Gaetano Mosca e a força da “minoria organizada”

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“De fato, é fatal o predomínio de uma minoria organizada, que obedece a um único impulso, sobre uma maioria desorganizada. A força de qualquer minoria é irresistível perante cada indivíduo da maioria, que se encontra só perante a totalidade da minoria organizada; e, ao mesmo tempo, pode dizer-se que esta está organizada precisamente porque é minoria.

Cem, que agem sempre concertadamente e entendidos uns com os outros, triunfarão sobre mil, tomados um a um, e sem acordo entre si; e, ao mesmo tempo, será muito mais fácil aos primeiros agir concertadamente e entenderem-se, porque são cem e não mil.

Deste fato se extrai facilmente a consequência que, quanto maior é uma comunidade política, tanto menor pode ser a proporção da minoria governante em relação à maioria governada e tanto mais difícil consegue esta organizar-se para reagir contra aquela.

No entanto, para além da grandíssima vantagem que vem da organização, as  minorias  governantes  são  ordinariamente  constituídas  de  maneira  que  os indivíduos que as compõem se distinguem da massa dos governados por certas qualidades,  que  lhes  dão  uma  superioridade  material  e  intelectual  ou  também moral, ou são herdeiros dos que tinham estas qualidades: por outras palavras, esses  devem  ter  algum  requisito,  verdadeiro  ou  aparente,  que  é  fortemente apreciado e que muito se fez valer na sociedade em que vivem. ” – Gaetano Mosca,  “Elementi di scienza politica

A teoria das elites

Gaetano Mosca

A teoria das elites surgiu no final do século XIX tendo como fundador o filósofo e pensador político italiano, Gaetano Mosca (1858-1941). Em seu livro “Elementi di Scienza Política” (1896), Mosca estabeleceu os pressupostos do elitismo ao salientar que em toda sociedade, seja ela arcaica, antiga ou moderna, existe sempre uma minoria que é detentora do poder em detrimento de uma maioria que dele está privado. Os poderes econômicos, ideológicos e políticos são igualmente importantes, mas em seus escritos Mosca deu ênfase à força política das elites. O restrito grupo de pessoas que a detém também pode ser denominado de classe dirigente. De acordo com esta teoria as sociedades estão divididas entre dois grupos: os governantes e os governados. Os governantes são menos numerosos, monopolizam o poder e impõem sua vontade valendo-se de métodos legítimos ou arbitrários e violentos ao restante da sociedade.

O conceito de divisão do poder entre governantes e governados, porém, não é algo novo e consta nos escritos de muitos filósofos e pensadores antigos e modernos (Maquiavel, Montesquieu, Karl Marx, entre outros)

Entretanto, a originalidade da teoria das elites formulada por Mosca, advém da preocupação em explicar que a classe dirigente (ou seja, os governantes) constitui uma minoria detentora do poder pelo fato de serem mais organizados.

Desse modo, seja por afinidade de interesses ou por outros motivos, os membros da classe dirigente constituem um grupo homogêneo e solidário entre si, em contraposição aos membros mais numerosos da sociedade, que se encontram divididos, desarticulados e consequentemente, desorganizados.

Importante enfatizar também que, segundo o estudo realizado por Mosca, a dominação política exercida por um grupo minoritário dentro da sociedade pode ser presenciada em qualquer sistema de governo: ditadura ou democracia.

Desigualdades sociais

Depois que Gaetano Mosca formulou a teoria das elites, outros pensadores sociais empregaram o termo “elite” de maneira diversa, dando origem a novos conceitos e teorias. No campo das ciências sociais, por exemplo, o estudo das elites políticas beneficiou o desenvolvimento da ciência política.

Pareto também chama a atenção para o fato de que, em qualquer sociedade, os homens são desiguais. As desigualdades entre os indivíduos contribuem diretamente para o surgimento das elites.

Oligarquias partidárias

Os estudos de Mosca e Pareto serviram de base para formulação de novas teorias das elites. Dentro deste campo de pesquisa, cabe destacar o estudo do sociólogo alemão Robert Michels (1876-1936), “Partidos Políticos: um Estudo Sociológico das Tendências Oligárquicas da Democracia Contemporânea” (1912). Neste estudo, Michels analisou a dinâmica inerente à política democrática a partir da observação dos partidos políticos de massa.

Com base em evidências empíricas demonstrou que mesmo dentro das organizações partidárias que funcionam num sistema político democrático, há fortes tendências à elitização, ou seja, concentração de poder num grupo restrito de pessoas. Michels chamou essa tendência à elitização de “lei de ferro das oligarquias”.

A maior contribuição da teoria das elites formulada por Michels se refere ao fato, inusitado e paradoxal, de que a elitização ocorre até mesmo no interior das organizações comprometidas com os princípios de igualdade e democracia, ou seja, os partidos políticos de massa.

O conceito de elitização e “lei de ferro das oligarquias” também pode ser aplicado aos sindicatos, corporações e grandes organizações sociais. Uma organização, partido político ou movimento social podem surgir em decorrência de verdadeiros objetivos igualitários e democráticos, porém, com o passar do tempo, a tendência à elitização ou oligarquização se manifesta.

“Convém que o povo não perceba o sistema bancário e monetário, pois se percebesse acredito que haveria uma revolução antes de amanhã de manhã.” – Henry Ford, 1922.

Texto e referências

Gaetano Mosca. Elementi Di Scienza Politica. 1ª edição, Nabu Press, 2013.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro “Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política – 1972-1985”. Disponível em https://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/teoria-das-elites-o-poder-politico-monopolizado-pelos-governantes.htm

Andre Marques
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