Porque cresce o “neopentecostalismo” e seu poder na nas Américas?

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“A Bíblia voltou ao palácio”, declarou a presidente interina da Bolívia, a senadora Jeanine Áñez, ao tomar posse. “Deus retornaria ao governo”, disse Fernando Camacho, uma das principais vozes no processo que levou à renúncia de Evo Morales ao entrar com a Bíblia em mãos no Palácio Quemado, em La Paz. Os dois são católicos e contaram com o apoio de setores conservadores da igreja e de lideranças evangélicas.

Além do caso recente da Bolívia, no Brasil, os evangélicos foram (e ainda são) uma das principais bases eleitorais do presidente Jair Bolsonaro em 2018. Nos Estados Unidos, de tradições muito mais protestantes, isso também ocorreu na eleição de Donald Trump. Nos últimos anos, o apoio evangélico se tornou fundamental na ascensão de líderes da direita na América Latina e nos EUA. Isso sempre vem acompanhado do apoio fiel à Israel e sua política externa sionista.

Luis Fernando Camacho em “oração” pelo fim do governo boliviano de Evo Morales/ Reprodução Youtube.

Olhando a história, vemos que esse não é um  fenômeno próprio da América Ibérica. Ele teve início nos Estados Unidos e começou a ganhar força na América Latina na década de 1980/90, com a ascensão de entidades pentecostais como a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), uma multinacional presente em diversos países que controla várias empresas milionárias como emissoras de TV, canais de televisão e rádio. Seu dono, bispo Edir Macedo já chegou a constar na lista da Forbes, entre outros pastores de denominações semelhantes.

São empresas milionárias que partem para a influência dos poderes locais, domésticos. Não só nas comunidades de poder paralelo, como no caso das favelas dominadas pelo tráfico de entorpecentes, mas na política, prefeitos e governadores em igrejas evangélicas de muitas regiões vendem diretamente os votos de seus fieis a chefes políticos locais.

Edir Macedo em “culto” na Réplica em tamanho real do Templo de Salomão, no bairro do Braz, São Paulo / Reprodução

Veja por exemplo o caso da IURD na Angola, onde pastores nacionais fizeram uma ruptura com Edir Macedo e o restante da liderança brasileira da igreja, acusando-a de desviar recursos para o exterior, discriminar funcionários locais e de promover a esterilização de sacerdotes africanos. Isso também aconteceu em São Tomé e Príncipe,outro país africano, onde também era acusada de privilegiar pastores brasileiros e forçar pastores locais a realizar vasectomias.

Afinal, que fenômeno é esse?

Andrew Chesnut, historiador estadunidense professor na Commonwealth University, na Virginia, EUA, é autor de vários livros sobre o crescimento das igrejas pentecostais e diversas publicações sobre o papel da religião na América Latina estuda o movimento pentecostal há 25 anos. Ele aponta que:

“Até no México, onde a população pentecostal é pequena, de apenas 8%, um partido político fundado por um pastor pentecostal ajudou a eleger o atual presidente do país, Andrés Manuel Lopez Obrador… A influência política evangélica é uma das tendências políticas mais importantes das últimas quatro décadas no continente americano”

Mas o que explica essa influência crescente da religiosidade neopentecostal na política de países do continente? E por que igrejas evangélicas têm conseguido cada vez mais adeptos entre os latino-americanos?

Chesnut enumerou alguns fatores como o engajamento político de líderes e integrantes dessa religião, a coesão ideológica, regras menos rígidas para a formação de sacerdotes, a criação de redes de apoio em comunidades carentes e a capacidade de unir pensamentos compartilhados por setores conservadores da classe média e alta. Mas existe outros que vamos analisar.

O Pew Research Center, principal centro de pesquisa sobre religiões, de 1900 a 1960, os católicos eram 94% da população da América Latina. Em 2014, o instituto mostrou que 84% dos entrevistados cresceram como católicos, mas apenas 69% continuavam a se identificar como tal. Mas apesar de apenas 9% dos latino-americanos serem criados como evangélicos, 19% dizem seguir essa religião atualmente. No Brasil, o percentual de evangélicos é ainda maior: de acordo com pesquisa Datafolha, eles já são 29% dos brasileiros, enquanto os católicos deixaram de ser maioria para representar 50% da população.

