Dois Milhões de Alemãs: O Maior Estupro em Massa da História foi um Crime Aliado-Soviético

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O sol se põe sobre o Treptower Park, nos arredores de Berlim, e eu observo uma estátua que faz um desenho dramático contra o horizonte. Com 12 metros de altura, ela mostra um soldado soviético segurando uma espada numa mão e uma menina alemã na outra, pisando sobre uma suástica quebrada.

A estátua marca um lugar onde estão enterrados 5 mil dos 80 mil soldados do Exército Vermelho mortos na Batalha por Berlim entre 16 de abril e 2 de maio de 1945.

A proporção colossal do monumento reflete o sacrifício destes soldados. No entanto, para alguns, a estátua poderia ser chamada de Túmulo do Estuprador Desconhecido.

Existem registros de que os soldados de Stalin atacaram um número bastante alto de mulheres na Alemanha e, em particular, na capital alemã, mas isto era raramente mencionado no país depois da guerra e o assunto ainda é tabu na Rússia de hoje.

Berlim – Monumento ao Soldado Soviético FOTO: Jefs

A imprensa russa rejeita o tema regularmente e diz tratar-se de um “mito espalhado pelo Ocidente”. Os manuscritos – que nunca foram publicados – mostram como a situação era difícil nos batalhões. [1] Uma das diversas fontes que revelam os vários casos de estupros cometidos durante a Segunda Guerra Mundial é o diário do oficial soviético judeu Vladimir Gelfand, que ao fim da batalha pôs seus relatos no papel.

Em fevereiro de 1945, Gelfand estava perto da represa do rio Oder, preparando-se para a entrada em Berlim. Em seu diário, ele descreve como seus camaradas cercaram e dominaram um batalhão de mulheres militares.

“As alemãs capturadas disseram que estavam vingando seus maridos mortos. Elas devem ser destruídas sem piedade. Nossos soldados sugeriram esfaqueamento das genitais, mas eu apenas as executaria”, escreveu.

Uma das passagens mais reveladoras do diário de Gelfand é a do dia 25 de abril, quando ele narra a chegada a Berlim. Ele estava andando de bicicleta perto do rio Spree, a primeira vez que andou de bicicleta, quando cruzou com um grupo de mulheres alemãs carregando malas e pacotes. Em seu alemão ruim, ele perguntou para onde estavam indo e a razão de terem saído de casa.

“Com horror em seus rostos, elas me disseram o que tinha acontecido na primeira noite da chegada do Exército Vermelho… Eles cutucaram aqui a noite toda’, explicou a bela garota alemã, levantando a saia. ‘Eles eram velhos, alguns estavam cobertos de espinhas e todos eles montaram em mim e me cutucaram – não menos do que 20 homens’. Ela começou a chorar. Eles estupraram minha filha na minha frente e eles ainda podem voltar e estuprá-la de novo’, disse a pobre mãe. Este pensamento deixou todas aterrorizadas. ‘Fique aqui’, a garota, de repente, se atirou em cima de mim, ‘durma comigo! Você pode fazer o que quiser comigo, mas só você!”

O diário do judeu soviético Vladimir Gelfand trouxe muitas revelações sobre o estupro em massa das alemãs no pós-guerra, mas nenhum grupo feminista parece se importar com isso. IMAGEM: BBC

Enquanto o Exército Vermelho avançava, cartazes estimulavam os soldados soviéticos a mostrarem sua raiva: “Soldado: Você agora está em solo alemão. A hora da vingança chegou!”. [2]

O estupro em massa de mulheres na Alemanha

A revista alemã Der Spiegel estima que os soviéticos estupraram cerca de 2 milhões de mulheres no território alemão e 100 mil em Berlim. A mesma fonte mostra que elas tinham, em média, cerca de 17 anos e cada uma foi estuprada, pelo menos, 12 vezes. Dessas vítimas, aproximadamente 12% morreram assinadas, por suicídio ou devido a os ferimentos causados pelos seus agressores. E quase metade delas adquiriram síndromes pós-traumático. [3]

A doença soviética

A população feminina era regularmente estuprada. Militares britânicos que se encontravam retidos em campos de concentração alemães, declararam após seu retorno:

“Em torno de nosso campo, onde se localizam os povoados de Schlawe, Lauenburg, Buckow… soldados soviéticos violentavam durante as primeiras semanas da sua presença todas crianças e mulheres entre 12 de 60 anos… Pais e maridos que intentassem protege-las eram assassinados, tal como eram assassinadas as mulheres que apresentassem resistissem à violência do estupro” [4]

