Dr. Enéas Ferreira Carneiro: A Farsa na Política Econômica

“A Imprensa brasileira, serva do Poder Constituído, é submissa ao Sistema Financeiro Internacional, razão por que o povo não tem acesso às intenções verdadeiras que se escondem por trás da farsa embutida nas palavras da moda “privatização, […] Estado mínimo, […] globalização da economia etc.

 
Está em andamento, e com velocidade crescente, um plano diabólico de destruição de todos os nossos valores, de tudo aquilo que nos foi legado pelos nossos antepassados e que nos faz sermos uma nação.
 
Poucos estão tendo consciência do abismo para onde todos estamos caminhando. Percebo que o povo precisa despertar […]” – Dr. Enéas Ferreira Carneiro, em “O Brasil em perigo!”,(1997)
I – O diagnóstico erradoA política econômica que vem sendo imposta ao Brasil é um dos exemplos mais dantescos do que pode um Governo fazer contra um povo.

Sucedem-se os planos — Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão, Collor, Collor II e, agora, Plano Real.

Com exceção do Plano Cruzado, que houve, realmente, uma proteção aos salários, em todos os planos subsequentes veio diminuindo, progressivamente, o poder de compra da moeda.

O último Plano, executado às vésperas do processo eleitoral, não foi diferente dos demais.

Tanto quanto os outros, não mexeu no sistema de formação de preços, naquilo onde o Governo pode e deve intervir — a carga tributária e a taxa de juros.

Na verdade, ainda com a eterna desculpa de que é para acabar com a inflação, a população brasileira está sendo vítima de uma perda colossal do seu poder aquisitivo.

A tese continua sendo inibir o consumo, porque a inflação, dizem eles, é uma inflação de demanda (1).

Então, há que conter a demanda!

Para isso, apertam-se os salários e mantêm-se as taxas de juros bem elevadas, visando a restringir o crédito.

Assim, sem dinheiro, a população terá que consumir menos. Consumindo menso, haverá mais produtos para vender do que é possível comprar. E os preços cairão, pelas leis do mercado.

Mas o grande erro da tese é que a inflação brasileira não é uma inflação de demanda, não é uma inflação de consumo.

Dois terços dos brasileiros vivem numa economia de pura substância (2). Com o que ganham mal conseguem sobreviver.

A inflação brasileira é, fundamentalmente, uma inflação de custos. 

Então, como no Brasil, são capitalistas que fazem os preços dos seus produtos, boa parte deles formando oligopólios — e não o mercado, como se quer fazer crer, e como os juros são embutidos nos preços finais dos produtos, é um sonho imaginar-se que, por esse caminho, a inflação vá diminuir.

Aí estão muitos anos mostrando exatamente o contrário.

Com taxas de juros elevadíssimas — as maiores do planeta (3) — levando a uma brutal restrição do crédito, isso aliado a custos “sociais” insuportáveis pagos pelas empresas, de modo extorsivo, ao Governo, que fazem os empresários?

Eles, que poderiam, pelo menos, investir na produção, comprando máquinas, equipamentos, modernizando suas fábricas, que estimulo terão para fazê-lo, se será tão mais cômodo fazer as chamadas aplicações de capital, nas quais o retorno líquido será muito superior ao lucro de qualquer atividade produtiva?

O modelo é destruidor, cínico e desumano.

Destruidor porque, pouco a pouco, veio e continua deteriorando o parque industrial de um país que, até bem pouco tempo atrás, pulsava com algum dinamismo e, se bem que na periferia, pertencia ao grupo das 10 maiores economias do mundo.

A industria trabalha com uma ocisidade em torno de 25%, o que representa cerca de 250 a 300 bilhões de dólares em equipamentos paralisados.

Cínico, porque se apresenta como a salvação única possível para uma economia totalmente desorganizada, acenando, sempre, com a bonança para alguns meses à frente, enquanto a desordem nos preços aumenta cada vez mais.

Desumano porque, privilegiando o capital improdutivo, levando à falência milhares de estabelecimentos de pequeno e médio porte, lançando na rua milhões de pessoas sem emprego, cria todas as condições para o desarranjo total da sociedade, fazendo crescer, entre os cidadãos, a falta de confiança no trabalho, no Governo, nas pessoas e no futuro da nação.

II – O momento atual – o “milagre do plano real”

Desde o final do ano passado, 1993, já era evidente, com os níveis elevadíssimos a que tinha chegado a inflação, que alguma medida deveria ser adotada, mas havia o perigo de, aplicado logo o plano, ele não durar o tempo suficiente, não chegar até outubro de 1994 e, ter-se-ia perdido sua razão de ser — a eleição de então Ministro da Economia ao cargo máximo da nação.

A URV (4) foi lançada em março de 1994 e a inflação aumentou ainda mais, com a adesão espontânea de alguns seguimentos, aqueles que são capazes de impor seus preços ao mercado.

