Antoun Saadeh e o Social Nacionalismo Sírio

“Al-Madrahiyyah consiste em chamar as nações a descartar a doutrina que considera o Espírito como o único motor do progresso humano, ou a Matéria como a base fundamental do desenvolvimento humano; desistir de uma vez por todas da ideia de que o mundo é necessariamente um estado de guerra em que forças espirituais lutam continuamente com forças materiais; e finalmente admitir conosco que a base do desenvolvimento humano é materialista-espiritual e que a humanidade superior reconhece essa base e constrói nela o edifício do futuro. O mundo, que veio a perceber, especialmente depois da última guerra mundial, como as filosofias e ideologias parciais do capitalismo, do marxismo, do fascismo e do nacional socialismo foram destrutivas, está hoje em necessidade de uma nova filosofia social que pode salvá-lo da arbitrariedade e erro dessas ideologias.” – Antoun Sa’adeh, Comentários sobre a ideologia,  p. 132.

Antoun Sa’adeh (ou Saadeh) nasceu em 1 de março de 1904, em Dhour El Choueir, no atual Líbano sob o Império Otomano. Filho do médico, intelectual e autor cristão ortodoxo libanês,  Khalil Saadeh e sua esposa, Naifa Nassir Khneisser. Suas obras abrangem os campos da política, literatura, jornalismo, romance e tradução. Sendo um nacionalista sírio, seu pai apoiava de um governo democrático autônomo para o país.Naquela época, findada a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), que levou também ao fim do Império Otomano, derrotado, ocorreu a dilaceração e ocupação da Mesopotâmia e da Palestina pelas tropas francesas e britânicas. Reconhecida a importância que petróleo teve durante a guerra, as potências ocupantes decidiram controlar todo este vasto território e impedir o acesso alemão aos poços de petróleo de Quircuque.

Com divisões previamente estipuladas pelo Acordo Sykes-Picot elaboradas em 1916, dois anos antes do fim da guerra, o Líbano foi colocado sob o mandato francês, sob ordens dla Sociedade das Nações em 1922. A República Libanesa só seria criada em 1926.

Antoun completou sua educação primária em sua cidade natal e continuou seus estudos no Lycée des Frères, no Cairo (Egito) e retornou ao Líbano por conta do falecimento de sua mãe. No ano seguinte, final de 1919, emigrou para o sul dos Estados Unidos, onde residiu por aproximadamente um ano com seu tio em Springer, no estado de New Mexico (Novo México), trabalhando numa estação de trem local. Em fevereiro de 1921, mudou-se para o Brasil com o pai, que então era um proeminente jornalista em língua árabe. Em 1924, fundou uma sociedade secreta que visava a unificação do que era chamado “Síria Natural” e, apesar desta sociedade ter sido dissolvida no ano seguinte, a ideia da “Síria Natural” prevaleceu, pois segundo Saadeh, sintetizava a ideia do espaço vital da etnia síria, que incluía o Levante, a Palestina, a Transjordânia, o Líbano, a Síria, o Iraque e partes do sul da Turquia. Seu conceito da Síria incluía todos os grupos religiosos e linguísticos que e etnia abrangia e que viviam nessa região.
Saadeh e o SSNP, almejavam a “Síria Natural”, que incluía a Síria moderna, Líbano, Palestina, Jordânia, Iraque, Kuwait, Chipre, a Península do Sinai, a região de Ahvaz do Irã, e a região Kilikian da Anatólia.
 