O historiador Norman M. Naimark chegou em suas pesquisas ao numero de dois milhões de alemãs vítimas de estupro. Em algumas regiões os casos se avolumaram tanto que houve a criação de cômodos especialmente destinados à prisão, tortura e violação sexual das vítimas, que, em muitos casos eram liberados somente após sofrerem estupros e tortura por dias seguidos. Um dos raros casos de relatos documentados é o livro “Anonyma- Eine Frau in Berlin” (Anonima – Uma mulher de Berlim), o diário de uma mulher berlinense, vítima dos abusos sexuais soviéticos do qual foi produzido o filme homônimo em 2008. [5] [6]

Outro diário escrito durante a guerra, deste vez o da noiva de um soldado alemão ausente, mostra que algumas mulheres se adaptaram a estas circunstâncias horríveis para tentar sobreviver.

O diário, anônimo, começou a ser escrito no dia 20 de abril de 1945, dez dias antes da queda de Adolf Hitler. Como no diário de Gelfand, a honestidade é brutal, o poder de observação é grande e há até demonstrações ocasionais de humor.

Se descrevendo como uma “loira pálida que está sempre com o mesmo casaco de inverno”, a autora do diário descreve a vida dos vizinhos no abrigo contra bombas logo abaixo do prédio de apartamentos onde ela morava em Berlim, incluindo “um jovem em calças cinzas e óculos de armação de chifre que, em uma observação mais atenta, é, na verdade, uma jovem”, e três irmãs mais velhas, “espremidas, juntas, como um grande pudim”.

Fotografia tirada pela SS de uma família morta. As duas mulheres apresentavam sinais de estupro. IMAGEM: Civilian Military Intelligence Group

Enquanto aguardam a chegada do Exército Vermelho, elas fazem piada dizendo “melhor um russo em cima do que um ianque sobre nossas cabeças”. Estupro é considerado melhor do que ser pulverizada por bombas. Mas quando os soldados chegam ao porão onde elas moram, as mulheres imploram para a autora do diário usar suas habilidades no idioma russo para reclamar ao comando soviético.

Ela consegue encontrar um oficial no ambiente caótico da cidade, mas ele não toma providência alguma, apesar do decreto de Stalin proibindo a violência contra civis. “Vai acontecer de qualquer jeito”, diz.

Soldados soviéticos molestando uma mulher alemã publicamente. IMAGEM: iFuun

Ao tentar voltar para seu apartamento, a autora do diário é estuprada no corredor e quase estrangulada; as mulheres que vivem no porão não abrem as portas durante o estupro, apenas depois que tudo acaba.

“Minhas meias estão caídas em cima dos meus sapatos, ainda estou segurando o que sobrou da minha cinta-liga. Começo a gritar ‘Suas porcas! Eles me estupraram duas vezes aqui e vocês me deixaram largada como lixo!'”

Com o passar do tempo, ela percebe que precisa achar um “lobo-chefe” que ponha fim aos estupros da “alcateia”. A relação entre agressor e vítima fica menos violenta, mais ambígua. Ela divide a cama com um oficial mais importante, vindo de Leningrado, com quem ela conversa sobre literatura e o sentido da vida.

“Não posso falar, de maneira nenhuma, que o major está me estuprando. Estou fazendo isto por bacon, manteiga, açúcar, velas, carne enlatada…. Além do mais, gosto do major e, quanto menos ele quer de mim como homem, mais gosto dele como pessoa”, escreveu.

Muitas de suas vizinhas fizeram acordos parecidos com os conquistadores.

Este diário só foi publicado em 1959, depois da morte da autora, com o título “Uma Mulher em Berlim”, e foi criticado por “macular a honra das mulheres alemãs”.

Em 2008, o diário da berlinense foi transformado em um filme, chamado de “Anonyma“, com uma atriz alemã conhecida, Nina Hoss. O filme teve um efeito catártico na Alemanha e estimulou muitas mulheres a falarem sobre suas experiências. [1]

Mulheres cometem suicídio numa praça em Berlim (1946-48).

Entre elas estava Ingeborg Bullert, hoje com 90 anos. Ela mora em Hamburgo, no norte da Alemanha. Em 1945, ela tinha 20 anos, sonhava em ser atriz e vivia com a mãe em Berlim.

Quando o ataque soviético começou, ela se refugiou no porão do prédio – assim como a mulher no diário.

