Eduardo Velasco: Soldados da Besta – Os Berserkers e a Expansão Viking

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“Furor teutonicus.”  —  (“Fúria teutônica”, denominação feita pelos cronistas romanos sobre o impulso dos germânicos em combate).

“A furore normanorum libera nos, Domine.” — (“Da fúria dos nórdicos livrai-nos, Senhor”, oração medieval).

“O número de barcos está crescendo. O fluxo interminável de vikings continua a aumentar. Em todo lugar os cristãos são vítimas de massacres, incêndios e saques. Os vikings conquistam tudo em seu caminho. Ninguém pode lidar com eles. Eles tomaram Bordéus, Périgord, Limoges, Angoulême e Toulouse. Angers, Tours e Orleães foram destruídas. Uma incontável frota vela Sena adiante e o mal domina o país. Rouen ficou deserta, saqueada e queimada. Paris, Beauvais e Meaux foram conquistadas; as fortificações de Melun foram derrubadas; Chartres está ocupada, Evreux e Bayeux saqueadas e muitas outras cidades sitiadas.” — (Ementário de Noirmoutier, França, 860)

A história dos povos indo-europeus nos ensina que toda grande obra vem em primeiro lugar do bárbaro “autêntico” e incontaminado, e das alianças de guerreiros ou männerbunden, que são as únicas capazes de mudar o mundo e o tempo através da ação direta. Neste escrito, trataremos dos mais notáveis representantes do bárbaro indo-europeu e das alianças de guerreiros.
A IRA SAGRADA NA TRADIÇÃO INDO-EUROPEIA
De onde vem a força lendária e furiosa dos antigos indo-europeus, nossos antepassados, tão unidos a seus deuses e à Natureza? Na antiguidade, há numerosas referências a essa força, que é descrita como uma espécie de fúria. A ira divina é todo um arquétipo: os indo-iranianos chamavam ishmin à fúria sagrada, e os iranianos de aesjma. Na Índia também se descrevia o mada — a embriaguez divina produzida pela bebida mística soma. Na Grécia, encontramos o menon ou menis, a ira apaixonada que só Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos, possuía [1]. Também vem da Grécia a “cólera divina de Dionísio”, que inicialmente tinha a ver com a glorificação dos instintos relacionados ao culto da vida ascendente. A mania, ou seja, a explosão do furor dionisíaco, era dito, levava em um voo a alma do possuído aos Montes Trácios, que representavam uma Hélade primitiva, ancestral e bárbara. No mundo celta encontramos com o herói irlandês Cúchulainn, do qual se apoderava do warp-spasm (“espasmo de urdidura”) em momentos de guerra, dando-lhe um impulso sobrenatural. Isso, enfim, nos mostra que a ira sagrada não era exclusivamente uma herança germânica, mas procedia de uma fonte ainda mais antiga, e que em todos os povos indo-europeus havia círculos masculinos que cultivavam a força outorgada pela fúria de combate.
No Museu Histórico de Oslo foi mostrado uma espada descoberta junto a um túmulo em um cemitério viking em Langeid, na Noruega, em 2011. Trata-se de um artefato único, ornamentado com inscrições em ouro. Nas quatro arestas da sepultura, datada de 1030, os arqueólogos encontraram buracos para colunas, o que indica que ela teria um teto e que estaria em um local importante do cemitério. Em seu interior, foram encontrados dois fragmentos de moedas de prata, e, ao cavar ao lado do caixão, os pesquisadores acharam o punho de uma espada.

 

…A espada preciosa mede 94 cm de comprimento e, embora o ferro da lâmina tenha oxidado, a alça está bem conservada, assim como o punho e o pomo, que estão cobertos de prata, com detalhes em ouro, e decorados com grandes espirais e combinações de letras que, até o momento, são um mistério. Outro mistério é a simbologia cristã que ornamenta a espada, uma vez que ela foi encontrada em um cemitério pagão na Noruega. (fonte)
Os germânicos, um povo indo-europeu do sul da Escandinávia, foram talvez os últimos europeus a cultivar abertamente a ira sagrada de forma tribal. O nome do deus Wotan refere-se diretamente à fúria. No alemão moderno, wut significa “ira”, no inglês moderno, wrath tem o mesmo significado, e no gótico, wods significava “possuído”. Wotan seria, então, a “ira de An“. An é uma sílaba arquetípica; assim os sumérios chamavam sua divindade principal. [2]
A ira divina não era então um conceito novo, nem algo que desapareceu. Quando algo sagrado, uma canção, uma paisagem, uma cerimônia, uma paixão, uma pessoa, uma situação, nos recordam um certo instinto interior, o que aflora é um tipo muito especial de sentimento: a união de fúria e alegria, o sentimento que faz com que os guerreiros de todos os tempos alcem suas armas ao céu e lancem seus gritos ao vento, o sentimento dionisíaco que está na música e nas canções, que nos faz sentir mais vivos e mais poderosos, o glorioso sentimento de honra, orgulho e contato com o Eterno, que acelera nosso coração e faz com que fiquemos arrepiados, o sentimento que sabemos que só um homem europeu pode sentir. “Almas ardendo”, chamou Leon Degrelle. “Fogo no sangue”, podemos chamar quando falamos de ocasiões em que “o sangue ferve”. É a chama espiritual que se opõe ao avanço do gelo materialista e niilista, o “ardor guerreiro” do qual até hoje é cantado no hino da Infantaria.
O PAPEL DOS BERSERKERS NO MUNDO GERMÂNICO
Os berserkers estão associados à germanidade, ou seja, ao conjunto de tribos germânicas. Estas incluem escandinavos, anglo-saxões, holandeses e alemães. Situemos em uma época em que os vikings ou viquingues, ainda pagãos, aterrorizavam seriamente uma Europa castrada pelo Cristianismo, e em que o Império Romano havia desaparecido há séculos. Geralmente, os viking desprezavam os cristãos e os cristãos temiam os vikings. Em certa ocasião, alguns vikings sequestraram um bispo. Quando não obtiveram o resgate por ele, mataram-no batendo-o com crânios de animais. Eram almas ainda selvagens e incontaminadas, possuídas por aquela mentalidade brutal e vigorosa tão característica da Natureza.
Entre todos esses bárbaros, os mais fieis guardiões da fúria sagrada eram os berserkers ou berserkir. Esta palavra sobreviveu no vocabulário das nações que conheceram esses homens: na Inglaterra, berserker ainda designa uma pessoa de caráter selvagem ou indomável, ou um estado de raiva irracional. Berserker pode ser traduzido como “camisa do urso” (bear shirt no inglês moderno), ou “sem camisa” (bare shirt). Isso vem do fato que os berserkers lutavam ataviados com peles do urso, e às vezes semidespidos ou despidos.
Entre os antigos, todo homem era um guerreiro. No entanto, não era durante toda a sua vida, mas que era chamado em tempos turbulentos, enquanto que na paz dedicava-se a seus trabalhos de campo ou domínio. Este era o caso em todo o mundo antigo — exceto no Egito, Esparta, Roma, o Império Bizantino e algumas outras exceções, que tinham exércitos “profissionais”. Na germanidade, entretanto, havia uma casta curiosa à parte, os artistas da guerra, considerados tocados pela Divindade.
Alguns guerreiros selecionados viviam em pequenas comunidades, isoladas dos centros populacionais e lideradas por um sacerdote do culto a Odin/Woden/Wotan de acordo com a região, um bardo, um gothi (druida), um vikti (mestre das runas) ou outro tipo de xamã, bruxo ou mago tribal. Eles formavam seitas autênticas no mundo germânico, como parte da tradição das männerbunden, uniões de homens, alianças de guerreiros, irmandades militares ou, como o romeno Mircea Eliade os chamou, “sociedades secretas de homens”.
Nas famílias da aristocracia germânica, havia uma tradição semelhante a dos oráculos na Grécia: quando a criança nascia, um sacerdote realizava um ritual através do qual seu destino podia ser vislumbrado. Podemos supor que para alguns pais dos bebês mais promissores era oferecido criá-los em uma comunidade “militar” deste tipo. Isso não aconteceria imediatamente, mas em uma idade posterior. Quando a idade chegava, o xamã correspondente se apresentaria para levar a criança para sua nova vida na floresta, onde ele iria aprender a adquirir os instintos do predador.
Desde pequeno, ao futuro berserker era colocado no pescoço um anel de ferro que estão relacionados com as torques celtas,  e não seria removido até que matasse a sua primeira vítima. O tipo de instrução dada a eles não é completamente conhecida, mas basicamente seria uma espécie de acampamento militar e ascético no estilo espartano, no qual eram ensinados a lidar com armas, ao combate corpo a corpo e a vida na Natureza, além de adquirir dureza e resistência contra todos os tipos de privação, no âmbito de uma vida de caçador-coletor. Eles também aprendiam técnicas e danças tribais feitas para gerar grandes quantidades de adrenalina. Ao longo dos anos, iam construindo o corpo do guerreiro, acostumado à fadiga, à privação e ao sofrimento. E tudo isso combinado com alguma forma desconhecida de Yoga: uma das habilidades que eles conseguiam através de seu misterioso ascetismo era, sentado na neve durante uma nevada ou nevasca, derreter com seu próprio calor interno a neve que caia sobre eles. Este teste avançado ocorre, ainda hoje, entre alguns lamas tibetanos (o exercício de respiração que eles usam para gerar calor é chamado de tummo ou “fogo interior”), e nas lendas celtas, um dos atributos outorgados aos grandes heróis eram derreter a neve a cem pés de distância (30 m) com seu próprio calor corporal. Um caso interessante, que data da Irlanda no ano 700 AEC, é o do herói folclórico Cúchulainn. A lenda diz que, depois de uma batalha, Cúchulainn voltou para sua cidade, ainda em pleno frenesi de batalha. Seus compatriotas, temendo que ele matasse toda a cidade, lançaram-se sobre ele e colocaram-no em um barril de água fria. Pelo ardor do herói, a água quebrou as tábuas de madeira e tiras de metal, e estourou o barril em mil pedaços, como “o barulho de nozes quebrando”. No segundo barril de água fria, Cúchulainn produziu grandes bolhas como punhos. E no terceiro, produziu uma ebulição do qual só alguns homens podiam suportar submergir suas mãos. Isso inevitavelmente nos lembra a Herácles [Hércules], que teve que correr para as águas de Termópilas para se acalmar dum ataque de fogo interior, transformando as águas do lugar em fontes termais.
Os berserkers recebiam iniciação em um culto que poderia ser chamado de mistérios de Odin, o patrono desses guerreiros. Os berserkers eram muitas vezes chamados de “homens de Odin” ou “lobos de Odin” pelo seu culto predominante a esta deidade, denominado “pai de todos”. Os berserkers, portanto, poderiam ser descritos como seitas de guerreiros de elite, severamente treinados desde cedo nas artes da luta e da alquimia interior, e iniciados num culto de Odin por algum tipo de ritual extremamente violento. Mircea Eliade, em “Ritos e símbolos de iniciação”, especificou que:

“A parte essencial da iniciação militar consistia em transformar ritualmente o jovem guerreiro numa espécie de animal selvagem predatório. Não era apenas uma questão de coragem, força física ou resistência, mas de uma experiência mágico-religiosa que mudava radicalmente o modo de ser do jovem guerreiro. Ele tinha que transmutar sua humanidade mediante um acesso de fúria agressiva e aterrorizante, que o assimilava aos animais carniceiros. ‘Aquecia’ em um grau extremo, transportado por uma força misteriosa, inumana e irresistível, cujo impulso combativo emergia das profundezas de seu ser.” [3]

Em combate, os berserkers pareciam aterrorizantes para seus inimigos. Vestidos com peles de urso ou de lobo (caso em que eram chamados ulfhednar ou ulfsark, “peles de lobo”), nus ou pintados de preto, iam em batalha sempre em grupos de doze [4], gritando como possuídos, espumando pela boca e estando imunes às feridas mais terríveis.
A arqueóloga Kirsten Nellemann liderou as escavações perto da cidade de Haarup, na Dinamarca, onde foi encontrado um túmulo do século X, com três pessoas e o maior machado Viking já identificado na história. Para ela, o homem enterrado ali fosse um grande guerreiro porque a análise do material sugere que o machado não era ornamental. Era mesmo uma arma de guerra. (fonte)

 

Na Saga dos Inglingos (Capítulo VI), eles são mencionados:

“Os homens de Odin marchavam sem armaduras, enfurecidos como cães ou lobos. Mordiam seus escudos, e eram fortes como ursos ou touros selvagens. Matavam seus inimigos com um só golpe, e nem fogo ou ferro podia lhes deter. É isso que chamam de fúria dos berserkers.”

No Hrafnsmál, o escaldo Thorbjorn Hornklofi os descreve no combate:

“Casacos-de-lobo eles são chamados, aqueles que carregam espadas manchadas de sangue na batalha, eles pintam de vermelho suas armas quando vem à matança, agindo unidos como um.”

O BERSERKERGANG OU POSSESSÃO 
Antes da batalha, os berserkers entravam em um transe chamado berserksgangr ou berserkergang. Este transe era o processo de possessão, para o qual não era qualquer um que estava preparado, porque sua energia poderia destruir o corpo do profano. De acordo com a tradição escandinava, tal estado de êxtase começava com um calafrio sinistro que percorria o corpo do possuído e o deixava ouriçado e arrepiado. Isto era seguido pela contração muscular, um tremor premonitório, um aumento da pressão arterial e da tensão, e uma série de tiques nervosos no rosto e pescoço. A temperatura corporal aumentava. Os olhos dilatavam. A mandíbula constringia. A boca contraía-se em uma careta psicótica rangendo os dentes. Então vinha um inquietante rechinar dos dentes. O rosto inchava e mudava de cor, terminando em um tom roxo. Começava a espumar pela boca [5], grunhir, rugir e gritar como animais selvagens, a morder as bordas de seus escudos, golpear seus capacetes e seus escudos com suas armas e rasgar suas roupas, invadidos por uma febra que tomava posse deles e os transformava em uma besta, seu cego instrumento. Assistir a tal transformação devia ser algo realmente alarmante e angustiante, evocando pânico. Era uma transformação iniciática em toda regra, e alguns viram nela a origem das lendas dos lobisomens.
Após este processo, os berserkers recebiam o Odr ou Od (chamado Wut na Germânia e Wod na Inglaterra), a inspiração que Odin concedia a alguns guerreiros, iniciados e poetas, tocando-os com a ponta de sua lança Gugnir (“estremecedora”). Com isso se transformavam em um furioso turbilhão de sangue e metal. A força física do “inspirado” pela febre do Od aumentava de forma sobre-humana e inexplicável, e também aumentava sua resistência, agressividade e fanatismo combativo. A dor, o medo ou a fadiga desapareciam, e o que os substituía era uma sensação embriagante de vontade, poder imparável e gana de destruir, matar, aniquilar. Uma boa referência à versão celta do berserkergang pode ser encontrado no “Táin bó cúailnge”, que descreve a transformação do herói Cúchulainn antes das batalhas:

“Então o espasmo de urdidura, seu terrível acesso de fúria, o dominou. Pensarias que cada fio de seu cabelo se ouriçava como um espeto cravado na cabeça. Pensarias que havia uma fagulha de incêndio em cada fio. Fechou um dos olhos até que não ficasse maior do que o buraco de uma agulha; abriu o outro até se tornar tão grande como uma tigela de madeira. Arreganhou os dentes de orelha a orelha e escancarou a boca até mostrar a goela. O halo de luz dos heróis ascendeu em sua cabeça.” 

