Bolsonaro: nem nacionalista nem fascista

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Frequentemente descrevem o presidente brasileiro Jair Bolsonaro como um “fascista” ou um “ultra-nacionalista”. Ele não é nenhuma dessas coisas: não é sequer nacionalista.

Especialmente depois que o Secretário de Cultura Roberto Alvim fez seu recente discurso parafraseando Goebbels, muitos não tem mais dúvida alguma: estão convencidos de que se trata de um governo nazista.

Ora, alguns especialistas, contudo, têm ressaltado como Bolsonaro e sua equipe usam táticas da “alt-right” americana, incluindo “trollagem” e memes. Comentários ofensivos e explosivos são assim usados para desviar atenção de escândalos de corrupção e outras questões. Por exemplo, quando um jornalista perguntou ao presidente sobre o possível envolvimento de seu filho Flávio Bolsonaro com as milícias, o presidente lhe respondeu de forma inusitada, dizendo-lhe que o jornalista tinha uma “cara de homossexual terrível”, mas, nem por isso, o acusaria (de sê-lo), querendo com isso talvez querer dizer que as coisas não são necessariamente o que parecem. Estava armada mais uma polêmica e uma discussão sobre homofobia deu o tom dos debates no país (Bolsonaro afirmou ter sido mal interpretado) – enquanto uma história bombástica envolvendo a família do presidente e o crime organizado ficou em segundo plano.

A performance de Alvim, de forma análoga, tem a dose certa de ambiguidade (desde que se conte com o cinismo necessário para conceber um álibi ou o que os ingleses chamam de “plausible deniability”). Lohengrin de Wagner tocando ao fundo? É música clássica, qual é o problema?… Mas e aquelas partes do discurso que lembram tanto Goebbels? Só uma coincidência… Os bolsominions então irão retrucar perguntando o que havia de errado com o conteúdo propriamente dito do discurso e irão insinuar que os críticos têm talvez alguma coisa contra o governo promover a cultura nacional ou financiar e premiar óperas e música erudita (o Brasil tem tradição de música erudita e conta com vários compositores, além de Carlos Gomes e Villa-Lobos, embora Alvim aparentemente prefira Wagner).

“Fascismo” é definido pelos acadêmicos como uma ideologia que combina ultra-nacionalismo, corporativismo e anti-liberalismo – sendo o nacionalismo sua principal característica. O problema é que se poderia argumentar que o projeto do ex-secretário Alvim de criar concursos nacionais com prêmios para produções artísticas nacionais talvez tenha sido até agora a única tentativa de criar alguma política pública nacionalista (para o bem ou para o mal) no atual governo. Ora, é verdade que Bolsonaro, que foi militar, já defendeu, lá atrás, algumas posições de nacionalismo (econômico) ao longo de sua carreira política. Porém, ele não tem feito nada disso nem como presidente eleito e nem mesmo como candidato a presidente. Ora, seu governo deseja privatizar a Petrobrás, o que é anátema tanto para nacionalistas de esquerda quanto de direita (basta imaginar o que o Dr. Enéas acharia disso). Outras estatais também estão na mira, o que tem gerado vários protestos da parte de trabalhistas e nacionalistas que vêem nisso um ataque contra nossa soberania nacional e nossos interesses nacionais.

É notório também que Bolsonaro já declarou que a Amazônia “não é nossa” (em 2018), o que é igualmente anátema para qualquer nacionalista. Ele prestou ainda continência à bandeira dos EUA durante um discurso em Miami em 2017 – outro gesto (sem precedentes) que também foi bastante criticado por nacionalistas. Até mesmo o Lula, à época, aproveitou para dizer: “Eu nunca vi um presidente bater continência para a bandeira americana. Eu nunca vi um presidente ficar dizendo ‘eu amo os EUA, eu amo’. Ama a sua mãe, ama o seu país! Que ama os Estados Unidos! Alguém acha que os Estados Unidos vão favorecer o Brasil?”