“De repente havia tanques em nossa rua e, em toda parte, corpos de soldados russos e alemães”, disse.

Durante uma pausa nos ataques aéreos, Ingeborg saiu do porão para pegar um pedaço de fio no apartamento, para montar um pavio para uma lâmpada.

“De repente, havia dois soldados soviéticos apontando revólveres para mim. Um deles me obrigou a me expor e me estuprou, então eles trocaram de lugar e o outro me estuprou. Pensei que ia morrer, que eles iam me matar.”

Ingeborg passou décadas sem falar sobre o crime.

Ingeborg Bullert (hoje e na época do início da ocupação, quando tinha 20 anos) vive em Hamburgo e nunca falou sobre quando foi estuprada por soviéticos

Os estupros afetaram mulheres em toda Berlim. Ingeborg lembra que as mulheres entre 15 e 55 anos tinham que fazer exames para doenças sexualmente transmissíveis.

“Você precisava do atestado médico para conseguir os cupons de comida e lembro que todos os médicos faziam estes atestados e que as salas de espera estavam cheias de mulheres.”

Ninguém sabe exatamente quantas mulheres foram vítimas de violência sexual de combatentes estrangeiros na Alemanha. O número mais citado estima em 100 mil as mulheres estupradas apenas em Berlim – e em dois milhões no território alemão.

Há documentos que expõem um alto número de pedidos de aborto – contra a lei na época –, devido à “situação especial”.

De acordo com Natalya Gesse, amiga de Andrei Sakharov, “os russos estupravam todas as mulheres de oito a oitenta anos”. [8] [9] [10]

Enquanto pesquisava para o livro que lançou em 2002 sobre a queda de Berlim, o historiador Antony Beevor encontrou, no arquivo estatal da Federação Russa, documentos que detalham a violência sexual. Eles tinham sido enviados pela então polícia secreta, a NKVD, para o chefe desta polícia, Lavrentiy Beria, no final de 1944.
“Eles foram passados para Stálin. Você pode até ver se eles foram lidos ou não – e eles relatam estupros em massa no leste da Prússia e a forma como as mulheres alemãs tentavam matar os filhos e se matar, para evitar os estupros”, disse. [1]

O jurista Ingo von Münch constata em seu livro “Frau, komm!” (‘Mulher, vem!’) que os casos de estupros de meninas e mulheres alemãs por integrantes do exército soviético indubitavelmente caracterizavam-se como crimes de guerra. Nunca em um País e em tão pouco tempo tantas mulheres sofreram violência e estupros por parte de soldados estrangeiros como em 1944 e 1945, na esteira da invasão soviética na Alemanha. Aterrador foi também a brutalidade dos maus tratos que as mulheres sofriam dos criminosos. [7]

Mãe e filha ajoelhadas e surradas. A filha acabara de ser estuprada. Berlim ocupada pelos soviéticos (1945).

O serviço alemão de informações militares Fremde Heere Ost, registrou as seguintes ocorrências de estupros: nas regiões orientais: 1.400.000 crimes; nas zonas de ocupação soviética exceto Berlim: 500.000 crimes e em Berlim: 100.000 crimes [11] [12]

Após o verão de 1945, os soldados soviéticos flagrados cometendo tal ato recebiam punições de enforcamento ou prisão.

Entretanto, os estupros continuaram até 1948, quando a Alemanha finalmente recuperou sua estrutura política e os soldados da União Soviética estavam apenas em postos de guarda, separados da população civil. [13] [14] [15]

O embaraço russo com sua história hoje

O Parlamento russo aprovou recentemente uma lei que afirma que qualquer pessoa que deprecie a história da Rússia na Segunda Guerra Mundial pode ter que pagar multas ou ser preso por até cinco anos.

Uma jovem historiadora da Universidade de Humanidades de Moscou, Vera Dubina, só descobriu sobre os estupros depois de ir para Berlim devido a uma bolsa de estudos. Ela escreveu um estudo sobre o assunto, mas enfrentou dificuldades para publicá-lo.

Vitaly Gelfand [foto ao lado], filho do autor do diário, Vladimir Gelfand, não nega que muitos soldados soviéticos demonstraram bravura e sacrifício durante a guerra, mas, segundo ele, esta não é a única história.

Recentemente, Vitaly deu uma entrevista em uma rádio russa que desencadeou uma onda de “trolagem” antissemita em redes sociais, vejam só que contradição. Muitos disseram que o diário é falso e que Vitaly deveria emigrar para Israel. Mesmo assim, Vitaly espera que o diário seja publicado na Rússia ainda neste ano. Partes dele já foram traduzidas para o alemão e para o sueco.