Os berserkers passavam a lutar furiosamente sem se preocupar em absoluto com sua própria vida ou segurança física. Muitos preferiam levar uma espada e um machado em vez de uma única arma com o escudo [6]. Em grupos de doze, eles avançavam ferozmente contra o inimigo, independentemente da sua inferioridade numérica, e as feridas que matariam qualquer pessoa não os afetava nem um pouco. Em casos de defesa contra multidões esmagadoras, formavam um círculo impenetrável do qual batiam até a morte do último homem.
Se imaginarmos a aparência daqueles homens carregados de músculos, veias, nervos e tendões, com a cara crispada sob a pele da besta, os fanáticos olhos claros arregalados e brilhando com aquele acies oculorum que Júlio César e Tácito advertiram entre os guerreiros germânicos; os dentes cerrados com fúria e espumando, salpicados de sangue inimigo… entenderemos imediatamente que aqueles guerreiros não tinham nada a ver com o homem ocidental moderno. Estes berserkers eram do mesmo sangue de muitos europeus modernos, mas eram homens que viviam para a guerra, enquanto o ocidental médio de nossos dias é um afeminado passivo que vive para a paz e, em sua miopia, persiste em acreditar que sabe tudo sobre o mundo e a vida.
O Wut, Wode, Od ou berserkergang era um transe terrivelmente intenso e violento, no qual o controle e a razão eram completamente perdidos, e em que a besta era libertada de suas correntes de ferro para desabafar sua claustrofobia e cavalgar na gloriosa e desenfreada liberdade através da floresta escura e turva, sem responsabilidades, sem correntes, sem limites e sem leis. Não se tratava apenas de deixar aflorar a besta interior, mas de deixar-se possuir pela divindade absoluta e externa. O corpo do guerreiro, nas mãos dessas forças tempestuosas, e totalmente desconectado da mente racional, era um simples fantoche que dificilmente poderia lidar com tanta raiva.
Os afetados poderiam ficar durante horas e mesmo dias lutando da maneira mais furiosa e feroz sem parar um único momento. De fato, graças à sua brutal constituição física, as batalhas terminavam muito rápido, e os berserkers não conseguiam parar de lutar, precisando exalar sua fúria, correr sem parar de gritar e descarregar suas armas contra árvores, pedras, animais ou mesmo pessoas. Atacando membros de seu próprio exército (embora os berserkers aparentemente nunca se atacassem), posto que nesse estado eles não distinguiam entre amigos e inimigos.
Todavia, quando o berserkergang passava, eles caíam em um estado de fraqueza total, em que eles eram incapazes de se defender ou até de se levantar. Esta ressaca durava vários dias, em que o guerreiro tinha que ficar de cama. De acordo com as sagas escandinavas, muitas vezes seus inimigos costumavam matá-los nesses momentos. Alguns berserkers, sem ter recebido nenhuma ferida, morriam após a batalha pelo esforço sobrenatural realizado: seus corpos não estavam preparados para ser instrumentos da fúria divina — não por um tempo prolongado. Provavelmente, a expectativa de vida era encurtada em muitos anos após cada “sessão” de berserkergang.
Outra qualidade atribuída à posse do berserkergang era “desativar as armas do inimigo”, o que provavelmente implica que os berserkers eram tão rápidos, tão invulneráveis e inspiravam tanto terror em seus inimigos, que eles possivelmente ficavam paralisados, ou seus golpes eram ineficazes. Da mesma forma, é provável que a aura de ira desencadeada por um grupo de berserkers marchando, fosse “sentida” a uma grande distância pelos soldados inimigos como se fosse uma onda de explosão, como o historiador romano Tácito, em “Germânia”, escreveu, falando de uma männerbund germânica cujos membros eram conhecidos como harii — palavra que entre os indo-iranianos e iranianos significava “os loiros”, e que estão relacionados com os einherjar (Aina-Hariya) do Valhala:

Os harii, além do poder que têm superior a estes povos há pouco enumerados, são temíveis (insidiosos), e aumentam com artifício o seu fero aspecto, segundo as circunstâncias do momento: pretos são os seus escudos, pintados seus corpos são; escolhem as noites para os combates e pelo pavor e sombra do tenebroso exército infundem terror, nenhum inimigo resiste ao estranho e infernal aspecto: porque em todos os combates primeiramente são vencidos os olhos (pela visão). [7]

Observamos aqui a importância do simbolismo do negro para esses homens. A noite é essencial neste simbolismo. O dia, com os raios do Sol, o ouro, é propício para a vontade, para a aventura, para a luta consciente, para erguer uma cidade, para cravar a lança no inimigo, para afundar a espada na terra — em uma palavra, para possuir, para tomar. O dia representa a mão direita, a ordem, o ritual e a “via seca”. A noite, no entanto, com a escuridão, a Lua, as estrelas, o eclipse, a água e o prata, é mais propícia à magia, a um certo caos, para a revolução, para destruir uma cidade, para deixar ser tomado, ser possuído, virar lobisomem, para alçar as armas ao céu em vez de fundi-las na terra, e portanto, está mais relacionada com a mão esquerda e a “via úmida”.
Capacete Viking com máscara de cota de malha para proteger o rosto. A fantasia dos capacetes com chifres vem de uma lenda negra europeia. Foram os celtas (e muitos cavaleiros medievais) que usavam capacetes com chifres e muitas vezes mais como ornamentos cerimoniais do que como capacetes de combate.
Uma vez que o homem não é um deus, ele deve se esforçar para se tornar, pelo menos, um instrumento cego dos deuses. Para isso, deve se esvaziar de toda individualidade egocêntrica para permitir o arrebato divino, isto é, “para propiciar que Odin o toque com a ponta de sua lança”. E a primeira maneira de conseguir isso era instituindo uma severa disciplina, ascetismo e organização. Recordemos, com respeito à importância da noite, que o próprio Adolf Hitler falou em “Minha Luta”, sobre a diferença de efeitos que seus discursos conseguiam nas multidões de acordo com o horário. Para ele, as noites eram o momento ideal para dar um discurso e afirmar seu magnetismo. Notemos também que, na SS, as cores predominantes nos uniformes e sua simbologia eram o preto e prateado. Simbolicamente, eles eram cobertos pela noite, escuridão, trovão, luz lunar e estelar. [8]
Quem havia sido possuído uma vez pelo berserkergang ficava marcado por isso. Depois disso, o transe não só vinha a ser invocado antes do combate, mas também poderia cair sobre ele de repente em momentos de paz e silêncio, transformando-o em questão de segundos em uma bola de ódio, adrenalina e gritos subumanos em busca de destruição. Assim, a “Saga de Egil Skallagrimsson” descreve como o pai de Egil, um berserker, de repente sofreu posse do berserkergang enquanto pacificamente brincava com seu filho e seu colega. O guerreiro, horrivelmente agitado e rugindo como um animal, agarrou o colega de seu filho, levantou-o no ar e o despedaçou ao chão com tanta força que o mesmo morreu instantaneamente com todos os ossos quebrados. Então ele se voltou para seu próprio filho, mas este foi salvo por uma criada que, por sua vez, caiu morta perante o possuído. Nas sagas, as histórias de berserkers estão salpicadas de tragédias em que o berserkergang descontrolado se volta contra os seres mais próximos do possuído. Se tivéssemos que encontrar um equivalente grego, teríamos isso na figura de Herácles que durante um ataque de raiva matou sua própria esposa Mégara e os dois filhos que teve com ela, o que resultou em seus doze trabalhos como “penitência” para pagar seu pecado.
No âmbito da mitologia, temos muitos exemplos da fúria dos berserker. A saga do rei Hrólfr Kraki fala do herói berserker Bodvar Bjarki (talvez Beowulf), que combatia pelo dito rei e que em uma batalha se transformou em um urso. Este urso matou mais inimigos do que os cinco principais campeões do rei. As flechas e armas ricocheteavam nele, e derrubava homens e cavalos das forças do inimigo [o rei Heoroweard], rasgando com os dentes e garras qualquer coisa que estivesse em seu caminho, de modo que o pânico se apoderou do exército do inimigo, desintegrando suas fileiras caoticamente. Esta lenda — que não deixa de ser isso, uma lenda — representa a fama que haviam adquirido os berserkers no Norte, como pequenos grupos, mas, por sua bravura, perfeitamente capazes de decidir o resultado de uma grande batalha.
Agora, qual é a explicação para esses eventos que excedem o normal? Como devemos interpretar o berserkergang? Hoje em dia, aqueles que sempre olham com desconfiança ressentida qualquer manifestação de força e saúde, querem rebaixá-lo. Para muitos deles, os berserkers eram simplesmente comunidades de epilépticos, esquizofrênicos e além de doentes mentais. Essa explicação ridícula não satisfaz, pois a epilepsia ou a esquizofrenia são patologias cujos efeitos não podem ser “programados” para uma batalha como os berserkers faziam e, sob seus efeitos, é impossível realizar ações valorosas ou mostrar o heroísmo da guerra. Um epiléptico faz mais dano a si mesmo mordendo a língua e caindo no chão do que destruir as fileiras de um grande exército inimigo. Peculiarmente, outros sugeriram que os berserkers eram alianças de indivíduos que sofreram mutações genéticas ou eram sobreviventes de uma antiga linhagem germânica desaparecida, organizada sob a forma de comunidades sectárias. Pode-se até levar em conta a explicação “xamânica”, segundo a qual os berserkers eram possuídos pelo espírito totêmico de um urso ou um lobo.
Como vimos, os motivos são tão variados quanto as pessoas que tentam a opinar sobre. A explicação mais conhecida, no entanto, é que esses homens lutavam drogados. De acordo com esta teoria, os berserkers ingeriam um fungo (fungi) chamado amanita muscária (cogumelo com caule branco e chapéu vermelho com manchas brancas, que abunda entre os bosques de bétula do norte da Europa) ou alguma mistura preparada com tal cogumelo. O mesmo tem uma alta toxicidade graças a um alcaloide chamado muscarina, que altera completamente a consciência e percepção. Atualmente, foi classificado como “venenoso”, já que em altas doses é mortal. A teoria do amanita muscária foi elaborada em 1784 pelo professor sueco Samuel Odmann (que sabia do uso do fungo pelos xamãs siberianos), e foi delineado até certo ponto porque a mitologia germânica dizia que, da boca de Sleipnir — o cavalo de Odin, com oito patas — goteava uma espuma vermelha que, ao chegar ao chão, transformava-se em cogumelo. Outras teorias de drogas sugerem cerveja com meimendro negro ou ela com pão contaminados com esporão-do-centeio.
A teoria das drogas não é convivente, e as outras teorias citadas (xamãs siberianos + cavalo de Odin) são as únicas evidências que temos para corroborar tal tese. Por outro lado, a simples ingestão de uma droga não garante por si só uma explosão de devastação e frenesi de guerreiro como a experimentada pelos berskers. Se é que ingeriam efetivamente alguma droga, teria sido após uma longa e dura preparação guerreira e ascética que lhes houvesse feito resistir a possessão do Od, com doses cuidadosamente pensada por verdadeiros conhecedores de seus efeitos, e com ritos destinados a melhorar e canalizar certos aspectos relacionados à substância. Não é mais lógico, então, a teoria de que o berserkergang se desencadeava mediante uma espécie de “ordem hipnótica programada” que foi armazenada no subconsciente através de uma iniciação ritual violenta e traumática, e que, a partir de então, se “ativava” automaticamente ouvindo o barulho das armas, dos gritos de batalha e dos cantos que invocavam a fúria de Odin, dando origem a irresistível ânsia de estar no centro da batalha, onde a luta era mais feroz e a fúria mais densa. Em qualquer caso, é muito provável que as técnicas de realização do berserkergang fossem mentais ou “psicológicas”, através de processos hipnóticos e magnéticos catalisados ​​por rituais poderosos, e certamente amplificados através de danças tribais, movimentos, técnicas e respiração capazes de gerar enormes quantidades de adrenalina em um curto período de tempo. E se as drogas estivessem realmente presentes, teria sido para facilitar a possessão, mas em nenhum caso elas eram responsáveis ​​pela incrível performance combativa desencadeada com tal posse. 

