EUA reconhece oficialmente o “genocídio armênio”: Prós e contras

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Uma resolução no Congresso dos Estados Unidos reconheceu formalmente nesta quinta-feira (12) como genocídio a morte de até 1,5 milhão de armênios nas mãos do Império Turco-Otomano, entre 1915 e 1917.

O texto, aprovado em outubro pela Câmara, passou no Senado. A resolução declara que é uma determinação dos Estados Unidos “relembrar o Genocídio Armênio por meio do reconhecimento e da memória oficiais, rejeitados os esforços para envolver, comprometer, ou associar o governo dos Estados Unidos com a negação do Genocídio Armênio, ou qualquer outro genocídio”.

Contexto político

O texto teve lobby democrata. Passando pela Câmara, ficou preso no Senado por aliados do presidente Donald Trump. O Presidente, que é do Partido Republicano, vinha buscando uma aproximação com a Turquia, de Recep Tayyip Erdogan — que rejeita classificar como genocídio esses episódios.

Em abril de 2018, manifestantes armênio-estadunidenses fizeram passeata na Califórnia para pedir o reconhecimento do genocídio armênio — Foto: Frederic J. Brown/AFP

O próprio Erdogan advertiu em novembro, na ocasião de um encontro com Trump, que “alguns fatos históricos e acusações são usados para implodir” a relação bilateral.

Essa medida, deve-se deixar bem claro, tem caráter puramente simbólico, não mudando a posição oficial dos Estados Unidos em relação ao caso. Mas, pode ser vista como uma resposta ao governo turco pelo ataque a tropas curdas no nordeste da Síria.

Nikol Pashinyan, primeiro-ministro da Armênia, saudou o anúncio como uma “vitória da justiça e da verdade”.

A Turquia nega os assassinatos em massa e rejeita o termo “genocídio”, insistindo em que os armênios morreram no contexto da Primeira Guerra Mundial. Assim que a aprovada na Câmara foi feita, no final de outubro, a Turquia convocou o embaixador dos EUA em Ancara para sua indignação.

O Ministério das Relações Exteriores turco condenou a medida aprovada pela Câmara, e disse que a decisão não cumpre com os acordos da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) – EUA e Turquia fazem parte da aliança militar.

Brasil

Atualmente, 20 países reconhecem o chamado “genocídio armênio”, incluindo França, Rússia e Chile, incluindo o Parlamento Europeu (UE). O Brasil é um dos países que não reconhece oficialmente o termo chamado “genocídio armênio”. Mas, uma resolução do Senado Federal de 2015, semelhante à aprovada pela Câmara dos EUA reconheceu o termo. A polêmica à época fez o governo turco convocar o embaixador do país no Brasil.

Discussão histórica

O genocídio armênio, também chamado de “holocausto armênio” ou “massacre armênio” é um termo que se refere à evacuação forçada em massa e à morte de centenas de milhares de armênio durante o Império Otomano de 1915 a 1917. Vários fatos sobre isso são objeto de uma árdua discussão em andamento entre as partes envolvidas (Turquia, Armênia e o Ocidente). Embora seja geralmente aceito que os eventos que se referem ao genocídio armênio realmente ocorreram, o governo turco rejeita que isso tenha sido um genocídio e refuta o uso dessa palavra, alegando que as mortes entre armênios não eram resultado de um plano de extermínio em massa patrocinado pelo estado otomano, mas por lutas interétnicas, doenças e fome durante o período confuso da Primeira Guerra Mundial.

Pessoas depositam flores em memorial às vítimas dos massacres dos armênios em Yerevan — Foto: AFP/ Karen Minasyan

Apesar dessa tese, a maioria dos historiadores e pesquisadores armênios, ocidentais e um número crescente de turcos acreditam que os massacres eram um caso claro do que hoje é chamado de genocídio. Por exemplo, a maioria das fontes ocidentais aponta para o alto número de vítimas e uma lista crescente de países reconheceu e aceitou oficialmente a autenticidade do genocídio armênio.

Contexto Histórico

Após séculos de dominação persa e bizantina, o território da Armênia histórica se dividiu em meados do século XVI entre os impérios russo e otomano. Entre 1,7 e 2,3 milhões de armênios viviam no Império Otomano em 1915, segundo as estimativas de historiadores ocidentais.

Em outubro de 1914, o Império Otomano entrou na Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), ao lado do Império Alemão e o Austro-Húngaro. Quando os otomanos começaram a sofrer grandes perdas nos combates e cada vez mais revezes, afetando as províncias armênias, as autoridades responsabilizaram os armênios teriam começado a lançar campanhas propagandísticas os classificando como inimigos internos por colaboracionismo com o inimigo.