A inflação passou a ser em URV´s

A adesão não era total porque muitos temiam que houvesse um congelamento. No último estágio que precedeu a chegada do Real, a ascenssão dos preços foi algo nunca visto!

Como todos aqueles que fazem os preços foram cuidadosamente avisando do que iria ocorrer — ao contrário do que aconteceu no Plano Cruzado — o custo de vida subiu assustadoramente, enquanto os salários foram mantidos congelados a partir de um valor médio obtido dos quatro últimos meses.

Mais uma vez as taxas de juros foram mantidas em um nível elevadíssimo, de 8% ao mês — a explicação era que se visava a uma estabilização monetária.

Só a título de curiosidade, vale mencionar que as mais altas taxas de juros reais no mundo civilizado, em 1993, não chegaram a 7% ao ano — foi o nível com que trabalhou a Grécia. As grandes economias trabalharam com taxas bem menores, inferiores a 5% ao ano.

Considerando-se a divida mobiliária do Governo, somente com os títulos em poder do público, no valor de 57 bilhões de dólares (dados ANDIMA e BACEN — maio de 1994), no minimo foram pagos, apenas no mês da implantação do Plano Real, com a taxa de juros reais, determinada pelo Governo, de 8% ao mês, fabulosos 4,5 bilhões de dólares aos verdadeiros “donos da nação, àqueles que dominam o Sistema Financeiro Nacional que, naturalmente, está de mãos dadas com o Sistema Financeiro Internacional (5).

Esta é face oculta de tudo o que ocorre no nível governamental. Afirma-se, a cada instante, que não há recursos para equipar os hospitais, para pagar os funcionários, para consertar as estradas, para pagar aposentados, para fazer funcionar as escolas, que o Estado está falido etc, etc, etc, etc.

Mas não se diz, não se revela à população, que o Sistema Financeiro abocanhou, a década passada, dos cofres públicos, a cifra astronômica de 100 bilhões de dólares, e que o mesmo fenômeno ocorrendo, simplesmente porque não interessa mexer no Sistema.

O que fez, afinal de contas, o atual plano?

Ele não têm âncora cambial, nem âncora nos preços.

A única âncora do plano é a diminuição dos salários, que registraram perdas consideráveis nos dois últimos meses.

É a perda dos salários aquilo que realmente sustenta o plano, o que não foi ainda percebido pela população, que se impressiona, naturalmente, com a falsa concepção de uma nova moeda forte.

O plano não tem consistência, mas criou um estado de euforia transitória, que pode durar até as eleições.

A inflação está artificialmente detida, por algum tempo, e dai? O que acontecerá depois?

Observemos o exemplo do povo irmão, da Argentina, com sua economia em fagulho, diminuição do seu mercado interno e empobrecido geral da nação (6).

Como se pode ter a coragem de dizer que vai haver progresso, que vai haver crescimento se nada foi feito para aumentar o mercado interno?

Se, ao contrário, o número de marginalizados está aumentando, dia a dia, porque, reduzindo-se a massa salarial, é evidente que diminuirá o mercado interno e, diminuindo o mercado interno, quem vai ter coragem de investir?

O caráter maquiavélico dos mentores do plano tem que ser encarado de frente — houve um planejamento frio, diabólico, visando, especificamente, a um sucesso temporário, que deverá ser garantido até as eleições.

Mas aí há duas hipóteses:

Num primeiro cenário, apesar do nível de atividade econômico encontrar-se extremamente baixo, mesmo com o risco de aumentar o desemprego, os sindicatos fazem pressão e o Governo não consegue manter os salários no nível em que estão.

Como o plano depende, exclusivamente, da diminuição dos salários, se houver aumento de salários, ele soçobra.

O desmoronamento do plano levará, então, ao descrédito do seu principal criador — e sua candidatura, apoiada também exclusivamente no plano, perderá força.

Num segundo cenário, com a ilusão da “moeda forte” e todo o arsenal gigantesco investido na campanha do candidato oficial do Sistema, se vier a ocorrer a eleição desse candidato, o Brasil terá dado o mais triste passo para a perda de sua soberania.

Alegando a tão decantada “falta de recursos” após as eleições, para fazer caixa segui-se-á a política neoliberal, privatizando-se, quer dizer, entregando-se a grupos nacionais que serão, de fato, meros testas-de-ferro do capital internacional, o que resta do patrimônio público — a energia, as telecomunicações, o subsolo e, quem sabe, até o ar atmosférico…

É contra tudo isso que se lança o PRONA, dando um grito de alerta a toda a Nação Brasileira, para que desperte da letargia em que se encontra e perceba, dentre todos os que se apresentam como postulantes ao cargo de Presidente da República, quem é que está realmente dizendo a verdade, quem é que está realmente  preocupado com o futuro do Brasil e que reúne condições de inteligência, preparo, visão de estadista, e que se encontra numa condição privilegiada de absoluta independência em relação ao Sistema que, de uma forma ou de outra, acabou por engolfar a classe política brasileira.

