O Martírio de Julius Streicher

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“Aquele que conhece a verdade e não a fala, é um covarde miserável” – Julius Streicher 

Dentre os homens que foram linchados na farsa pseudo-jurídica de Nuremberg, o caso de um em particular se destaca: Julius Streicher (1885 – 1946). Ele foi levado ao cadafalso sem ter tido participação alguma nos eventos da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) ou atividade militar de qualquer espécie. Qual, então, foi seu crime? Simples. Publicar um jornal.

Uma luta incansável

Nascido em 12 de fevereiro de 1885 em Fleinhausen (Augsburgo), uma cidade na Baviera, o nono filho de um professor de escola, onde foi criado em um ambiente familiar devotamente católico junto de seus oito irmãos. Aos treze anos iniciou os estudos para se tornar professor, começando a carreira no início de 1904. Após oito anos da escola fundamental (Volksschule) recebeu formação para professor, profissão na qual trabalhou de 1904 até 1923. Aos 24 anos, em 1909, ele entra para o Partido Democrático e por seu desempenho e nacionalismo, rapidamente se torna um orador muito popular.

Em 1913, Streicher se casa pela primeira vez, com Kunigunde Roth, com quem teve dois filhos. No ano seguinte, eclode a Primeira Grande Guerra (1914 – 1918) e ele se alista no regimento de infantaria. Por bravura e coragem em perigosas missões na frente de batalha, foi o primeiro de seu regimento a ser condecorado com a Cruz de Ferro. Selecionado para se tornar membro de um destacamento de elite, foi posteriormente aceito como candidato a oficial. Isto fugia ao habitual, pois apenas aos homens de ascendência aristocrática era permitido o oficialato. Então, como primeiro tenente, esteve em ação na Itália e Romênia. Quando do armistício em 1918, Streicher estava na frente da França e ganhava a Cruz de Ferro de Primeira Classe.

Marcha do NSDAP na década de 1930. Streicher na linha de frente junto ao porta-bandeiras. I Imagem: Bundsarchive.

O início de sua luta jornalística se deu em 1921, com o jornal Deutscher Volkswille [Vontade do povo alemão]. Este se tornou a voz oficial da organização Deutsche Werkgemeinschaft (Comunidade de Trabalho Alemã), da qual Streicher era um dos líderes. Ainda neste ano, ele vai a um evento em Munique onde Hitler discursaria. Segundo suas próprias palavras:

“Eu nunca tinha visto o homem antes. E lá eu sentei, um desconhecido em meio a outros desconhecidos. Eu vi este homem pouco antes da meia-noite, após ele ter falado por três horas, imerso em inspiração, radiante. Meu vizinho disse que ele pensou ter visto uma auréola em torno da cabeça dele e eu experienciei alguma coisa que transcendeu o trivial.” [1]

Pouco tempo depois desse evento, Streicher e seus correligionários se juntariam ao NSDAP, partido no qual, posteriormente, se tornaria orador nacional e um dos mais requisitados. Em novembro de 1923 marcharia ao lado de Hitler e do marechal Ludendorff no Putsch em Munique, pelo que passou um mês encarcerado na prisão. Em 20 de abril de 1923, lançara o famoso e controverso jornal Der Stürmer [O Atacante]. Sua batalha contra o “sistema” lhe renderia 5 processos judiciais e um total de 8 meses de prisão. Entre 1923 e 1933, diversas edições do jornal foram banidas e cerca de 30 delas retiradas de circulação.

Sofrimento e tortura

Diante do avanço das tropas estadunidenses, Streicher foge com sua secretária de longo tempo, Adele, com quem casou a poucas semanas antes do fim da guerra (sua primeira esposa havia falecido em 1943). Em 23 de maio de 1945, ele é reconhecido e capturado pelo hebreu, major do exército estadunidense, Henry Plitt. Quando Plitt retornou aos EUA, foi saudado como herói. Em Nova Iorque foi declarado um dia oficial em comemoração, celebrando o homem que havia pego o “perseguidor mundial n°1 dos judeus”.

Streicher, com barba ao centro, quando captura por forças Aliadas dos soviéticos, a US Force norte-americana. I Imagem: Ellin Kleynmann.

Estava marcado o início de seu martírio, cujo clímax se daria em 1946. Quando no tribunal, após longo tempo preso, Streicher informou como havia sido torturado:

“Senhores, eu fui preso e durante meu internamento eu experimentei coisas tais como nós, a Gestapo, temos sido acusados de fazer. Por quatro dias eu estava sem roupas em uma cela. Eu fui queimado. Eu fui jogado no chão. E uma corrente de ferro foi posta sobre mim. Eu tive que beijar os pés de negros que cuspiram em minha face. Dois homens de cor e um oficial branco cuspiram em minha boca, e quando eu não a abri mais, eles abriram-na com um pedaço de madeira e quando eu pedia por água eu era levado à latrina e forçado a beber de lá.” [2]

Apesar de todas as descrições sobre os abusos cometidos, nenhuma investigação foi realizada. Seu advogado, que muitas vezes se negava a apresentar provas a seu favor por temer represálias [3], levantou protesto pelos maus tratos na corte, porém isto foi tido como “altamente impróprio” e ninguém se importou. Houve até mesmo ordens dos juízes para que estas declarações de Streicher fossem apagadas dos registros oficiais.

