Os Celulares Espiam e Transmitem Nossas Conversas, Mesmo Desligados

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Richard Stallman, novaiorquino de 66 anos, falante de seis ou sete idiomas, formado em Física em Harvard e doutorado no MIT (Massachusetts Institute of Technology) é uma das maiores referências no mundo da informática de softwares. Ele criou o primeiro sistema operacional aberto que impulsionou o “copyleft“. Ele é por assim dizer, o pai do projeto GNU, o primeiro sistema operacional livre, que surgiu em 1983, que desde os anos noventa funciona com outro componente, o Kernel Linux, sendo rebatizado como GNU-Linux, ao qual muitos confundem chamando somente de “Linux” [1], que por sua vez, é invenção do finlandês Linus Torvalds, fundador do Linus, que surgiu depois.

Assim, Stallman como programador é considerado como tendo inciado o revolucionário movimento do software livre. Por sua vez, o copyleft (software livre) é oque se contrapõe ao conceito de copyright. Ele sente que o software livre é sua contribuição para a humanidade na luta pela integridade humana.

Em uma entrevista concedida para Manuel G. Pascual do El País em fevereiro de 2019, na ocasião de participar do Fórum da Cultura de Burgos e dar uma conferência em Valencia. Stallman falou sobre a gravidade do ataque à privacidade, vazamento de dados e vigilância constante dos softwares na atualidade sob a liberdade das pessoas de todo o mundo. Três décadas depois do GNU, ele fundou a Free Software Foundation, com dezenas de milhares de programas livres em seus catálogo.

© CC BY-SA 3.0, cortesia dos Diálogos Europeus – Richard Stallman (2016)

Segundo ele, os softwares privados não são livres, e se choca com os direitos das pessoas causando a falta absoluta de privacidade na era digital. Stallman não possui celular, e só aceita que lhe tirem fotos se prometerem não postarem no Facebook. E além disso, paga tudo sempre em dinheiro.

“Não gosto que rastreiem meus movimentos. A China é o exemplo mais visível de controle tecnológico, mas não o único. No Reino Unido, há mais de dez anos acompanham os movimentos dos carros com câmeras que reconhecem as placas. Isso é horrível, tirânico!”

“Ou os usuários têm o controle do programa, ou o programa tem o controle dos usuários. O programa se transforma em um instrumento de dominação”.

Quando a informática ainda estava em seu início, nos anos oitenta, ele se deu conta dessa contradição dos rumos que levavam a tecnologia.

“Em 1983 decidi que queria poder usar computadores em liberdade, mas era impossível porque todos os sistemas operacionais da época eram privados. Como mudar isso? Só me restou uma solução: escrever um sistema operacional alternativo e torná-lo livre”

Falando sobre o trabalho desenvolvido na Free Software Foundation, o programador revela que no início, o motivo de incluir essa função, foi inocente, pois era necessário para dirigir ligações e chamadas aos dispositivos. Mas tem o efeito negativo de também permitir o acompanhamento dos movimentos do portador:

“Conseguimos liberar computadores pessoais, servidores, supercomputadores […], mas não podemos liberar completamente a informática dos celulares: a maioria dos modelos não permite a instalação de um sistema livre. E isso é muito triste, é uma clara mudança para pior nos últimos dez anos. Os celulares são o sonho de Stalin, porque emitem a cada dois ou três minutos um sinal de localização para seguir os movimentos do telefone. E, ainda pior, um dos processadores dos telefones tem uma porta traseira universal. Ou seja, podem enviar mudanças de software à distância, mesmo que no outro processador você use somente programas de software livre. Um dos usos principais é transformá-los em dispositivos de escuta, que não desligam nunca porque os celulares não têm interruptor”

Os celulares são assim somente uma parte desse esquema de monitoramento global. Stallman diz que é preocupante o fato de os aparelhos conectados enviarem às empresas privadas cada vez mais dados sobre nós.

“Criam históricos de navegação, de comunicação… Existe até um aplicativo sexual que se comunica com outros usuários através da Internet. Isso serve para espiar e criar históricos, claro. Porque além disso tem um termômetro. O que um termômetro dá a quem tem o aplicativo? Para ele, nada; para o fabricante, saber quando está em contato com um corpo humano. Essas coisas são intoleráveis”

Ao que tudo indica, os grandes produtores de aparelhos eletrônicos não só apostam maciçamente no software privativo: alguns estão começando a evitar frontalmente o software livre. Stallman cita por exemplo, o caso da Apple:

“A Apple acabou de começar a fabricar computadores que barram a instalação do sistema GNU-Linux. Não sabemos por que, mas estão fazendo. Hoje em dia, a Apple é mais injusta do que a Microsoft. As duas são, mas a Apple leva o troféu”

Segundo ele, o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) europeu é um passo no caminho certo, mas não é suficiente.

“[…] Parece muito fácil justificar o acúmulo de dados. Os limites deveriam ser bem rígidos. Se é possível transportar passageiros sem identificá-los, como fazem os táxis, então deveria ser ilegal identificá-los, como faz o Uber. Outra falha do RGPD é que não se aplica aos sistemas de segurança. O que precisamos é nos proteger das práticas tirânicas do Estado, que coloca muitos sistemas de monitoramento das pessoas”.

Indo mais além, Stallman diz não ter se surpreendido com o escândalo do Facebook e a Cambridge Analytica. Ele afirma sobre a Facebook Inc., a maior empresa de mídia social e rede social virtual do mundo, atingindo em 1 bilhão de usuários ativos que…

“Sempre disse que o Facebook e seus dois tentáculos, o Instagram e o WhatsApp, são um monstro de seguir as pessoas. O Facebook não tem usuário, tem usados. É preciso fugir deles”.

“Não podemos aceitar que outros tenham informações sensíveis sobre como vivemos nossa vida. Existem dados que devem ser compartilhados: por exemplo, onde você mora e quem paga a luz de um apartamento para resolver os pagamentos. Mas ninguém precisa saber o que você faz no seu dia a dia. Muito menos os produtos que você compra, desde que sejam legais. Os dados realmente perigosos são quem vai aonde, quem se comunica com quem e o que cada um faz durante o dia. Se os fornecermos, eles terão tudo”.

Fonte: El País

Publicado originalmente em 25 de fevereiro de 2019.

Nota:

[1] Nota da edição: O Linux é um sistema operacional cujo código fluente pode ser utilizado, modificado e redistribuído livremente por qualquer pessoa e cujo desenvolvimento teve a contribuição de milhares de programadores de todo o mundo.

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Andre Marques

Fundador e editor-geral em O Sentinela
Brasileiro, estudante de Direito e atuante na área de marketing é fundador e editor do site O Sentinela desde abril de 2013.
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