“Se as pessoas não querem saber a verdade, estão apenas se iludindo. O mundo todo entende (que ocorreram estupros), a Rússia entende e as pessoas por trás das novas leis sobre difamar o passado, até elas entendem. Não podemos avançar sem olhar para o passado”, disse.

É provável que nunca se saiba o número real. Tribunais militares soviéticos e outras fontes continuam secretas.

Setenta anos depois do fim da guerra, pesquisas ainda revelam a dimensão da violência sexual sofrida pelas alemãs nas mãos não apenas dos soviéticos, mas também de americanos, dos britânicos e dos franceses. [1]

Os estupros dos outros Aliados

O livro da Professora Miriam Gebhardt, “When the soldiers came” (Quando os soldados vieram), inclui entrevistas com vítimas, histórias de crianças de estupro e pesquisas que realizou ao longo de um ano e meio em registros de nascimento na Alemanha Ocidental ocupada pelos aliados e Berlim Ocidental. Ele estima que soldados franceses, britânicos e americanos estupraram 860 mil alemães no final da segunda guerra mundial, incluindo 190 mil agressões sexuais por soldados americanos.

“Agora, 70 anos após a guerra, é longo o tempo em que se poderia suspeitar de lidar com a vitimização alemã”, disse Gebhardt, autor e palestrante da Universidade de Konstanz, ao The Local. “Não há mais a questão de se querer relativizar a responsabilidade dos alemães pela Segunda Guerra Mundial e pelo Holocausto”.

Gebhardt disse que chegou a esse número de agressões sexuais ao estimar a dos chamados “filhos da guerra” nascidos de mulheres alemãs não casadas na década de 1950, cinco por cento eram produtos de estupro.

Ela também estima que, para cada nascimento, houve 100 estupros, inclusive de homens e meninos.

Garota alemã encontrada morta em Messendorf, 1944. Documentário Hellstorm.

Os números de Gebhardt são maiores do que as estimativas anteriores. Um livro bem recebido de 2003 pelo professor americano de criminologia J. Robert Lilly, Tomado pela Força, estimou que soldados americanos cometeram cerca de 11 mil estupros na Alemanha.

Enquanto o artigo publicado pela Der Spiegel levantou questões sobre se os números de Gebhardt refletiam com precisão a incidência de agressão sexual na Alemanha pós-guerra, Lilly disse ao Local que suas estimativas eram certamente razoáveis.

“Os números de Gebhardt são plausíveis, mas seu trabalho não é uma conta definitiva”, disse Lilly em entrevista ao The Local, explicando que nenhum número exato poderia ser conhecido por falta de registros.
“É a confirmação da pesquisa que fiz e acrescenta a essa discussão em curso sobre o que acontece no baixo da guerra – O que se passa com o qual não falamos”.

Grande parte da discussão de que os ataques sexuais contra os alemães concentrou-se nas tropas soviéticas no leste da Alemanha, que se estimam ter cometido entre um a dois milhões de estupros durante seu tempo. Mas Gebhardt disse que queria desafiar a suposição de que era apenas o Exército Vermelho que era responsável por tais atos.

“Goebbels advertiu o que o Exército Vermelho faria com a Alemanha: estuprar mulheres e cometer atrocidades contra civis… As pessoas que fossem ocupadas por tropas ocidentais e não pelos soviéticos”, disse ela. “Mas o curso dos eventos foi o mesmo. Ambos os lados saquearam objetos de valor e lembranças, e os soldados muitas vezes cometem violações de gangues contra as mulheres “.

A pesquisa de Gebhardt também incluiu registros de sacerdotes da Baviera que registraram o avanço dos Aliados em 1945, incluindo uma descrição que diz:

“o evento mais triste durante o avanço foram três estupros, um em uma mulher casada, um em uma única mulher e um em uma menina imaculada de 16 à meio. Eles foram cometidos por americanos fortemente bêbados “.

O livro pinta uma imagem muito mais escura do que o que muitas vezes se vê no cinema e na literatura das tropas aliadas que libertaram os alemães do regime nazista e, assim, poderiam levar tempo para as pessoas absorverem completamente, disse Lilly. “Será resistido até certo ponto. Existem estudiosos americanos que não gostariam, porque podem pensar que os crimes de guerra cometidos pelos alemães serão menos ruins “.