O punho ornamentado de uma espada Viking.

 

As substâncias liberadas pela drogas podem ser estimuladas no corpo através de práticas de purificação. Nas tradições iniciáticas, quando o homem obtém controle absoluto sobre seu corpo, ele pode estimular seus órgãos, suas glândulas, a vontade, liberando as substâncias que quiser e causando os efeitos desejados, apenas sabendo como materializar o pensamento. O ideal é que as drogas usadas venham de nosso próprio interior, pois, realmente, as drogas estão dentro de nós — como a testosterona, adrenalina, dopamina, feromonas e endorfinas —, só que muitas vezes elas precisam de um estímulo para libertar-se. O uso religioso das drogas apareceu em um momento em que a maioria das pessoas não era mais capaz de entrar em um transe naturalmente. E, em qualquer caso, a ingestão de drogas para fins religiosos era realizada sob rigoroso controle e ritualismo, em indivíduos físicos, mentais e espiritualmente preparados para resistir a seus efeitos, e tudo auxiliado por sábios das ciências naturais, conhecedores das floras, faunas e a Terra.
Em situações de grande estresse e violência, o corpo se perturba. O pulso aumenta, a respiração acelera e a adrenalina sobe como uma chama. Uma série de respostas fisiológicas ocorrem, o que em si não é positivo ou negativo, mas sim que dependerá de seu direcionamento. Os guerreiros convencionais “cavalheirescos”, tentavam dominar a torrente de reações e sensações causadas pelo combate, de modo que, mantendo sua vontade sobre elas, mantinham o “sangue frio” e a consciência intacta. Os berserkers, por outro lado, pareciam fazer o contrário: deixavam-se levar pelas reações físicas ante a luta, de modo que estas tomavam posse deles e acabavam transformando-os em bestas que “viam tudo em vermelho”. Aflorava neles uma vontade totalmente independente da consciência. Somente os melhores eram duros o suficiente para se deixar levar pela torrente de ferocidade para libertar seus impulsos de forma selvagem e perder o controle ao romper toda corrente e laço para permitir que a besta fique livre, para saborear o profundo e primitivo prazer da carnificina, da sangria, da matança, da dominação, da possessão e da destruição, submergindo todo o seu ser no caos absoluto e sobreviver para contar história — embora é bastante provável que depois sequer lembrassem realmente o que aconteceu.
Tudo isso é apenas um barbarismo selvagem? Sim, mas faz parte da natureza humana. Ignorar que temos um lado animal é como sabotar o corpo e espírito. Pelo contrário, aceitá-lo e dominá-lo equivale a conciliar-nos.
Tendo em vista que se fantasiar com peles de animais simbólicos vem duma tradição xamânica, totêmica e pagã em essência, daremos atenção, pois expressa uma ideia muito importante. O lobo e o urso são signos da masculinidade livre, pura, selvagem, fértil e desenfreada [9]. A pele de urso ou lobo se conseguia lutando corpo a corpo com o animal e matando-o, o que era uma prova iniciática dos berserkers, bem como entre alguns celtas. Era dito aos berserkers que se apoderavam das qualidades totêmicas inerentes ao animal em questão, adquirindo sua força e ferocidade, possuindo suas qualidades como se tivessem conquistado-as, e adotando a pele da besta vencida como símbolo dessa transformação. Como sinal de prestígio, muitos bersekers adicionavam a palavra björn (urso) a seus nomes, resultando em nomes como Arinbjörn, Esbjörn, Gerbjörn, Gunbjörn ou Thorbjörn. O lobo (proto-germânico *ulf) resultou em nomes como Adolf, Rudolf, Hrolf ou Ingolf. Mircea Eliade disse sobre a apropriação das peles de animais:

Torna-se berserkr após uma iniciação, com provas especificamente guerreiras. Assim, por exemplo, junto a tribos germânicas como os Chatt, nos diz Tácito, o postulante não cortava o cabelo ou fazia a barba antes de haver matado um inimigo. Entre os Taifali, o candidato deveria abater um javali ou um urso, e entre os Heruli deveria combater sem armas. Através destas provas, o postulante se apropriava do modo de ser do animal: tornava-se um guerreiro respeitável na medida em que se comportasse como uma fera predadora. Se transformava em super-homem porque conseguia assimilar a força mágico-religiosa compartilhada entre os (animais) carniceiros enraivecidos. [10]