Para tanto, uma vez que esse conceito acumulava a função étnica de uma verdadeira soberania síria, vista como único modo de garantir a sobrevivência independente do povo enquanto sua formação política e sabendo que os sírio-libaneses encontravam divididos entre facções políticas e religiosas, era necessário visar para isso, a reforma secular do Estado (separação de religião e política) para a abrangência de todos os povos étnicos sobre liderança síria e uma unificação política que lhes garantisse a estabilidade de uma Síria forte.
Durante seu tempo no Brasil, Saadeh aprendeu alemão e russo, tornando-se fluente num total de sete idiomas, que além dos dois citados eram o árabe, inglês, português, francês e espanhol.
De volta ao Líbano
Em julho de 1930, ele retornou ao Líbano. Em 1931, ele escreveu “Uma tragédia amorosa”, enquanto trabalhava no jornal diário de Al-Ayyam.
Em 1932, enquanto ensinava alemão na Universidade Americana de Beirute, Em 16 de novembro daquele ano, Saadeh fundou secretamente o Partido Socialista Nacional Sírio.
Em 1933, publicou (na mesma cidade), “História do feriado de Nossa Senhora de Sidnaya“.  Nesse mesmo ano, também começou a publicar panfletos na revista Al-Majalia, em Beirute.
Fundação do Social-Nacionalismo Sírio
Somente em 16 de novembro de 1935, a existência do partido foi proclamada oficialmente e Saadeh foi preso e sentenciado a seis anos de prisão. Durante seu confinamento, ele escreveu seu primeiro livro, “A ascensão das nações“. libertado da prisão antecipadamente, foi novamente detido em junho de 1936, onde escreveu outro livro, “Princípios explicados“. Em novembro do mesmo ano, ele foi libertado até março de 1937, quando foi preso novamente. E durante esse tempo que passou na prisão, escreveu seu terceiro livro do gênero político, “A ascensão da nação síria”, mas seu manuscrito foi confiscado e as autoridades se recusaram a devolvê-lo.
Atividade no exterior e exílio
Retorno ao Líbano
Ele foi libertado da prisão no final de maio daquele ano de 1937. E em novembro, Saadeh fundou o jornal Al-Nahdhah, liderando o partido até o ano seguinte, 1938 e, pela segunda vez, deixou o país para estabelecer filiais partidárias nos países de emigração libanesa.
Saadeh veio ao Brasil e fundou o jornal “Nova Síria“. Logo depois, ele foi preso pelas autoridades coloniais francesas e passou dois meses na prisão. Em 1939, no início da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), Saadeh mudou-se para a Argentina, onde permaneceu até 1947. Lá, Saadeh continuou suas atividades fundando o jornal Al-Zawba’a (A tempestade) e escreveu “A luta do intelecto na literatura síria”, impresso em Buenos Aires.

Em 1943, Saadeh se casou com Juliette Al-Mir e teve três filhas com ela, ao mesmo tempo e que a corte colonial francesa condenou-o à revelia a vinte anos de prisão no mesmo ano.Durante a Segunda Guerra Mundial, o país foi ocupado (1941-1945), pelas forças da França apoiadas pelo Reino Unido até sua independência política, abrindo jogo para as guerras civis e contexto turbulento do regime democrático instaurado.