Fonte: CARNEIRO, Enéas Ferreira. Um grande projeto nacional. PRONA (Partido da Reedificação Nacional). 1994. p. 27 – 31.


Edição, notas e adaptação de texto: www.osentinela.org

Notas: 

(1) – A inflação consiste no aumento dos preços, assim como no crescimento anormal e contínuo dos meios de pagamento, estando estes relacionados com as necessidades de circulação dos bens de consumo, ocasionando a desvalorização da moeda. Em outras palavras, quanto maior for a inflação, menor será o poder de compra, e menor será o poder aquisitivo da moeda.


Nesse aspecto a inflação de demanda é o aumento na procura de um determinado bem, sem que exista uma resposta compatível da oferta, sendo assim necessário aumentar o valor desse bem para equilibrar a economia. (fonte)

(2) –  O indicador de desigualdade do IBGE que coletou dados até 2016, a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) que investigou o rendimento e a força de trabalho, indica que em 2016, o ganho médio de uma pessoas que integra o grupo de 1% mais rico da população era equivalente a 36 vezes do ganho de uma pessoa que integra o grupo da metade mais pobre do país. Ou seja, 889 mil pessoas integram o grupo de 1% mais rico, que em 2016 teve rendimento médio de R$ 27 mil /mês, enquanto 44,4 milhões integram o grupo de 50% com menor renda e que em 2016 ganhou R$ 747 em média por mês, inferior ao salário mínimo.


A concentração de renda e a diferença entre os ganhos desses dois grupos demonstram o quanto o Brasil é desigual. O índice de Gini, usado para medir a desigualdade, ficou em 0,525 no país em 2016. (fonte)

(3) – Enéas escreveu esse texto em 1994. Até hoje é cada vez pior. Mesmo com o quinto corte seguido na taxa Selic, o Brasil continua sendo o país onde se pratica a maior taxa de juro real numa lista que reúne dados de 40 países. Retraída para pouco mais de 11,2%, ficando numa média de 6,36% ao ano, acima dos 5,12% do juro real na Rússia, a segunda maior, e distante dos 2,49% da Colômbia, que ocupa o terceiro posto da lista. (fonte)

 

(4) – Unidade Real de Valor ou URV (sigla pela qual se popularizou) foi a parte escritural da atual moeda corrente do Brasil, cujo curso obrigatório se iniciou em 1º de março de 1994. Foi um índice que procurou refletir a variação do poder aquisitivo da moeda, servindo apenas como unidade de conta e referência de valores. Teve curso juntamente com o Cruzeiro Real (CR$) até o dia 1º de julho de 1994, quando foi lançada a nova base monetária nacional, o Real (R$).


Instituída pela Medida Provisória nº 482 (posteriormente transformada na Lei nº 8.880), foi parte fundamental do Plano Real contribuindo positivamente para a mudança de moeda, para a estabilização monetária e econômica, sem medidas de choque como confiscos e congelamentos.


O Ministro da Fazenda responsável em gerir a equipe de economistas que planejaram a entrada do Real como moeda corrente no Brasil e foi o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, futuramente eleito Presidente da República em outubro de 1994. Mas quem era o ministro da fazenda quando se pós em pratica o plano foi o ministro Rubens Ricupero tendo sido prosseguido pelo ministro Ciro Gomes que continuou no cargo até o fim do governo Itamar Franco. (fonte)

(5) – Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) é a parte da dívida pública que pode ser paga em moeda nacional, à diferença da Dívida Pública Mobiliária Federal externa, que deve ser paga em moeda estrangeira.


Em julho de 2016, segundo o Relatório Mensal da Dívida Pública Federal, divulgado pelo Tesouro Nacional, o estoque da Dívida Pública Federal era de R$ 2.956,51 bilhões. O estoque da DPMFi era de R$ 2.832,15 bilhões. O estoque da DPFe era de R$ 124,36 bilhões (US$ 38,40 bilhões), sendo R$ 114,28 bilhões (US$ 35,28 bilhões) referentes à dívida mobiliária e R$ 10,08 bilhões (US$ 3,11 bilhões), à dívida contratual. Ou seja, só cresce! (fonte)

(6) – A crise econômica argentina foi uma situação financeira que afetou a economia argentina durante a década de 1990 e início da década de 2000. Macroeconomicamente falando, o período crítico começou com a queda do PIB real em 1999 e terminou em 2002 com o retorno do crescimento do PIB, mas as origens do colapso da economia argentina, e seus efeitos sobre a população, podem ser encontradas em ações anteriores. (fonte)


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