Mais uma vez, isso será visto como primitivo e bárbaro, mas os romanos também fizeram, como podemos ver nos porta-estandartes das legiões, cobertas de peles de lobos, ursos ou animais selvagens (como povo indo-europeu bárbaro, os antigos itálicos, antepassados dos latinos, deveriam ter sua própria versão do “guerreiro possuído”). O herói grego Herácles, após lutar com o leão de Neméia e matá-lo com as próprias mãos, vestiu sua pele. O irlandês Cúchulainn matou uma monstruosa besta e tomou seu lugar como guardião do Ulster. Siegfried, o herói do germanismo, se banhou no sangue do dragão Fafnir, morto por ele, e com isso tornou-se quase invencível. Nos mistérios de Mitra, um culto militar restrito apenas para homens e praticado pelas legiões de Roma, os iniciados se cobriam de sangue do touro sacrificado em uma cerimônia de alto poder sugestivo. Na mesma linha de exemplos relacionados, temos outros casos que se referem a “segundas peles” e banhos endurecedores: Aquiles foi banhado por sua mãe nas águas do escuro rio Estige, o que o tornou invulnerável. A deusa celta Ceridwen possuía um caldeirão mágico que dava saúde, força e sabedoria a todos os que se banhavam nele. As mães espartanas banhavam seus recém-nascidos em vinho, pois achavam que isso endureceria-os e mataria os macios. As águas do rio Ganges, até hoje em dia, são consideradas salutíferas ​​para os hindus. A ideia por trás de todos esses mitos era que a exposição a forças destrutivas, telúricas e escuras ajudaria a endurecer o “envoltório” do iniciado e protegê-lo no futuro contra experiências semelhantes no campo da morte e do sofrimento.
Tudo isso simbolizava, ademais, a luta do espírito para tomar o controle da besta telúrica, pelo qual revestia o vencedor, entrava na carcaça vazia, a possuía para transformar em sua imagem e semelhança e, ao mesmo tempo, mudava sua personalidade para uma diferente, entrando em uma nova fase e simbolizando a transição para uma nova mundividência — uma nova roupagem, uma nova pele, a percepção do mundo através dos sentidos da besta —, tomar posse da matéria e, de dentro, transforma-la na imagem e semelhança do espírito. Essa filosofia de posse é uma característica de todas as sociedades guerreiras iniciatórias. Em certas unidades de elite da SS nazi, um dos testes era lutar, desarmado e seminu, contra um cão/lobo.
Aqueles berserkers que lutavam nus se relacionam ao comportamento dos primeiros celtas, que também o fizeram (de fato, a figura do “guerreiro possuído” também era recorrente entre os celtas). Seus corpos, curtidos desde a infância, não sentiam frio mesmo que estivessem pelados na neve. Como disse, alguns também se pintavam de preto, reivindicando o lado escuro, típico das eras em que a luz está em perigo. Vimos como o romano Tácito descreveu os harii que, pintados de negro, laçavam-se em combate com ferocidade sobre-humana. Para os antigos indo-iranianos, o deus Vishnu, em épocas sombrias, se vestia com uma armadura escura para lutar contra os demônios, ocultando ao mundo seu aspecto luminoso; mas na aurora da nova idade do ouro, desfazer-se-ia de sua armadura negra e o mundo conheceria seu luminoso aspecto interior. No Irã, a männerbund dos mairya vestia armaduras pretas e carregava bandeiras de mesma cor, e eles geralmente agiam à noite. Os cátaros se vestiam com longas túnicas pretas, e seus estandartes religiosos eram pretos (alguns com uma cruz celta branca dentro). Os SS também se vestiam de preto e usavam bandeiras negras, além da macabra totenkopf (também utilizada pelos hussardos imperiais do 2º Reich), que carregavam um crânio prateado na esfera negra como símbolo. Tudo isso era para simbolizar o domínio e o conhecimento da escuridão, do qual pertence a mão esquerda.
Dominar e conhecer o inimigo é dominar e conhecer o lobo, o  touro, o urso, o dragão ou o animal totêmico que o homem lutador descobre em si mesmo. Cobrir-se em negro é equivalente a cobrir-se com a pele da besta inimiga. 
A EXPANSÃO DA FÚRIA DO NORTE
Este mapa mostra a expansão nórdica na Europa. O vermelho corresponde a áreas de colonização escandinava e verde a áreas sujeitas a incursões e à influência viking. Os vikings foram particularmente prolíficos na França, nas ilhas britânicas e nas bacias dos grandes rios russos. 
 
Aqui, rotas na Groenlândia ou Vinland (o assentamento Viking na América do Norte) estão incluídas no mapa.

Em certo momento, na Alta Idade Média, no final do século VIII, os povos escandinavos embarcaram em uma série de prolíficas expedições. Alguns argumentam que essa súbita blitzkrieg (expressão do alemão que diz “guerra relâmpago”. Estratégia de ataque muito usada pela Wermacht no 3º Reich)  dos vikings é devida a uma superpopulação motivada pela poligamia, no seio de uma terra pouco fértil. Outros, como Varg Vikernes, sustentam que as ondas viking foram uma vingança contra o mundo cristão, depois que o bispo Bonifácio desmatou, na Saxônia, no ano 772, florestas sagradas e, em particular, o carvalho que os saxões consagraram a Donar — um árvore de carvalho antiga, venerada por todos os povos germânicos do mundo, e que foi considerada a versão terrestre do Irminsul, o Eixo do Mundo.

