunismo, Barroso escreve:

O problema fundamental da nossa pátria é a sua escravização secular ao capitalismo internacional. Contra isso é que devemos achar remédio. O liberalismo-democrático de coroa e de barrete frígio conduziu-nos a esse estado de coisas […]. O comunismo pretende-se com credenciais bastantes para resolver o problema e mente pela gorja, como diziam os clássicos. Porque o comunismo é a outra face do capitalismo. Ambos formam o deus Janus do materialismo moderno […]. Tanto o capitalismo científico como o comunismo científico saem do liberalismo econômico, são seus filhos gêmeos e pretendem a mesma absoluta autonomia e preponderância dos fenômenos econômicos e dos fenômenos materiais sobre os fenômenos espirituais, morais e religiosos. – Gustavo Barroso, “Brasil, colônia de banqueiros”, p. 115, 116.

De uma forma mais localizada, fazendo referência ao cenário político brasileiro da metade dos anos 1990, Enéas Carneiro, médico especialista e ex-militar, fundador do PRONA (Partido pela Reedificação Nacional), dizia em seu horário eleitoral:

Se sua realidade é a que o senhor vê na Televisão, no programa do presidente, tudo colorido, todos com dentes, artistas milionários,… se é essa a sua realidade, então vote neles… PSDB, PP, PT, PMDB, qualquer ‘P’, sempre estiveram juntos, é falsa a briga entre eles. […] – Enéas Carneiro, PRONA, 1998.

 

Tanto em Gustavo Barroso como em Gottfried Feder desconstroem antagonismo entre comunismo e capitalismo, os autores concordam que essas forças são parceiras no mesmo projeto de destruição das nações. Assim como o capitalismo e o comunismo, o judeu é visto como um povo cosmopolita, desenraizado, incapaz de constituir uma nação. Por isso, Barroso cita embasadamente:

“Durará isso para sempre? Será esse o nosso trágico destino? Seremos servos humildes do judaísmo capitalista de Rotschild ou escravos submissos do judaísmo comunista de Trotsky, pontos extremos da oscilação do pêndulo judaico no mundo? Ou encontraremos no fundo da alma nacional aquele espírito imortal de catequizadores, descobridores, bandeirantes e guerreiros, único que nos poderá livrar de ambos os apocalipses? Desperta Brasil, “adormecido eternamente em berço esplêndido”, desperta e caminha! Já é tempo de fazeres retinir e retilintar as tuas algemas, amedrontando os que te vendem ainda e os que te têm comprado!” – Gustavo Barroso, “Brasil, colônia de banqueiros”, p. 85

O nacional-socialismo alemã, enquanto aspirava a tradição do passado na Idade Média e o fascismo italiano às glórias do Império Romano, o integralismo mostrava o resgate do espírito de catequizadores, bandeirantes, descobridores e guerreiros.
Grandioso na arte da escrita, algo marcante na argumentação de “Brasil, colônia de banqueiros” é o uso de metáforas coloniais para simplificar a posição do Brasil diante do capitalismo internacional. Expressões como “servos humildes”, “escravos submissos” e “algemas” onde o povo está “de joelhos” diante do capital financeiro, indiferente aos sofrimentos e aflições das nações. Feder também usou dessas metáforas para simplificar até mesmo ao cidadão mais comum sua definição de que o povo alemão era “chicoteado pelos juros” e a Alemanha era “uma colônia escravizada”. Barroso descreve a relação de seu país com o sistema financeiro liberal usando metáforas com a questão da submissão, ou seja, falta de independência e alto-gestão:

“Assim, prossegue a marcha da escravidão de um povo. Os empréstimos se multiplicam; as emissões espinhosas se reproduzem; as operações e negócios estabelecem a trama com que se manieta a nacionalidade. E um país que chegou a esse ponto não tem mais do que deixar-se sugar pelo tremendo polvo que lhe lançou as antenas. Pois a confusão se estabelece em todos os quadrantes da vida nacional. Os partidos políticos, em cuja proa aparece a catadura dos amigos dos banqueiros, assumem atitudes as mais variadas, para iludir o povo, ora com o regionalismo separatista, ora com o acenar novas e maiores liberdades, ora a defender obscuros princípios revolucionários.” – Gustavo Barroso, “Brasil, colônia de banqueiros”, p. 18, 19.