Isso chama com a atitude de Gebhardt em relação ao seu trabalho, que ela diz que visa simplesmente expor o horror de tais ações na guerra. As violações “duraram anos, não apenas no momento da conquista”, acrescentou.

“Eles não eram apenas parte da violência que ocorreram nas últimas semanas e dias da guerra, mas continuaram por anos”. [2]

Os esquadrões negros

Götz Aly, um popular historiador, acusou soldados negros do exército dos Aliados de estupro sistemático de mulheres alemãs durante a Segunda Guerra Mundial. Autor do livro “Hitler’s Beneficiaries” (Beneficiários de Hitler), fez seus comentários durante uma coletiva de imprensa na mostra “O Terceiro Mundo na Segunda Guerra Mundial”, que acontece em Berlim, reconhecendo o papel de milhares de africanos e asiáticos na derrota do nacional-socialismo alemão.

Embora convidado a palestrar, Aly recusou o que chamou de versão “politicamente correta” da história e argumentou que, na verdade, pessoas de países colonizados tinham um “interesse paralelo” com os nacional-socialistas para derrotar as nações imperialistas como Inglaterra e França.

Batalhões de homens negros do exército Aliado norte-americano na Normandia em 1944

Ele comparou o comportamento de soldados negros britânicos e franceses com os notórios estupros em massa perpetrados pelos russos no leste da Alemanha e em Berlim.

“Toda cidade do sudoeste da Alemanha pode contar histórias de estupro por soldados negros, que não têm nada de diferente dos russos na forma sistemática”, disse Aly.

Ele também descreveu os soldados negros, asiáticos britânicos e franceses como “libertadores não-livres”, cuja contribuição para derrotar Hitler, portanto, não deveria ser celebrada.

O estupro era prática comum durante a queda da Alemanha, mas os historiadores concordam que Exército Vermelho foi responsável pela imensa maioria dos abusos sexuais.

Dennis Goodwin, presidente da Associação dos Veteranos da Primeira Guerra Mundial, que também fala por outros veteranos – e ele mesmo um veterano da Birmânia durante a Segunda Guerra – disse que as declarações de Aly não fazem sentido.

“Não há comparação com os russos, que se gabam abertamente disso. Há muitos historiadores que desafiariam essa visão. Não posso falar por franceses ou americanos, mas não havia batalhões negros britânicos na Alemanha”, ele disse.

Aly em “Hitler’s Beneficiaries”, argumenta que os nacional-socialistas alemães distribuíram equitativamente os bens tomados dos judeus e dos países europeus conquistados. [16]

Estupros dentro do exército norte-americano são comuns até hoje

Ser mulher dentro dos campos de batalha é, muitas vezes, mais perigoso do que ser o inimigo. O documentário americano “The Invisible War” (A Guerra Invisível) mostra depoimentos de 100 mulheres que foram vítimas de estupro dentro do quartel do exército dos Estados Unidos.

As diversas mulheres foram violentadas por seus colegas e/ou superiores. Segundo o documentário, só em 1991, quase duas décadas atrás, o Congresso Americano estimou que, até então, 200 mil mulheres tinham sido abusadas sexualmente no exército dos EUA.

Mas esses são os números de mulheres que conseguiram registrar a queixa. Quase todas as vítimas tinham seus cargos ameaçados sempre que tentavam denunciar os crimes. A advogada Susan Burke, uma das fontes do documentário, conta que “ouvia repetitivamente das soldadas ‘um estupro pode ser algo ruim, mas sabe o que é ainda pior? Receber uma receber retaliação profissional em sua carreira escolhida. Simplesmente porque elas foram estupradas”.

“Mesmo com os estupros e tudo mais e com meu amigo pegando meu agressor no flagra, ainda assim, eles não quiseram acreditar em mim quando fui denunciar”, conta Christina Jones.

O estupro deixa marca psicológicas e físicas difíceis de serem cicatrizadas. Kori Cioca fazia parte da guarda costeira americana quando foi violentada pelo seu superior. Seu rosto foi tão machucado durante o ato, que até hoje ela possui complicações no maxilar e vive há anos em uma dieta de apenas gelatinas, purês, papas e comidas batidas, porque não consegue mais mastigar qualquer tipo de comida.

As guerras são períodos onde todos sofrem muito. Sejam mulheres, homens, crianças ou animais. Mas o crime de estupro  é uma batalha enfrentada diariamente e de forma desleal, no qual o inimigo é sempre desconhecido e o ataque, geralmente, inesperado. [3]

NOTAS E REFERENCIAS:

[1] – BBC Brasil: “70 anos após fim da guerra, estupro coletivo de alemãs ainda é episódio pouco conhecido”, 08 de maio de 2015. (Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/05/150508_estupro_berlim_segunda_guerra_fn). Consultado em 10 de fevereiro de 2018.

