As Origens Tradicionais do Carnaval

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Tradições Indo-Europeias Pré-Carnaval

É necessário recuperar o significado desta festa, a mais atípica dos nossos tempos e que não tem significado religioso, ou civil, mas tem suas raízes na tradição das populações europeias mais antigas. Na Roma arcaica, temos exemplos de festas pré-carnaval que ocorreram no período do solstício de inverno ao equinócio de primavera. Em 15 de Fevereiro, realizava-se a Lupercalia, em honra do Deus silvestre Fauno Lupercus, onde os jovens (luperci – filhotes) envolviam o corpo com peles de animais sacrificados e cortavam outras peles em tiras e correndo e brandindo-as pela rua, açoitavam as pessoas que encontravam pelo caminho. As mulheres estéreis se submetiam aos golpes na esperança de recuperar sua fertilidade. Em 17 de março, por sua vez, se comemorava a Liberalia, festival dedicado a Baco, o Deus agreste da vida (representando a mutabilidade do ânimo exuberante e a energia fecundante da natureza), onde se pendurava pequenas máscaras em um pinheiro e e os cidadãos se abandonavam entre risos, canções e piadas.

Quadro “Ave, Caesar! Io, Saturnalia!”. Óleo sobre tela de Sir Lawrence Alma-Tadema (1880), Akron Art Museum, EUA. I Wkipédia Comnnos

Nos solstícios, momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do equador, provocando as mudanças e aberturas de estações, lembramos da Saturnalia, evento único de seu tipo, onde rituais alegres e libertários de tipo carnavalesco se repetiam; aqui as leis sociais eram abolidas e havia uma inversão de papéis, onde plebeus e patrícios estavam sentados à mesma mesa e era eleito um rei entre os mais destituídos ou entre os mais jovens da comunidade. No final deste evento, em homenagem a Saturno, a ordem era restabelecida com a “morte” do caos. Estes eventos eram tudo menos parênteses despreocupados de evasão, mas sim períodos carregados de valores sagrados. A morte é um elemento constantemente presente nesses eventos e vai representar o fim de um ciclo e, então, preludiar uma nova ordem no signo da fecundidade e da abundância. A “morte” do caos é, portanto, a morte do “rei do carnaval”, momento que se desenvolve sempre ao final das “festividades”, tudo rodeado como de costume por uma atmosfera de embriaguez, risos, cantos e transgressões. Em tudo isso, o “rei” era acompanhado por carros, onde seu movimento recorda a passagem do tempo no cumprimento do evento “fatal”, isto é, o fim do ano marcado pelo movimento das estrelas. O percurso tem um valor simbólico, que também pode ser encontrado na corrida dos luperci, no salto do salii em honra de Marte (1 de março), e entre o final de fevereiro e a primeira metade de março às equirria, corridas cavalos que também propiciavam ao Deus da guerra. O fim deste ciclo ocorria em fevereiro (purgar, purificar), já que era o último mês do ano, e ali começava um novo em março, que era o primeiro mês, às postas do equinócio da primavera, afirmação da vida e, portanto, do renascimento.

Também encontramos festivais similares em outras populações de raízes indo-europeias, que sempre ocorriam no período entre o final de fevereiro e o início de março. Na Grécia se realizava as Antestérias; a festa, que durava três dias, era celebrada em honra do Deus Dionísio (representado com chifres e pés de cabra, às vezes jovem, corresponde ao Pan, “tudo”, e é um deus silvestre), e incluí no primeiro dia o preenchimento de jarros com vinho, no segundo dia ao entardecer começava a festa, onde se formava uma procissão composta por sátiros tocadores de flauta, levando guirlandas, máscaras, um touro sacrificial e uma barca puxada sobre quatro rodas. O terceiro dia tinha um caráter funerário, já que a festa também estava dedicada aos mortos. Também na Índia encontramos o festival de Holi, e também nessa circunstância encontramos ritos de fertilidade, desfiles de carros alegóricos, momentos eróticos e burlescos, com a presença das máscaras. Podemos, portanto, concluir, apontando para o fato de que o Carnaval, tendo lugar no último mês era a festa para “libertar” as últimas energias e resíduos do ano, e, em seguida, o momento de se renovar e se revitalizar reflorescer a vida e o espírito, como a natureza retornará a florescer com a primavera.