Clérigos participam da cerimônia de canonização das vítimas do genocídio armênio na Armênia /Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP

Entre os armênios dentro do Império Otomano, numerosos militantes de organizações armênias  nacionalista (como a Dashnak e Hunçak) colaboraram com tropas russas com a intenção de atacar a Frente Oriental Otomana e a Anatólia do Sudeste. As organizações nacionalistas dos combatentes armênios buscaram a formação de um estado independente no extremo leste da Anatólia, com apoio do Império Russo. Então, as autoridades otomanas acusavam os súditos armênios de deslealdade com o Império (coisa sempre habitual dos otomanos desde a formação do seu Império)  por conta do movimento nacionalista que exigia a autonomia dos armênios.

Antes do impulso crescente dos rebeldes, uma revolta armênia eclodiu em abril de 1915 na área do lago Van, especificamente na cidade homônima, onde os militantes revoltosos teriam massacrado grande número de muçulmanos de sua população fundando uma república armênia independente de curto tempo de duração.

Em 23/24 de abril de 1915, milhares de armênios suspeitos de serem militantes nacionalistas foram detidos. Cerca de 650 líderes armênios em Constantinopla foram presos e deportados e posteriormente executados. A data é, desde então, para os armênios de todo o mundo, o dia lembrança do genocídio armênio.

As autoridades otomanas decidiram deportar uma grande massa da população armênia para o sudeste da Anatólia, então sobre domínio turco porque verificavam que enfrentavam uma revolta popular dos nacionalista dentro dos limites nacionais (como já faziam gregos, sérvios ou búlgaros naquele momento).

Foto de 1915 mostra armênios marchando longas distâncias para local em que seriam massacrados, segundo afirmam (Foto: AP Photo)

Em 26 de maio de 1915, uma lei especial autorizou a deportação dos armênios por razões de segurança interna, seguida no dia 13 de setembro de uma lei que ordenou o confisco de seus bens.

A população armênia de Anatólia e Cilicia foi condenada ao exílio nos desertos da Mesopotâmia. Muitos armênios morreram no caminho ou em campos enquanto inúmeros teriam sido queimados vivos, afogados, envenenados ou vítimas do tifo, segundo informações de diplomatas estrangeiros e agentes secretos da época.

Interessante que o embaixador estadunidense no Império Otomano na época era Henry Morgenteau Sr. (1856 – 1946), de família judaica asquenaze (judeu proveniente do Leste europeu). Advogado, empresário e diplomata, ele foi pai de Henry Morgenteau Jr., o secretário do Tesouro dos EUA na Segunda Guerra Mundial que elaborou e fez campanha para um plano que levou seu nome, o “Plano Morgenteau“, que consistia em desmantelar total e completamente a Alemanha como país e reduzir drasticamente sua população em números e à condições medievais de forma permanente. Ele teria descrito um documento diplomático ao Departamento de Estado uma “campanha de extermínio racial sob o pretexto de reprimir a rebelião”.

Em 30 de outubro de 1918, o Império otomano se rendeu às forças da Tríplice Entente (Grã-Bretanha, Rússia e França). Um acordo sobre o armistício permitiu então que os armênios deportados voltassem à sua terra.

Em fevereiro de 1919, um tribunal militar em Constantinopla, feito pelos vencedores, declarou vários funcionários otomanos de alto escalão culpados de crimes de guerra, incluindo contra os armênios, e os condenou à morte. No ano seguinte, o Império seria desmantelado.

Em 1918, logo após o fim da guerra, foi criado um Estado independente armênio enfim, mas logo absorvido pela União Soviética, liderada pelos comunistas russos, que após derrubarem e matarem o Czar Nicolau, selou a paz com o Aliados EUA, Grã-Bretanha e França e ao contrário do monarca, não era amigo dos armênios.

Em seguida, o Estado turco moderno foi fundado 1923 por Mustafa Kemal Atatürk.

Contradições e debates

Os armênios calculam que 1,5 milhão dos seus foram assassinados de forma sistemática no período do Império Otomano. A Turquia, herdeira dos otomanos, fala oficialmente que a guerra civil adicionada de uma fome matou 300 à 500 mil armênios, ou seja, não de forma sistemática.

Em 2000, 126 especialistas, entre eles os mais conhecidos judeus da área, o Nobel da Paz Elie Wiesel, o historiador Yehuda Bauer e o sociólogo Irving Horowitz, afirmaram no The New York Times que “o genocídio armênio na Primeira Guerra Mundial é um fato histórico inquestionável”.

Em 2008, o candidato Barack Obama, de origem afro-árabe prometeu reconhecer o genocídio armênio, mas nunca o fez.

Em abril de 2014, o atual presidente, Recep Erdogan, quando era o primeiro-ministro, deu um passo inédito ao apresentar suas condolências pelas vítimas armênias de 1915 sem, no entanto, deixar de refutar qualquer vontade de extermínio.

Andre Marques
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