[2] – The Local: “Allies raped almost 1m Germans: academic”, 05 de março de 2015. (Disponível em: https://www.thelocal.de/20150305/book-world-war-ii-allied-soldiers-raped-nearly-1mil-germans). Consultado em 10 de fevereiro de 2018.

[3] – Estudo Prático: “Crimes de estupro na Segunda Guerra Mundial e dentro do exército americano”. Disponível em: (https://www.estudopratico.com.br/crimes-de-estupro-na-segunda-guerra-mundial-e-dentro-do-exercito-americano/). Consultado em 10 de fevereiro de 2018.

[4] – Congressional Record, Senate, Washington, 4. Dezember 1945, S. 11374, in: Alfred M. de Zayas: Die Anglo-Amerikaner und die Vertreibung der Deutschen, Ullstein, 1988, S. 87.

Original: (“Im Gebiet um unser Internierungslager, wo die Orte Schlawe, Lauenburg, Buckow […] lagen, vergewaltigten sowjetische Soldaten in den ersten Wochen nach der Eroberung jede Frau und jedes Mädchen zwischen 12 und 60 Jahren. […] Väter und Gatten, die versuchten, die Frauen zu schützen, wurden erschossen, und Mädchen, die zu viel Wiederstand leisteten, wurden ebenfalls ermordet”)

[5] – Norman M. Naimark Die Russen in Deutschland, 1997, ISBN 3549055994

[6] – Anonyma, Eine Frau in Berlin-Tagebuchaufzeichnungen vom 20. April bis zum 22. Juni 1945, Berlin 2005, ISBN 3-44273-216-6.

[7] – Vgl. Ingo von Münch, “Frau, komm!”, a.a.O., S. 10 -15.

[8] –  Helke Sander/Barbara Johr: BeFreier und Befreite, Fischer, Frankfurt 2005

[9] – Seidler/Zayas: Kriegsverbrechen in Europa und im Nahen Osten im 20. Jahrhundert, Mittler, Hamburg Berlin Bonn 2002

[10] – Naimark. The Russians in Germany, p. 79

[11] – Bundesarchiv/Militärarchiv Freiburg Akten Fremde Heere Ost Bestand H3, Bd. 483, 657, 665, 667, 690 Bundesarchiv Koblenz Ostdokumentensammlung Ost-Dok. 2 Nr. 8,13,14; Ost-Dok. 2/51, 2/77, 2/96

[12] – Archiv der Charité und Landesarchiv Berlin

[13] – Helke Sander/Barbara Johr: BeFreier und Befreite, Fischer, Frankfurt 2005

[14] – Seidler/Zayas: Kriegsverbrechen in Europa und im Nahen Osten im 20. Jahrhundert, Mittler, Hamburg Berlin Bonn 2002

[15] – Naimark. The Russians in Germany, p. 79

[16] – The Telegraph: “Mahatma Gandhi ‘was one of Nazis’ greatest friends’ German historian claims”, 4 de setembro de 2009. Disponível em: (http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/germany/6140002/Mahatma-Gandhi-was-one-of-Nazis-greatest-friends-German-historian-claims.html). Consultado em 10 de fevereiro de 2018.

BIBLIOGRAFIA:

Crimes soviéticos na Segunda Guerra Mundial: Estupros: Alemanha

Helke Sander und Barbara Johr, BeFreier und Befreite. Krieg, Vergewaltigung, Kinder, Fischer Taschenbuch Verlag (2005), ISBN 3-596-16305-6

G. Reichling, Die deutschen Vertriebenen in Zahlen, Bonn 1986, 1989

Heinz Nawratil: 44. Massenvergewaltigungen bei der Besetzung Ostdeutschlands durch die Rote Armee. In: Franz W. Seidler, Alfred M. de Zayas, Kriegsverbrechen in Europa und im Nahen Osten im 20. Jahrhundert. Mittler, Hamburg 2002, ISBN 3-8132-0702-1, S. 121–123

Auszug aus Hitchcocks The Struggle for Europe.

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Götz Aly: O Estupro em Massa de Mulheres Alemãs Por Parte dos Aliados

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Andre Marques

Brasileiro, estudante de Direito e atuante na área de marketing é fundador e editor do site O Sentinela (abril de 2013).
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