É visível, tanto em Gottfried Feder como em Gustavo Barroso, esse empenho em esboçar um quadro caótico da realidade de seus países. “O caos reina sobre a Terra, confusão, luta, ódio, inveja, briga, opressão, exploração, brutalidade, egoísmo […]. As mentes estão confusas!”, diz Feder.
Gustavo Barroso

A AIB, assim como tantos outros grupos políticos na América Latina, se mobilizava em prol da soberania nacional, criticando a opressão do capital estrangeiro. Por mais que grande parte desses outros grupos políticos se situasse à esquerda do espectro político, no Brasil dos anos 1920 e 1930 havia temas-chave que eram mobilizados tanto à direita como à esquerda. Os ataques às companhias estrangeiras, aos latifundiários e seus agentes e o clamor pela maior interferência do Estado na economia eram alguns deles. Em um país que já havia sido colonizado de fato, no qual a escravidão já tinha sido a força de trabalho predominante e cujos grandes debates, nos anos 1930, giravam em torno da autonomia econômica e cultural diante das potências estrangeiras, o uso de metáforas coloniais parecia tão adequado quanto na Alemanha submetida ao Ditado de Versalhes. O próprio nome de sua obra – “colônia de banqueiros” – expressa certa angústia diante de um país cuja independência política já durava mais de um século, mas cujo fantasma da dependência continuava a assombrar.

Um bom exemplo de como o tema da soberania nacional era discutido entre integralistas e as esquerdas está nos debates intelectuais da época. A esquerda brasileira acusava os integralistas de serem os verdadeiros inimigos da soberania nacional, agindo a serviço dos “feudal-burgueses” e do imperialismo “nazifascista”. Barroso retruca que os que acusam o integralismo de ser um capitalismo disfarçado “é que são, na verdade, os agentes secretos dos capitalistas sem pátria, que lançam mão do comunismo para acabar com a família e com as pátrias.”
Nesse cenário, apenas o integralismo teria tido a coragem de se levantar contra o capital especulativo. Enquanto as demais forças políticas estariam ou comprometidas com esse capitalismo ou alheias ao seu perigo, os integralistas despontariam como poucos num cenário completamente independente.

“Antes de nós, Integralistas, ninguém fizera o povo brasileiro descer aos círculos dantescos desse inferno de sua escravidão, que ele nem mesmo suspeitava e que é a grande causa de todas as suas aflições. Nós resolvemos mostrar-lhe a verdade doa em quem doer, aconteça o que acontecer” – Gustavo Barroso, “Brasil, colônia de banqueiros”, p. 60.

Desse modo, Barroso demonstra, tal como Feder, uma enorme descrença nas forças políticas tradicionais. Somente por meio da revolução seria possível “descolonizar” o Brasil dos banqueiros que o escravizavam. Como observa Marcos Chor Maio, o integralista cearense propunha, em seus escritos, a libertação do homem do materialismo e a instauração do primado do espírito sobre todas as demais esferas da vida. Só assim seria feita “a Revolução definitiva, a Revolução com R maiúsculo!”, ao contrário das revoluções com “r” minúsculo, que “mudam constituições, mudam homens, mas não mudam os contratos com Londres”. Assim como Feder, Barroso defendeu uma revolução de cunho moral e espiritual. Essa concepção de revolução já estava presente nos escritos de Plínio Salgado, influenciando Barroso. Para ressaltar que a concepção revolucionária integralista não tinha teor materialista, o integralista identifica o sujeito revolucionário não em uma classe, mas na juventude, pois “Só a mocidade poderá fazer a Revolução com R maiúsculo”, entendendo-se a revolução como “mudança de pensamento, mudança de instituições, mudança de rumos”.

“Algum dia liberais e comunistas, reflexos da mesma empresa capitalista, te contaram a história que lês neste livro? Nunca. É um integralista quem tem a coragem de rasgar o véu do templo do Bezerro de Ouro, Senhor do Mundo, de mostrar-te a causa real, a causa mater de todas as tuas aflições, e de dizer-te: Não faz mais revoluções com ‘r’ minúsculo, brasileiro!” – Gustavo Barroso, “Brasil, colônia de banqueiros”, p. 192.

Barroso, traje cerimonial

A crise brasileira de que o autor fala era oriunda da mesma crise que assolava o restante do mundo: ela teria se iniciado com o fim da Idade Média, sendo agravada pelo iluminismo e pela Revolução Francesa, responsáveis por abalar o poder monárquico e abrir espaço para o racionalismo, o materialismo, o capitalismo e o comunismo. Tal crise seria mais de ordem moral do que social ou econômica, e por isso só uma revolução espiritual iria resolvê-la. E não é só o Brasil a vítima do Super Eldorado Capitalista sem entranhas, mas o mundo inteiro. Por isso, expressa sua esperança de que “um dia, os povos compreenderão a verdadeira origem de todos os seus males”.

Diferente de Gottfried Feder, que interpreta a revolução nacional-socialista como uma luta do espírito ariano contra o espírito judaico, Barroso conclama todos os povos, independente da origem étnica, à luta contra esse espírito judaico.
Comentando os empréstimos contraídos pelo Brasil para “comprar” sua independência, o autor escreve:

“Foi o que nos custou o reconhecimento da nação através das negociações com Lord Canning. Os brasileiros humildes, brancos, caboclos, negros e mestiços, unidos como nos gloriosos dias da guerra holandesa, haviam derramado seu sangue no Genipapo, em Itaparica e em Pirajá. Os brasileiros chamarrados [sic] de ouro fizeram as combinações diplomáticas, os pactos de família e as negociatas de dinheiro…” – Gustavo Barroso, “Brasil, colônia de banqueiros”,p. 50.