Também entre os antigos egípcios havia as festas de Ísis e do boi Ápis. Estudiosos defendem a origem do nome romano para a festa do Navigium Isidis (“navio de Ísis”), onde a imagem de Ísis era levada à praia para abençoar o início da temporada de velejamento.

Pintura “Procession in Honor of Isis”, de Arthur Bridgman, 1902. Representa a Festa do Navigium Isidis, comemorada na Roma e Egito antigos em homenagem a deusa Ísis. I Imagem: Wikipédia Commons.

Várias tribos germânicas celebravam o retorno da luz do dia. O inverno seria afastado, para se certificar de que a fertilidade poderia retornar na primavera. Uma figura central desse ritual era possivelmente a deusa da fertilidade Nerto. Além disso, há indicações de que a efígie de Nerto ou Frey era colocada em um navio com rodas e acompanhada por uma procissão de pessoas disfarçadas de animais e homens vestidos de mulheres. A bordo do navio um casamento seria consumado como um ritual de fertilidade.

Tácito escreveu em sua obra Germânia:

“Os germânicos, no entanto, não consideram consistente com a grandeza dos seres celestiais confinar os deuses dentro de muros, ou compará-los à forma de qualquer rosto humano. Depois, o carro, as vestes e, se você quiser acreditar, a própria divindade, são purificados em um lago secreto”.

Pintura de Emil Doepler (1855 – 1922) datada de 1905 em “Walhall, die Götterwelt der Germanen”, de Martin Oldenbourg, Berlim. page 11. Os espectadores observam como o vagão processional da deusa germânica Nerthus se move, inspirado pela descrição de Tácito dos costumes germânicos em seu trabalho do primeiro século d. C Germânia. I Imagem: Wikipédia Commnos

Tradicionalmente, a festa também era uma época para satisfazer desejos sexuais, que deveriam ser suprimidos durante o jejum seguinte.

Entre os Povos Semitas e Caldeus

Entre os hebreus havia a festa das sortes; Na antiga Babilônia, as Saceias eram uma festa em que um prisioneiro assumia durante alguns dias a figura do rei, vestindo-se como ele, alimentando-se da mesma forma e dormindo com suas esposas. Ao final, o prisioneiro era chicoteado e depois enforcado ou empalado.

O outro rito era realizado pelo rei nos dias que antecediam o equinócio da primavera, período de comemoração do ano novo na região. O ritual ocorria no templo de Marduk, um dos primeiros deuses mesopotâmicos, onde o rei perdia seus emblemas de poder e era surrado na frente da estátua de Marduk. Essa humilhação servia para demonstrar a submissão do rei à divindade. Em seguida, ele novamente assumia o trono.

O Caráter do Carnaval na Idade Média

A palavra carnaval é originária do latim, carnis levale, cujo significado é retirar a carne. O significado está relacionado com o jejum que deveria ser realizado durante a quaresma e também com o controle dos prazeres mundanos. Isso demonstra uma tentativa da Igreja Católica de enquadrar as comemorações latinas pagãs.

Outro significado para “carnaval”, pode também advir de “Car Naval” nomeadamente Carro Naval, que na Idade Média era chamado de Stultifera Navis, nau dos tolos. Talvez uma forma dos cristãos chamarem genericamente aqueles que ainda praticavam os ritos antigos.