A imagem que o folclore e a propaganda cristã nos legaram dos vikings deve ser corrigida. A Igreja demonizou os vikings, retratando-os como bárbaros sujos com chifres em seus capacetes, quando de acordo com a “Crônica” de João de Wallingford, “devido ao seu hábito de pentear o cabelo todos os dias, tomar banho todos os sábados e trocar regularmente as roupas, eles foram capazes de minar a virtude das mulheres casadas e até mesmo seduzir as filhas dos nobres para serem suas amantes”. Estamos falando de um momento em que o cristianismo havia estigmatizado a higiene como algo sensual e “pagão”. O historiador árabe Amade ibne Fadalane, embaixador de Bagdá para os búlgaros do Volga, diz sobre os vikings: “Nunca vi espécimes físicos tão perfeitos. Eram altos como palmeiras e de compleição corada e loura”. Ele acrescenta que, muitas vezes, eles tinham tatuagens no corpo inteiro e que sempre estavam armados com um machado, uma espada e uma faca.
Os vikings acabaram por ser famosos em toda a cristandade, no Leste pagão e em grande parte do mundo islâmico. Os árabes os chamaram de mayus, os cazares de rus’ (daí vem “Rússia”) e os eslavos de varegues. Na maior parte da Europa Ocidental, eles eram conhecidos como normandos — isto é, homens do Norte. Geralmente, sua maneira de atuar era zarpar em grandes frotas, saquear as cidades costeiras, estabelecer “centros de operações” costeiras para planear outras incursões e navegar pelos grandes rios para chegar a outras cidades no interior (como Pamplona, ​​Sevilha ou Paris). Muitos de seus feitos são conhecidos, desde a colonização da Islândia, da Gronelândia e da América do Norte até o arrebatamento de Sevilha aos mouros (ano 844), seu saque e preservação por uma semana inteira, incluindo a fundação de cidades russas como Novgorod (862), Kiev (864), bem como o primeiro estado russo (Rus Kievana) e o cerco de Paris em 885.
Navio viking (chamado de drakkar ou em português Dracar) exposto no museu de Oslo, Noruega. O raio do mar: durante séculos, uma frota de drakkars indo às compras foi a visão costeira mais assustadora para um europeu medieval.
911 foi o ano em que o dinamarquês Rollo (ou Rollon) [11] (o nome dinamarquês dele era Hrolf Ganger, mas era conhecido como “o Caminhante”, pois diziam ser muito alto para que um cavalo carregasse seu peso) recebeu do rei Carlos III da França o ducado da Normandia, para apaziguar a pilhagem viking do qual todo o norte da França estava sendo submetido. Em um ato solene de homenagem ao rei Carlos, Rollo foi informado de que ele deveria se curvar diante dele e beijar seus pés. Ele, escandalizado e ofendido em seu orgulho, recusou-se a se humilhar de tal maneira, dizendo “nunca me inclinarei ante ninguém e nunca beijarei o pé de ninguém”. Os bispos, bajuladores, no entanto, insistiram que “quem recebe tal presente tem que beijar o pé do rei”. Assim, encurralado, Rollo ordenou a um de seus guerreiros que realizasse o ato. Ele pegou o pé do rei e, erguido, levou-o à sua boca e beijou-o, fazendo com que o rei caísse de costas, de modo que toda a corte risse fortemente. Esta anedota mostra o lado arrogante e orgulhoso dos vikings, homens ainda inocentes e incontaminados pela mentalidade servil da sociedade civilizada. Estes vikings da Normandia foram cristianizados, arraigaram na França e acabaram esquecendo suas raízes escandinavas. Sua expansão subsequente os levou para a Inglaterra, o Mediterrâneo, o sul da Itália (reino normando da Sicília) e até ao Oriente durante a era das cruzadas. Muitos normandos desempenharam um papel importante nas ordens de cavalaria.
Por algum tempo, os vikings fizeram da Inglaterra um reino dinamarquês. Os anglo-saxões sob o rei Alfredo de Wessex, germanos como os vikings, se comprometeram com eles em uma guerra em que os vikings foram confinados ao norte da Inglaterra, em um reino chamado Danelaw (“lei dinamarquesa”), onde o paganismo nórdico governava e onde houve uma ampla colonização das famílias vikings, de tal forma que influenciaram muitas palavras no vocabulário inglês. Alguns historiadores chamaram essa “outra Inglaterra” paralela, de “Inglaterra escandinava”. Aqui, os vikings estabeleceram a capital em Jórvík (York) e se dedicaram ao enraizamento.
O Danelaw e as principais áreas do assentamento Viking na Grã-Bretanha. Além das áreas designadas, toda a costa foi fortemente influenciada pela Escandinávia.
Mas, ambos, os vikings e normandos, disputavam a Inglaterra. A guerra eclodiu quando o rei Haroldo II da Inglaterra, anglo-saxão, teve que enfrentar primeiro o rei Haroldo III da Noruega e, depois, com o rei Guilherme I da Inglaterra, da Normandia, que lutavam pelo trono. Os anglo-saxões de Haroldo II confrontaram os noruegueses de Haroldo III (o último rei viking da “velha escola”) na Batalha de Stamford Bridge. Tendo derrotado Haroldo III, as tropas anglo-saxões de Haroldo II viajaram cerca de trezentos e sessenta quilômetros de Yorkshire (norte da Inglaterra) para Sussex (sul da Inglaterra), onde Guilherme os esperava com novas tropas normandas. Os exaustos soldados anglo-saxões entraram em confronto com os normandos na famosa Batalha de Hastings. Por falta de uma boa cavalaria e porque muitos deixaram a segurança da parede de escudos para perseguir os cavaleiros normandos que se retiravam para recarregar, os anglo-saxões perderam. Haroldo morreu com uma flechada no olho. Foi uma tragédia para a Inglaterra.
Os “normandos” (realmente dinamarqueses afrancesados) importaram a língua francesa, contaminando o anglo-saxão e despropriando-o de suas ressonâncias mais germânicas. O francês tornou-se o idioma da nova corte normanda, e o anglo-saxão — ou seja, o inglês antigo — a língua dos plebeus. A Inglaterra também se contagiou com a mentalidade oriental. Seu foco de atenção e relações culturais passou da Dinamarca, norte da Alemanha e Escandinávia, para a França e Vaticano, e nesse sentido, não há dúvida de que mesmo um triunfo viking teria sido melhor. Os normandos importaram, além disso, uma servidão feudal do tipo cristã (que tinha sentido em lugares onde os germânicos constituíam uma aristocracia minoritária, mas não na Inglaterra, onde a maioria da população era de origem germânica), varrendo com o antigo direito saxão, tão odiado pela Igreja, e que só permaneceu no condado de Kent, que fora o lugar onde os primeiros anglo-saxões desembarcaram (especificamente os jutos, da Dinamarca) no século V, e onde a tradição germânica anglo-saxônica era talvez mais forte e mais enraizada. No entanto, os normandos, sem dúvida, trouxeram inovações benéficas: grandes castelos de pedra com fossos e o espírito da nova cavalaria.
Os anglo-saxões, em qualquer caso, não se resignariam a essa situação, e muitos de seus aristocratas, liderando seu povo, participaram de uma resistência oculta contra a invasão “normanda”, que não era mais que uma invasão francesa. A mesma lenda de Robin Hood refere-se à luta entre os anglo-saxões e os normandos, em que uma männerbund anglo-saxã, encabeçada por um nobre saxão, se retira para a floresta e realiza uma “guerra de guerrilha” contra a ocupação.
A expansão viking foi tão imensa, em suma, que até encontraram estatuetas de Buda em túmulos escandinavos. Alguns autores, como o francês Jacques de Mahieu, colocaram os vikings na base de aristocracias tão distantes quanto Peru e México, e de lá há casos estranhos como Quetzalcóatl, Kukulkán, Ullman ou Viracocha, deuses pré-colombianos com características europeias (como pele branca, cabelo e barba claras ou olhos azuis).
Das nacionalidades escandinavas, os noruegueses tenderam a explorar a Islândia, Gronelândia e América, os dinamarqueses se concentraram na Inglaterra, Escócia, Alemanha, França e Irlanda, e os suecos se dedicaram, acima de tudo, às suas aventuras no Oriente, incluindo a Finlândia, a Rússia, a guerras contra os cázaros e tártaros, e suas façanhas no mundo islâmico e bizantino.
Agora, os não-vikings consideravam os berserkers como a máxima expressão dessa ira do Norte que se espalhou como pólvora incendiada na Europa. A própria imagem arquetípica do viking sanguinário que luta desnudo e mata indiscriminadamente, corresponde mais ao berserker do que ao guerreiro viking comum. A fama e o prestígio dos berserkers no Norte eram enormes. Eles foram guarda-costas em inúmeras cortes reais, incluindo a do rei Haroldo I da Noruega. O rei Hrólfr Kraki da Dinamarca enviou seus doze berserkers ao rei Adelo da Suécia para ajudá-lo em sua guerra contra o rei Alo, também sueco. Após as campanhas militares vikings, quando as vítimas eram contadas, os capitães militares nem sequer se importavam em contar os berserkers, posto que assumiam que eram invencíveis depois de proferir feitiços que os tornavam invulneráveis ​​ao fogo e ferro, ou que eram capazes de desarmar as armas do inimigo com os olhos.
Tal fama chegou ao Oriente, de modo que o imperador Constantino de Bizâncio — um homem poderoso com muitos meios, e que queria o melhor — contratou uma guarda pessoal seleta que era composta exclusivamente por berserkers suecos. Eles ficaram conhecidos como a “guarda varega”. (Ao longo do tempo, a guarda se encheu tanto de guerreiros anglo-saxões que ficou conhecida como “guarda inglesa”). Segundo Constantino, esses homens às vezes realizavam a “dança gótica”, vestidos com peles de animais e máscaras totêmicas.
Soldados na prisão de Cristo, representados como Guardas Varegues em trajes cerimoniais.
E é que o paganismo escandinavo conservava um xamanismo são, profundamente relacionado com a Natureza e Asgard, o céu dos deuses. De acordo com a mitologia germânica, os berserkers caídos formavam no Valhala a guarda de honra de Odin, pelo qual em sua vida terrena eles tentavam refletir e “treinar” essa vocação, protegendo numerosos reis do qual sua figura de poder estava associada a Odin.
A guarda varegue tornou-se famosa em uma série de campanhas contra os muçulmanos, em uma das quais os varegos arrasaram nada mais e nada menos do que oitenta cidades. Em cada exército viking, os berserkers formavam um grupo de doze homens. Os demais guerreiros tinham grande respeito e temor, e procuravam ficar longe deles, porque os viam como homens perigosos, instáveis e imprevisíveis. Os próprios berserkers se mantinham separados do resto do exército correspondente, cultivando o “pathos da distância”.
O CASO DOS BERSERKERS
Os berserkers, como todo o paganismo, acabaram caindo em decadência. Em determinado momento, provavelmente com o advento do cristianismo, a liderança religiosa esotérica da Escandinávia recebeu o toque de graça, desapareceu e submergiu. Toda a religiosidade germânica e suas tradições externas ficaram, então, sem impulso ou direção, divididas e fracas, funcionando por inércia.
Desde então, tentamos distinguir entre dois tipos de berserkers: o heroico, bravo, valente e leal guerreiro de elite ao serviço de um grande rei; e o berserker decadente, bandido errante, dado ao roubo, pilhagem, assassinatos indiscriminados e estupros. Esta figura posterior corresponde a gangues de criminosos na Escandinávia, e seus signos indicam o que acontece quando os impulsos masculinos — que se originam no lado negro e tendem, em princípio, à destruição — ficam fora do controle que outorga a disciplina, ascetismo e vontade. Este tipo de “berserker” era descrito como terrivelmente feio, com características deformadas, com apenas uma sobrancelha, olhos escuros e cabelos pretos, com tendências maníacas e psicopatas. Tais criminosos, vindos dos estratos sociais mais baixos da Escandinávia, vagavam pelas aldeias desafiando homens humildes a duelo. Uma vez que, rejeitando o duelo, eles seriam considerados covardes, os camponeses aceitavam por honra e amor próprio, e geralmente morriam sob as armas do bandido. Este, que não era um guerreiro ou soldado de honra, ficava com as terras do infeliz, seus pertences, sua casa e sua esposa. Nas sagas, muitas vezes um guerreiro nobre acabava matando o impostor, liberando a mulher e se casando com ela.
No século XI, os duelos e os berserkers foram considerados fora da lei. Em 1015, o rei Érico I da Noruega os tornou ilegais. “Grágás“, o código medieval das leis islandesas, também condenou-os ao ostracismo. No século XII, esses berserkers decadentes desapareceram. Doravante, a Igreja cultivou a crença de que eles eram possuídos pelo Diabo.
Um caso digno de estudo: o rei Haroldo III da Noruega como exemplo do mundo viking e a importância dos berserkers nas batalhas:
Injustamente, Haroldo geralmente aparece na história apenas como um rei norueguês que não conseguiu conquistar a Inglaterra. Haroldo, um gigante loiro de mais de 2,10 metros de altura, viveu numa época em que os reis escandinavos poliam as artes políticas e a corte para viver de acordo com os seus homólogos europeus, mas ele ainda estava mais em sintonia com os guerreiros vikings livres dos séculos anteriores. Até hoje, parece-me um mistério porquê ninguém fez um filme sobre esse homem.
Haroldo Sigurdsson nasceu na Noruega em 1015. Aos 15 anos ele participou a favor do rei Olaf II da Noruega na Batalha de Stiklestad contra o rei Canute da Dinamarca (mais tarde também rei da Inglaterra e da Noruega). Nesta batalha, que coincidiu com um eclipse solar, o exército de Olaf perdeu. Ferido, Haroldo conseguiu escapar da Noruega com guerreiros fieis à sua linhagem e, no exílio, formar um bando de lealistas que escaparam da Noruega depois da morte de Olaf. Um ano depois, Haroldo, com 16 anos, e seus noruegueses haviam atravessado a Finlândia e entrado na Rússia, onde serviram ao grande príncipe Jaroslau I, o Sábio como forças de choque, e onde Haroldo foi feito general dos exércitos do mesmo.
Após dois anos, o jovem general viking estava mantendo uma relação amorosa com Isabel de Kiev, a filha de Jaroslau. Quando o príncipe, enfurecido, surpreendeu o casal, Haroldo se viu obrigado a fugir da Rússia com seus leais, segundo as más línguas, ainda levantando as calças pelo caminho. Haroldo atravessou com seus homens a Ucrânia e o Mar Negro e chegou a Constantinopla, a capital do Império Bizantino, onde se alistou na guarda varegue, uma unidade mercenária de elite composta exclusivamente por escandinavos. Haroldo se fez famoso em todo o Mediterrâneo, recebeu o sobrenome de “devastador da Bulgária”, triunfou no norte da África, Síria, Palestina, Jerusalém e Sicília, e acumulou uma imensa fortuna pessoal procedente do botim saqueado. Com o tempo, Haroldo foi feito chefe da guarda varegue, almirante da frota bizantina (a mais poderosa do Mediterrâneo) e recebeu grande autonomia para realizar independentemente ataques contra os inimigos de Bizâncio. Longe de sua Noruega natal, Haroldo e seus homens haviam se convertido nos filhos mimados de um grande império mediterrâneo. Em seus dias, as crônicas bizantinas se referiam a Haroldo como “filho de um imperador varegue”. Esteve a serviço dos bizantinos até 1042, isto é, até a idade de 27 anos.
Nessa idade, os rumores relacionaram à imperatriz Zoé Porfirogênita (uma megera casada com o imperador Romano III Árgiro, um ancião que não demoraria a ser assassinado), com Haroldo, quando o mesmo em verdade estava mais interessado realmente por sua sobrinha, Maria, com quem a imperatriz o proibiu de casar. Apesar de Haroldo ter sido preso em uma masmorra, conseguiu escapar, juntar seus leais, sequestrar Maria e tomar um drakkar (barco viking de estilo escandinavo). O porto de Constantinopla estava protegido por uma corrente que impedia a passagem de embarcações, de modo que Haroldo ordenou a todo aquele que não remasse que fosse para a parte de trás de seu barco, enquanto os outros remavam. O barco, pois, levantou sua parte frontal por efeito do peso e, quando os que não remavam se deslocaram para a proa, superou as correntes com êxito.
Haroldo, enfim, abandonou o Império Bizantino com a prontidão que vinha sendo habitual em suas viagens, mas enviou Maria de volta para Constantinopla. Atravessando o Mar Negro e a Ucrânia, passou de novo pela corte de Kiev e se encontrou com seu antigo amor, a filha de Jaroslau, com quem se casou conforme viajavam para o norte através da Rússia.
Em 1045, tendo 30 anos, apoiado por seus fortes homens leais, sua própria experiência político-militar, suas impressionantes riquezas e por sua ampla rede de contatos, Haroldo reconquistou o trono da Noruega como Haroldo Sigurdsson, reinando por vinte anos e recebendo a alcunha de Hardrade (“o Duro”). Mesmo assim, parece que toda essa vida de grandes feitos não havia enchido o viking o suficiente. Em 1066, Haroldo pôs seus olhos sobre a Inglaterra, essa terra que havia sido o destino de inúmeras migrações nórdicas desde o século V. Haroldo reivindicou o trono inglês aproveitando que havia existido no passado um reino dano-anglo-norueguês, e reuniu trezentos drakkares para enfrentar as tropas anglos-saxãs do rei Haroldo II da Inglaterra. Foi nesse marco que teve lugar a Batalha de Stamford Bridge, no norte da Inglaterra.
Precisamente nessa batalha teve um papel destacado um berserker gigante, ao lado de quem o próprio Haroldo (que tinha mais de dois metros) parecia pequeno. Esse enorme berserker norueguês defendeu a ponte durante uma hora, matando todos que se aproximavam, e sem sucumbir diante das flechas. Um guerreiro anglos-saxão conseguiu se enfiar debaixo da ponte descendo o rio dentro de um barril, e através de uma fenda nas tábuas, atravessou com uma lança o gigante. Isso abriu as portas para os anglos-saxões, mas a resistência do herói havia dado tempo para que seus compatriotas (que haviam sido surpreendidos) organizassem uma linha de escudos que aos anglos-saxões custou romper. Haroldo  morreu atravessado por uma flecha na garganta. Quando um de seus homens perguntou se estava gravemente ferido, respondeu “é só uma pequena flecha, mas está fazendo seu trabalho”. Tinha 51 anos.
Só 10% dos soldados noruegueses sobreviveram à Batalha de Stamford Bridge. Os anglos-saxões permitiram aos últimos vikings zarpar nos drakkares e voltar à Noruega.Geralmente, o ano da morte de Haroldo em 1066 coincide com a chegada do Cristianismo no Norte, e se considera a data do fim da “era viking”.