Retorno ao Líbano
Saadeh retornou ao Líbano em 2 de março de 1947, após a independência do país da França. Logo após o retorno, ele fez um discurso revolucionário, no qual as autoridades emitiram um mandado de prisão que vigorou por sete meses e depois foi retirado. Novamnente no país, Saadeh fundou outro jornal, o Al-Jil Al-Jadid.
Revolta do Líbano de 1949 e execução
Antoun Saadeh
Em 4 de julho de 1949, o partido declarou uma revolução no Líbano em retaliação a uma série de provocações violentas encenadas pelo governo do libanês em repressão ao partido. A revolta foi reprimida e Saadeh viajou para Damasco para se encontrar com Husni al-Za’im, o presidente da Síria na época, que havia concordado anteriormente em apoiá-lo. No entanto, ele foi entregue por el-Zai’m às autoridades libanesas. Saadeh e muitos dos seus seguidores foram julgados por um tribunal militar libanês, e executados, o próprio Saadeh por um pelotão de fuzilamento. A captura, julgamento e execução ocorreram em menos de 48 horas. A execução de Saadeh ocorreu na madrugada de 8 de julho de 1949 na capital libanesa. Ele tinha 45 anos. Segundo Adel Beshara, um dos seus maiores biógrafos, foi e ainda é o julgamento mais curto e mais secreto dado a um dissidente político.
Saadeh, nomeado líder do partido, afirmava que sua doutrina se visava uma entidade social dinâmica (composta de muitos elementos, da religião à linguagem, cultura, história, necessidade e principalmente interação humana), definindo sua identidade nacional e não a imposição de um ideal de identidade sobre as muitas facções.
Ele enfatizou o papel da filosofia e das ciências sociais no desenvolvimento de sua ideologia social. Ele via o nacionalismo social, sua versão do nacionalismo, como uma ferramenta para transformar a sociedade tradicional de forma dinâmica e em sentido de progresso. Ele também se opôs à colonização que destruiu e Grande Síria fragmentada em sub-estados. A secularização desempenhou um papel importante em sua ideologia, pois foi elevada além dos aspectos sociopolíticos em questão de suas dimensões filosóficas.
A Continuidade do Partido
Seu partido continuou ativo depois de sua morte. Posteriormente, o presidente do Líbano Camille Chamoun foi apoiado pelo SSNP durante a crise de 1958 no país. Em 1961, o SSNP tentou outra tomada de Estado contra o presidente Fuad Shihab, que terminou em fracasso. Durante a década de 1960, líderes do partido foram presos e, eventualmente, o partido se dividiu em facções separadas. Além de ter a legenda extinta e considerada proibida, retornado apenas no começo do século XXI.
O SSNP “Zawbaa” (vórtice, tempestade) é um glifo que combina o crescente muçulmano e a cruz cristã, derivada da arte mesopotâmica, e simboliza o sangue derramado pelos mártires que faz a roda da história girar para frente, dissipando a escuridão circundante ( representando o sectarismo e a ocupação otomana e a opressão colonial que se seguiu). Dentro do partido, Saadeh ganhou um culto à sua personalidade e defendeu um sistema unitário de governo, ao mesmo tempo em que glorificava o passado pré-cristão do povo sírio.
A filosofia político social de Saadeh 
Saadeh rejeitou o nacionalismo árabe (a ideia de que os falantes da língua árabe formam uma única nação unificada), e argumentou em vez disso pela criação do Estado e da Nação Síria Unida ou Síria Natural, abrangendo o Crescente Fértil, constituindo uma pátria síria que “se estende da cordilheira de Touro no noroeste às montanhas de Zagros no nordeste até o Canal de Suez e o Mar Vermelho no sul e inclui a península do Sinai e o Golfo de Aqaba, e do Mar da Síria a oeste, incluindo a ilha de Chipre, para o arco do deserto da Arábia e do Golfo Pérsico no leste.
Saadeh rejeitou a linguagem e a religião como características definidoras de uma nação e, em vez disso, argumentou que as nações se fazem através do desenvolvimento comum de um povo que habita uma região geográfica específica. Ele era, portanto, um forte opositor do nacionalismo árabe e do pan-islamismo. Ele argumentou que a Síria era histórica, cultural e geograficamente distinta do resto do mundo árabe, que ela se dividia em quatro partes. Ele traçou a história da Síria como uma entidade distinta de volta para os fenícios, cananeus, assírios, babilônios etc. e argumentou que o sírio transcendia as distinções religiosas.
Estas alegações de alegada ideologia Nacional Socialista e Fascista do seu partido foram respondidas pelo próprio Saadeh. Durante um discurso de 1935, ele disse:

“Quero aproveitar esta oportunidade para dizer que o sistema do Partido Social Nacionalista da Síria não é nem hitlerista nem fascista, mas um nacional socialista puro. Não se baseia em imitação inútil, mas é, em vez disso, o resultado de uma invenção autêntica – que é uma virtude do nosso povo “