Com o fortalecimento de seu poder, a Igreja não via com bons olhos as festas. A Igreja Católica buscou então enquadrar tais comemorações a partir do século VIII, com a instituição da quaresma, tais festas passaram a ser realizadas nos dias anteriores ao período religioso. Dessa forma, mantinha uma data para as pessoas cometerem seus excessos, antes do período da severidade religiosa.

Quadro “A Luta entre o Carnaval e a Quaresma” de 1559, da autoria de Pieter Bruegel (1564-1638), atualmente exposto no Kunsthistorisches Museum de Viena. I Imagem: Wikipédia Commnos

Gradualmente, a autoridade eclesiástica começou a perceber que o resultado desejado não poderia ser alcançado através da proibição das tradições, o que acabou levando a um grau de cristianização da festividade. Os festivais passaram então a fazer parte da liturgia e do ano litúrgico.

Durante os carnavais medievais por volta do século XI, no período fértil para a agricultura, era tradição popular em muitos lugares da Europa campesina que homens jovens que se fantasiavam de mulheres saíam nas ruas e campos durante algumas noites. Diziam-se habitantes da fronteira do mundo dos vivos e dos mortos e invadiam os domicílios, com a aceitação dos que lá habitavam, fartando-se com comidas e bebidas, e também com os beijos das jovens das casas.

Enquanto desfiles medievais e festivais como Corpus Christi eram sancionados pela Igreja, o Carnaval também era uma manifestação da cultura folclórica medieval. Muitos costumes locais do Carnaval podem derivar de rituais pré-cristãos locais, tais como os ritos elaborados que envolvem figuras mascaradas no Fastnacht germânico. No entanto, evidências ainda são insuficientes para estabelecer uma origem direta da Saturnalia ou outras festas antigas com o Carnaval. Não existem relatos completos de saturnais e as características da festa, como reviravoltas de papéis sociais, igualdade social temporária, máscaras e rompimento de regras permitidas, não constituem necessariamente aspectos coerentes com esses festivais.

Carnaval de máscaras veneziano I Imagem brasilnaitalia

Durante o Renascimento, nas cidades italianas, surgia a commedia dell’arte, teatros improvisados cuja popularidade ocorreu até o século XVIII. Em Florença, canções eram feitas para acompanhar os desfiles, que contavam ainda com carros decorados, os trionfi. Em Roma e Veneza, os participantes usavam a bauta, uma capa com capuz negro que encobria ombros e cabeça, além de chapéus de três pontas e uma máscara branca.

Tradição de Portugal ao Brasil

O Carnaval de Portugal é comemorado em todo o país, o mais famoso em Ovar, Sesimbra, Madeira, Loulé, Nazaré e Torres Vedras. Os carnavais em Podence e Lazarim incorporam tradições pagãs como o careto, enquanto a celebração de Torres Vedras é provavelmente a mais típica. Em Lazarim, uma paróquia civil no município de Lamego, as celebrações seguem a tradição pagã dos saturnalias romanos.

Carnaval de Lazarim, Portugal (2009) I Wikipédia Commnos

O carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial com as manifestações do “entrudo”, uma  das primeiras festividades de origem portuguesa muito praticada nas colônias. Em Cabo Verde, por exemplo, o carnaval foi introduzido pelos colonos portugueses e hoje é comemorado em todas as 9 ilhas. A celebração em São Nicolau é mais tradicional, onde os grupos estabelecidos desfilar pela Ribeira Brava, reunindo-se na praça da cidade, embora tenha adotado tambores, carros alegóricos e trajes do Brasil.

Depois surgiram os cordões e ranchos, as festas de salão, os corsos e as escolas de samba. Afoxés, frevos e maracatus também passaram a fazer parte da tradição cultural festiva brasileira uma vez que começaram a ser diluídas dentre as regionalidades nacionais. Marchinhas, sambas e outros gêneros musicais também foram incorporados à maior manifestação cultural do Brasil posteriormente até virarem oque são hoje.

Fontes de Pesquisa:

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