BROTOS DE FÚRIA SAGRADA
Não se pode dizer que o fogo do sangue nórdico desapareceu. No mesmo século que desapareceram os berserkers, se iniciou o auge das ordens de cavalaria, as novas männerbundens da Europa. Os grandes momentos de glória que a Europa desfrutou durante a Idade Média se devem a elas, basta pensar no Sacro Império, nas cruzadas orientais, na civilização occitana, na Reconquista espanhola, nos templários e nas lendas do Graal. Pode-se dizer, por sua vez, que havia desaparecido o exemplo mais visível e óbvio da fúria pagã.
O que houve com a liderança religiosa tradicional na Europa? Não desapareceu, mas submergiu. E desde o inconsciente coletivo adormecido no sangue europeu, manejou inúmeros grupos que quase estiveram a ponto de derrubar o poder da Igreja (recordemos o catarismo, os templários e os gibelinos). O Sacro Império Romano-Germânico (o Iº Reich) foi um grande depositário da tradição ancestral. Seus imperadores (como o famoso Frederico Barbarossa, ou seu neto Frederico II), muitos deles educados desde a infância por ordens de cavalaria, foram considerados hereges, antipapas e anticristos pela Igreja, posto que a maioria estiveram diretamente envolvidos em atividades “pouco cristãs”, incluindo saques do Vaticano, pactos com ordens de cavalaria à margem da Igreja e tratativas com o Islã. O imperador Carlos I de Espanha (rei de Espanha e do Sacro Império Romano-Germânico, e senhor de meia Europa, ademais de vastos territórios em ultramar) também saqueou o Vaticano como seus antepassados visigodos mais de mil anos antes, aterrorizando o Papa como se de um vulgar proscrito se tratasse, pelo que talvez se devia perguntar como estes homens entendiam a religião cristã e a lealdade que supostamente deviam à Igreja.
Após a desastrosa Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), o Sacro Império caiu definitivamente, sendo substituído por pequenos e ridículos Estados burgueses que foram assolados pela peste negra e pelo protestantismo, e que se dedicaram a perseguição virulenta de hereges, queimando ou enforcando o maior número de “bruxas” de toda Europa, enquanto os turcos tomavam os Bálcãs. Regiões inteiras da Alemanha foram despovoadas por essa paranoia. Dessa época vieram também as lendas de lobisomem, e na Alemanha se acusou a muitos homens de serem licantropos. Milhares foram torturados e executados por isso.
A queda dos templários e do Sacro Império constituiu, então, um marco: caiu a mística Idade Média de castelos e cavaleiros, e foi substituída pela suja era das fomes, das pestes, das caças às bruxas, do puritanismo, da Bíblia e do fundamentalismo religioso. Mesmo assim, a Infantaria relevou a Cavalaria como corpo dominante nos campos de batalha, como é patente nas conquistas dos Terço (tão similares em sua organização e mentalidade às legiões romanas).
Das ordens de cavalaria, do misticismo medieval, do sentimento de darma e da ordem social tradicional, ficaram os rosa-cruzes e os maçons. E ambos acabaram, por sua vez, infiltrados pelo auge da nova casta comercial-financeira (a burguesia), como é especialmente patente na maçonaria moderna.Na verdade, essas irmandades hoje incrivelmente enormes pelo mundo todo constituíram no passado e ainda hoje as ordens mais nefastas contra a autonomia cultural, política e social dos povos, travestidamente com defensores de liberdade e fraternidade ou estudos exotéricos, o espírito burguês materialista e cabalístico-judaico exotérico são o que imperam nessas ordens.