Ao fim da tortura e do fantasioso julgamento, Streicher foi considerado culpado por “crimes contra a humanidade” e por “incitar ódio racial”. Seja lá o que estas duas acusações signifiquem não fazia muita diferença. A verdade é que, antes mesmo de qualquer processo se iniciar, o destino dele já estava selado na mente de seus algozes.

Coragem até o fim

Dia 16 de outubro de 1946. Streicher se recusa a vestir o traje para a execução, tendo os guardas que vesti-lo forçadamente. Rudolf Hess, em um andar superior, ouve o que se passa e exclama “Bravo, Streicher!”. [4]

Depois de Wilhelm Frick agonizar por 12 minutos até a morte, seguiu a vez de Streicher. Ele entrou na sala em postura desafiadoramente corajosa. O silêncio foi quebrado quando ele bradou fortemente a saudação hitlerista. O jornalista Howard K. Smith afirmou que “o grito de Heil Hitler produziu um calafrio a este correspondente”. [5] Um coronel pediu para que o guarda perguntasse a Streicher seu nome e este replicando disse: “Você sabe bem meu nome!”. Por uma segunda vez lhe indagaram e gritando afirmou: “Julius Streicher!”. Ao chegar à plataforma, encarou fixamente o carrasco e profeticamente disse: “Os bolcheviques enforcarão vocês algum dia”. [6] Ele fora o único a quem não foi dada a oportunidade de uma declaração final, mesmo assim, exclamou aos presentes: “Festival de Purim, 1946!”. [7] [8] Enquanto o carrasco Woods cobria seu rosto, ele pronunciava: “Agora eu estou nas mãos de Deus meu pai! Adele, minha querida esposa”. Após longos 14 minutos, o corpo de Streicher pendia inerte na forca.

Streicher executado pelo Tribunal de Nuremberg. I Getty Images

Seja por acaso ou maldição, a profecia de Streicher, de certa forma, se cumpriria anos mais tarde para os principais carrascos de Nuremberg – Woods e Rosenthal. Woods foi morto pelos comunistas na guerra da Coréia em 1951. Rosenthal, em 1979, já um obeso septuagenário, foi jogado pela janela de um hotel, não se sabe por quem, nem por quais motivos. [9]

Durante as mesmas décadas em que Streicher publicava seus jornais, haviam sujeitos que também expressavam suas ideias, porém pregando morte, destruição e extermínio de povos inteiros, coisa que ele nunca fez. Para citar apenas um exemplo, Theodore N. Kaufman e seu famigerado livro “Alemanha deve perecer” (Germany must perish), clamava pela esterilização de todos os homens alemães e o desmembramento do território germânico; curiosamente quando este tipo de material era editado e propagado aos quatro ventos, não havia, como também hoje não há, nenhuma vociferação indignada da mídia internacional. O Sr. Kaufman e todos os seus correligionários, em seu ódio virulento, estavam amparados pelo direito de liberdade de expressão, garantido pela constituição dos EUA. O fato é que, caso Streicher tivesse sido julgado sob leis norte-americanas, ele também estaria abrigado por essa mesma proteção.

O caso de Julius Streicher emerge como uma questão, simples, porém intrigante: pode um homem ser condenado à morte, apenas por suas convicções, por pensar e escrever? Podemos, sem medo algum de errar, dizer que sim! Como Telford Taylor, membro da promotoria norte-americana em Nuremberg destacou, “não havia nenhuma acusação de que Streicher havia participado em qualquer ato de violência contra judeus”. Conclui-se que sua única “agressão” foi publicar um polêmico jornal. Em se tratando de um dissidente do establishment, pensar sempre foi, é e será um “crime contra a humanidade”. No diabólico teatrinho de Nuremberg ou nos dias atuais, a resposta era e continua sendo sim. [10]

Original de Viktor Weiß

Publicado originalmente em 24/7/2019.

Fonte: Inacreditável

Notas:

[1] Wikipedia: Julius Streicher

[2]”Not Guilty at Nuremberg – The German Defense Case” [Não há Culpados em Nuremberg – O Caso de defesa Alemão]. Carlos W. Porter.

[3]”Derrota Mundial”, Pg. 493, Salvador Borrego.

[4]Segundo Albert Speer em seu livro “Spandau Diary” [Diário de Sapandau].

[5]”Derrota Mundial”, Pg. 496, Salvador Borrego.

[6]“La Historia de los Vencidos” [A História dos Vencidos]. Pg. 298, Joaquin Bochaca.

[7]Op. Cit. Pg. 299.

[8]”Purim”, no judaísmo, é a festa onde é comemorado o assassinato do ministro Ammán, seus dez filhos e 75 mil persas. O fato é descrito no Livro de Ester, presente no Velho Testamento.

[9]“Los Crimenes de los Buenos” [Os Crimes dos Bons]. Pg. 223. Joaquin Bochaca.

[10] Nota do Tradutor: Quem conhece os originais do “Der Stürmer” está ciente das inúmeras caricaturas do povo judeu publicadas por Streicher. Muitas destas caricaturas são de extremo mal gosto. Apelos generalizados que difamavam o povo judeu também eram recorrentes. Mas daí a condenar alguém à morte, somente com muito ódio na alma.

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Andre Marques

Brasileiro, estudante de Direito e atuante na área de marketing é fundador e editor do site O Sentinela (abril de 2013).
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