Assim como o chamado de Gottfried Feder em “Manifest zur Brechung der Zinsknechtschaft des Geldes” (trabalhadores do mundo, uni-vos!), Barroso vai além e conclama: “nacionalistas de todos os países, uni-vos!”.
Barroso denuncia a “marcha avassaladora” do capital que, em sua ação destrutiva, atentava “contra os princípios fundamentais da civilização cristã, como sejam o princípio da família e o princípio da nação”. 

Enquanto o NSDAP reuniu elementos marginalizados da sociedade alemã na República de Weimar, a AIB era formada por intelectuais (juristas, jornalistas, etc.) que já gozavam de renome e prestígio na Primeira República. Barroso lamenta tanto os efeitos perversos do capitalismo e do comunismo sobre a família, a religião e a pequena propriedade, ao passo que Feder elogia as virtudes industriais alemãs e reconhece a importância da grande propriedade, dos trustes e dos cartéis.
Contemporâneo de Barroso (com quem chegou a trocar cartas), Sérgio Buarque de Holanda notou ainda que o integralismo carecia da truculência que tanto marcou seus congêneres europeus. No Brasil, o fascismo se transformara, segundo o autor, “em pobres lamentações de intelectuais neurastênicos”. Enquanto Barroso empreendia uma “crítica romântica” ao capitalismo (para usarmos a expressão de Antônio Rago Filho), o discurso nacional-socialista era alimentado pelo “romantismo de aço” (stählernde romantik) de Joseph Goebbels, que, longe de propor a fuga para o campo, exortava os alemães a lançarem-se corajosamente ao futuro e a encarar de frente os problemas trazidos pela modernidade. Esse romantismo, segundo Goebbels, era mais dinâmico e ativo do que o “bucolismo völkisch” do romantismo tradicional.
Mas argumenta-se que a AIB não pode receber a mesma denominação da experiência italiana para que não retornemos às generalizações de experiências históricas e políticas que não são homogêneas.Conclusão

Como vimos, a desconstrução do antagonismo entre comunismo e capitalismo, a defesa da revolução espiritual, o antissemitismo, a valorização do homem do campo contra o cosmopolitismo e o desenraizamento representados pelo judeu e, acima de tudo, uma retórica anti-imperialista são traços marcantes nas obras de Gustavo Barroso e de Gottfried Feder, afim de enfatizar a situação de submissão de seus países. O nacional-socialismo e o integralismo são apresentados, pelos autores, como os únicos caminhos para salvar seus respectivos países dos seus opressores, uma vez que as demais agremiações políticas ou não seriam capazes de reconhecer esses opressores ou seriam cúmplices deles. Barroso viu, em Feder, uma fonte de inspiração para a luta anti-imperialista. A postura combativa frente à opressão do capital financeiro e em prol de uma economia moralizada alimentou o discurso integralista de Gustavo Barroso, pois ela estava afinada com os grandes debates do Brasil nos anos 1930.

Ambos os autores também concentram seus ataques sobre o capital financeiro e especulativo, hostilizando os grandes banqueiros, responsabilizando-os pela miséria de seus países e advogando uma função moralizadora para a economia. As duas obras atribuem ao judeu um papel de preponderância nas atividades levadas a cabo por esse capital financeiro – atividades essas que teriam como objetivo enfraquecer as nações extraindo delas suas riquezas. Também fica evidente, nos dois autores, uma grande hostilidade ao materialismo desenfreado ao qual o capitalismo judaico teria conduzido a humanidade. É o que os autores chamam de “mamonismo”: o culto ao dinheiro alçado à condição de objeto pelo qual todos se sacrificam. A solução que ambas propõem é uma revolução espiritual que partisse de cada indivíduo.

Diferente, porém, de seu leitor brasileiro, Feder falava em nome de uma instituição que lutava pelo revigorar de uma nação que havia se industrializado tardiamente e acabara de ser destruída em uma guerra de proporções nunca antes vistas. Por isso sua retórica era mais ofensiva, mostrando-se entusiasta da grande propriedade, da industrialização e da expansão imperialista a fim de que a Alemanha deixasse de ser um pária no cenário político europeu. Diferente da Alemanha, o Brasil dos anos 1930 não estava em um continente marcado por tensões étnicas, rivalidades nacionais e problemas fronteiriços. Assim, Barroso falava em nome de uma organização sem pretensões imperialistas e mais cautelosa em relação à industrialização e aos seus efeitos, colocando ênfase na defesa da pequena propriedade.

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Fontes de Pesquisa:

 
LIMA, Marcelo Alves de Paula. Da “servidão dos juros” à “colônia de banqueiros”: uma análise dos escritos de Gottfried Feder e Gustavo Barroso. Bacharel em História Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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