No século XIX, a religiosidade do germanismo começou a despertar de novo. A Europa havia descoberto a sabedoria do Oriente, e se haviam traduzido inúmeros textos sagrados, especialmente do Irã e Índia. Arqueólogos alemães desenterraram cidades, templos e estátuas gregas. Apareceu a Prússia, portadora de uma nova ideia imperial militarista. Apareceu o IIº Reich. Surgiram grupos místicos paganizantes. E em pleno século XX, o Renascimento explorou e manifestou no IIIº Reich. Adolf Hitler, do qual seu próprio nome significa “nobre lobo”, desempenhou na Europa um papel similar ao de Licurgo (“condutor de lobos”) em Esparta. Nos últimos dias do IIIº Reich, fanáticas unidades de guerrilheiros insurgentes denominados Werwolf (homens-lobo, lobisomens) protagonizaram a última imolação de resistência até o fim da ocupação da Alemanha após a IIº Guerra Mundial. 

Runa wolfsangel, emblema do werwolf do paganismo germânico.
O GERMANISMO E A VINDA DO RAGNAROK
Segundo o conceito dos antigos pagãos germânicos, a tormenta final, no vértice do Ragnarok, será uma caçada contra as forças do mal. Odin, brandindo sua lança e cavalgando seu cavalo de oito patas, descerá sobre a Terra. Thor, empunhando seu martelo e montado sobre seu carro de guerra puxado por dois bodes, aparecerá no céu urrando furioso e rodeado por raios, causando um estrondo avassalador. A Wildes Heer (horda furiosa), o Oskorei (exército do trovão), o exército dos caídos, arrasará os inimigos dos deuses, fazendo retumbar o solo com os cascos de seus cavalos e o ar com seus gritos de batalha. As valquírias cavalgarão serenamente, prestando atenção ao desenvolvimento das batalhas para escolher aos novos caídos. Os corvos de Odin, seus lobos e todos os tipos de seres sobrenaturais, proliferarão no grosso da tormenta mística, fazendo tremer às forças da escravidão materialista, estremecendo angustiosamente as almas dos inimigos dos deuses, e derrubando fatidicamente os muros que separam a Terra do sobrenatural.
Tudo aquilo era uma explicação metafórica, simbólica e poética do fim de uma era, quando finalmente o céu se enfurecer e cair sobre a Terra, e se trave o apocalíptico combate do superior versus inferior. Talvez um dia, os desmemoriados apóstolos da civilização financeira e da usura voltem a conhecer com horror a sede de batalha do homem, a espumante e angustiosa raiva do guerreiro inspirado, o instinto do trabalhador, do conquistador, do pioneiro, do explorador, do artista, do soldado, do senhor e do destruidor que levamos em si, e cujo último exemplo foi, quiçá, em dias distantes, o berserker escandinavo.
Representação de um autêntico Beserker. A raiz máximo do guerreiro escandi
O cristianismo, e este foi seu maior mérito, subjugou até certo ponto o brutal ardor guerreiro dos germânicos, mas não pôde destruí-lo de todo, e quando a cruz, esse talismã restringente, despedaçar, então se liberará novamente a ferocidade dos antigos guerreiros, a frenética fúria berserker da qual os poetas nórdicos falaram e cantaram tanto. O talismã se apodreceu, e chegará o dia em que cairá penosamente no pó. Os velhos deuses de pedra, então, se levantarão das ruínas esquecidas, e limparão de seus olhos o pó de séculos, e Thor, com seu martelo, surgirá de novo. Quando ouças o pisar das botas e o chocar das armas, filhos de seus vizinhos, ficai em guarda… talvez ela se descarregue contra vós.
Não sorriais ante a fantasia daquele que prevê no campo da realidade a mesma eclosão de revolução que teve lugar na região do intelecto. O pensamento precede à façanha como o raio ao trovão. O trovão alemão é de autêntico caráter germânico: não é muito ágil, na medida em que retumba lentamente. Mas chegará, e quando ouvirdes choques tais como a história do mundo jamais viu, então sabereis que finalmente o raio germânico caiu.
Com essa comoção, as águias cairão mortas do céu, e até os leões das pastagens mais longínquas da África morderão suas caudas e se arrastarão para seus covis reais. Terá lugar na Alemanha um drama comparado com o que a Revolução Francesa parecerá um inocente idílio. No presente tudo está silencioso, e ainda que aqui e ali alguns homens criem agitação, não imagineis que estes serão os verdadeiros atores na obra. Só há cãezinhos perseguindo uns aos outros ao redor da arena… até a hora assinalada na qual a tropa de gladiadores aparecerá para lutar por vida ou morte. E a hora chegará.
– Heinrich Heine – (aliás, Chaim Bückeburg) 

Representação de Ragnar em suas aventuras: os guerreiros verdadeiros navegam sem medo para mundos distantes, enfrentando o desconhecido

 

NOTAS
[1] As três palavras revelam sua origem na raiz da runa Man.
 
[2] Também está relacionado às míticas civilizações sobre-humanas do folclore europeu (gigantes, titãs, Atlântida, atlantes, Tuatha Dé Danann).
 
[3] O grupo de doze homens (mais o líder ou o protegido, o décimo terceiro) é uma constante, não só em várias mitologias indo-europeias, mas na vida diária dos germanos e representa o círculo seleto. Doze eram os homens que normalmente se requeriam para realizar uma missão sagrada. Doze eram os representantes do Ting (Parlamento) entre os povos nórdicos. Doze eram as testemunhas que se apresentavam em certos casos de justiça. E, como todos sabem, doze eram os apóstolos de Cristo. Doze eram os cavaleiros da távola redonda; bem como doze são os raios que partem do ponto central no símbolo arquetípico do sol negro.
 
[4] Espumar pela boca pode estar relacionado com a raiva que possui o lutador fanático transformado em batalha. Curiosamente, durante certos combates durante a Guerra Civil espanhola, muitos membros da Legião Espanhola, visivelmente fanatizados e alterados pela brutalidade do combate e pelo seu próprio adoutrinamento pseudo-místico, espumavam pela boca.
 
[5] Os posteriormente almogávares da Coroa de Aragão também tinham esse costume.
 
[6] Para o homem envenenado pelo Sistema, a via sinistra, a via úmida, é o primeiro caminho a seguir. Por outro lado, ter filhos, tão necessário em nossa era, está vedado na via destra.
 
[7] Assim como o leão, o carneiro, o cabra macho ou o touro. O urso tem a particularidade de poder se levantar e assim aumentar sua medula espinhal. Com isso, ele vai da horizontalidade para a verticalidade, apontando sua espinha para o céu e simbolizando a transição do lado material (horizontalidade, terra) para o espiritual (verticalidade, céu) à vontade. O lobo tem a particularidade de que, além de constituir uma alcateia unida e hierárquica, pode desenvolver-se por conta própria, e que durante o inverno não hiberna, mas permanece ativo e predatório.


[8] Para o homem envenenado pelo Sistema, o caminho sinistro, o caminho molhado, é o primeiro caminho a seguir. Por outro lado, ter filhos, tão necessários no nosso tempo, é proibido no caminho certo.


[9] Assim são o leão, o carneiro, a cabra ou o touro. O urso tem a distinção de poder se levantar e, assim, levantar a medula espinhal. Com isso, ele vai da horizontalidade para a verticalidade, apontando sua espinha para o céu e simbolizando a transição do lado material (horizontalidade, terra) para o espiritual (verticalidade, céu) à vontade. O lobo tem a particularidade de que, além de constituir um rebanho bem unido e hierárquico, pode se desenvolver, e que durante o inverno não hiberna, mas continua ativa e predatória.


[10] “Iniciação, ritos, sociedades”.


[11] O nome dinamarquês do rei era Gang Hrolf, ou “Ralf the Wayfarer”, como se dizia ser muito grande para que um cavalo carregasse seu peso.
Fonte: Europa Soberana: Soldados de la bestia —los bersekers y la expansión vikinga


Notas e edição de imagem: www.osentinela.org

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