Saadeh tinha uma noção holística da ciência, como “o conhecimento é que gira em torno da interação do eu com as condições físicas circundantes” e era contra o reducionismo epistemológico, considerando que “o eu desempenha um papel ativo na criação das condições que transformam as coisas em objetos do conhecimento. Esse eu, como eu social, é o produto de várias dinâmicas – mente, intuição, prática e existencial. Não depende de um fator e exclui os outros “. Todo o seu pensamento foi uma refutação da “doutrina individualista, seja em suas orientações sociológicas ou metodológicas”. Para ele, o homem era uma totalidade em si mesmo tanto quanto em relação ao seu ambiente imediato, um ser social, mas com sua própria dignidade, que o aproxima do personalismo de Nikolai Berdyaev e, em sua visão, o principal papel da sociedade foi moldar o ser-relação individual através da noção khalduniana de assabiya (solidariedade), que, através de algumas características comuns (geografia, língua, cultura, etc.), traz o que há de melhor no indivíduo, mas sem oprimir suas liberdades individuais nem negligenciá-las, nem no aspecto espiritual ou material. Assim, “o conceito de homem-sociedade é o eixo da teoria da existência humana de Sa’adeh. O que se entende por este conceito é que a existência em um nível humano e a existência em um nível social não são fenômenos independentes; fenômeno, dois aspectos da mesma essência social.
Nacionalismo étnico
Saadeh possuía uma visão regionalista do nacionalismo, dando enfase à geografia: mesmo que ele não fosse um determinista ambiental extremo, ele achava que a relação de um homem com seu meio envolve uma certa maneira de agir, devido ao clima, fauna ou flora; os homens administrarão seus recursos de maneira diferente, quer estejam nas montanhas ou no deserto, o que também terá consequências em suas interações com grupos estrangeiros (sob o controle dos mesmos recursos e assim por diante). Assim, a noção de pátria era cara para ele. Sobre o racismo – que foi associado ao nacionalismo em muitas ideologias europeias -, ele argumentou que, ao contrário da crença comum, raça é um conceito puramente físico que nada tem a ver com as diferenças psicológicas ou sociais entre comunidades humanas. As pessoas diferem entre si por suas características físicas – isto é, cor, altura, aparência – e são divididas em raças. O nacionalismo, no entanto, não pode ser fundado somente nesta realidade. Cada nação é composta de diversos grupos raciais, e nenhum deles seria o produto de uma raça ou uma tribo específica.
Ciclos sócio-econômicos 
Ao contrário de Zaki al-Arsuzi e outros nacionalistas árabes que foram influenciados pela visão de raça e língua dos pensadores europeus – notavelmente Fichte -, Saadeh desenvolveu assim sua própria visão, mais inclusiva e sintética. Em sua teoria dinâmica do nacionalismo para toda a sociedade baseada na união na vida e no ciclo socioeconômico não determinista. Para Saadeh, a terra e as pessoas são dois dos ingredientes importantes da nação, mas não são a própria nação, mas sim um produto civilizatório porque reconhece a necessidade da inevitabilidade da interação entre nações, onde o processo de interação tem dois pólos: o primeiro, as possibilidades econômicas do meio ambiente e o segundo, a capacidade da sociedade de se beneficiar de tais possibilidades. a interação ocorre em dois níveis: horizontalmente, que determina a extensão e o caráter da interação regional e, verticalmente, entre o homem e a terra, dos quais uma interação horizontal pode ou não ocorrer, ao contrário do marxismo, que reduziu a questão econômica a uma questão de classe e considerou a questão nacional sinônimo de burguesia, o conceito do ciclo sócio-econômico é basicamente um conceito sócio-ambiental, onde a mente é um fator primordial. É uma força libertadora e uma entidade complexa que não deve ser vista apenas de um ângulo. Para Sa’adeh, a mente representa a liberação da energia humana e sua incorporação no processo de interação socioeconômica.
Bibliografia
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