Os católicos são um grupo mais “heterogêneo”, com segmentos ligados à esquerda ou mais progressistas (ex: teologia da libertação) e outros à direita ou mais conservadores (ex: Opus Dei). Essa pluralidade, na prática, dificultaria uma mobilização política coordenada.

Os evangélicos, estando mais homogêneos politicamente, facilita a união e as alianças para eleger determinados políticos ou apoiar determinadas causas como seu alinhamento às políticas de Israel  e dos sionistas.

Como disse acima, esse efeito não é próprio da América Latina. Uma reportagem do jornal Washington Post mostrou que 61% dos pastores evangélicos dos Estados Unidos tinham intenção de votar em Trump na eleição de 2016. E este mantém relações intimas com as lideranças evangélicas mais fortes do país. A decisão de transferir a embaixada dos Estados Unidos em Israel de Tel Aviv para Jerusalém fortaleceu ainda mais esses laços, uma vez que essas entidades estão intimamente conectadas ao lobby judaico-sionista. Nos EUA, exemplos são a AIPAC e o Congresso Mundial Judaico.

Bolsonaro chegou a anunciar que faria o mesmo, para atender ao pleito de grupos evangélicos no Brasil mas somente abriu um escritório comercial na cidade, após forte pressão de países árabes e do setor exportador de commodities, que temia retaliações comerciais.

O apoio incondicional a Israel é uma das agendas mais importantes da atualidade para os evangélicos. Mais do que a própria soberania dos seus países devido ao seus lobbys financeiros intimamente conectados.

Uma grande vantagem que as igrejas pentecostais têm é que os pastores podem se casar e não há os mesmos requisitos educacionais enquanto um sacerdote católico necessita um nível educacional apurado. Isso também culmina na informalidade dos cultos em suas alegorias como canções, louvores e demais ritos consumidos por esse verdadeiro “mercado” evangélico.

Isso jamais pode ser confundido com uma aproximação da identidade nacional de um povo, pois é pregado ali um velho testamento judaico que “em tese” não é nosso, pois é uma velha aliança, não a nova, segundo o próprio credo de Cristo na Bíblia que tanto seguem (mais poucos leem). Ao contrário, tudo que é espiritual e não é de origem “semítico-cristã” parece ser impuro, impróprio, como a religiosidade indígena, demonizada como “infanticídio” ou os estudos indo-europeus, que também fazem parte de nossa formação ou mesmo a arquitetura colonial, a história viva e de pé.

Isso também leva a ser mais fácil a desinformação, a alienação completa e fervorosa dos seguidores a figura dos líderes espirituais dessas denominações, que muitas vezes tendem a pregar a teologia da prosperidade, numa síntese de alcances materiais como forma de “graça”, muito comum em países do terceiro mundo, onde a grande maioria da população é deixada no sub-emprego à baixos salários, não tendo esses líderes interesse ou mesmo conhecimento sobre os fatores de nossa falta de soberania estarem diretamente ligados a cartéis financeiros inescrupulosos que mantém a pobreza vasta e controlada, fazendo o verdadeiro papel de um “anti-cristo” na Terra, atribuindo a salvação à baluartes desses cartéis como os EUA e Israel em suas políticas externas.

Essa facilidade de não exigir uma extensa formação acadêmica nem o celibato permitiu uma entrada maior das igrejas pentecostais nas camadas mais pobres.

Outro fator é que ps conservadores (liberais ou não) de qualquer classe social, seja aqui ou nos Estados Unidos e da América Latina passaram a ver suas posições representadas contra as pautas progressistas mais radicais como o ensino sexual nas escolas,  “ideologia de gênero”, leis à favor do aborto, agenda LGBT. Assim fica fácil atrair o público conservador e tradicional de qualquer classe. Entretanto, não é mostrado que são governo liberais, de economia liberal, com cultura liberal que são os representantes dos países criadouros dessas pautas desagregadoras. Mas para garantir a teologia da prosperidade, mascaram isso com um discurso de “combate ao comunismo”, todas as vezes que se faz necessário destituir alguma gestão que não anda de “mãos-dadas” com a geopolítica do establishment financeiros anglo-sionista. Foi o caso do Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina mais recentemente. Sem nenhuma “máscara romântica” de defesa de “valores” ou bandeiras anti-comunistas. Os mesmos liberais que fizeram emergir a guerra no século passado, necessitam alimentar seus leviatãs, por isso “trocam a roupagem” dos governos de países mais frágeis a hora que bem entenderem.

Andre Marques
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