Quando o Museu Nacional ardeu em chamas em 2018, enquanto o país lamentava a destruição de um patrimônio de sua História, Bolsonaro se limitou a dizer: “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê?”. Não se trata portanto, de um líder que se ufana do Brasil e exalta sua cultura nacional. Longe disso. O mesmo vale para questões econômicas.

Na verdade, nenhum presidente anterior foi mais pró-EUA e pró-Israel do que o atual é – ao ponto de potencialmente prejudicar interesses brasileiros: a decisão de transferir a Embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém (projeto condenado inclusive pelas principais igrejas cristãs), causou um enorme desconforto entre generais e diplomatas, visto que poderia prejudicar o comércio e as boas relações históricas entre o Brasil e seus aliados árabes. Bolsonaro teve de voltar atrás, porém insistiu em abrir um redundante “escritório de representação” em Jerusalém. Reiteradas vezes Bolsonaro dá tudo aos EUA e nada recebe em troca. Recentemente, ele isentou cidadãos americanos de visto – brasileiros, por sua vez, continuarão precisando pedir visto para viajarem aos EUA.

Bolsonaro, em suma, faz frequentemente declarações polêmicas – para não dizer revoltantes e ofensivas. Ele nomeou para o alto e médio escalão de seu governo vários indivíduos sem experiência ou qualificação e francamente ineptos (o próprio Alvim já era tido por alguns como mentalmente instável mesmo antes de sua performance como Goebbels) [1]. Bolsonaro está totalmente errado em várias questões: no que diz respeito ao meio ambiente, à política econômica (insistindo num neoliberalismo radical no momento em que o neoliberalismo está morto) e à política externa… Contudo, “fascismo” ou mesmo “nacionalismo” não é a chave apropriada para interpretar seu governo. Se você misturar Margaret Thatcher, Ronald Reagan e uma pitada de nostalgia do Pinochet (já que nosso próprio regime militar foi bem mais intervencionista e nacionalista do que Bolsonaro/Guedes), dá para se ter assim uma ideia de qual é realmente a ideologia do atual presidente do Brasil (Pinochet, aliás, foi grande amigo tanto de Reagan quanto de Thatcher) [2]. Junte a isso aquela herança udenista brasileira de cunho anti-nacionalista – ou seja, é basicamente neoliberalismo conservador, em uma versão mais tosca e brutal, como já foi visto antes na América Latina, apenas, dessa vez, mais domesticado.

O relacionamento de Jair Bolsonaro com os integralistas (um grupo para-fascista minúsculo) [3] é análogo ao relacionamento de Donald Trump com a “alt-right” americana: às vezes ele dá um aceno para eles e isso faz com eles se sintam muito importantes e se encham de esperanças. Em suma, Bolsonaro usa um pouco de estética e slogans nacionalistas, mas é só isso. No Brasil a luta não é contra um fascismo imaginário – é antes contra um troll-neoliberalismo cínico.

Fonte: Portal Disparada

Escrito por Uriel Araujo, antropólogo e pesquisador.

Publicado originalmente em 05 fev. 2020.

Notas

[1] Nota do editor: Muitos deles por indicação de Olavo de Carvalho, um auto-intitulado “filosofo” que não tem qualquer propriedade intelectual para tal função.

[2] Nota do editor: O general Augusto Pinochet (1915 – 2006) foi um ditador chileno cujo regime se concentrou na aplicação do neoliberalismo econômico, pois seu governo foi o primeiro a implementar tais medidas na América do Sul, sendo elogiado, entre outros, pelo Grande Rabino do Chile, pelos membros da Escola de Chicago e por algumas potências ocidentais. Em 1985, Pinochet lançou um pacote de privatizações de incontáveis empresas, que só não foi maior que o número de privatizações dos governos de FHC, no Brasil (o maior pacote de privatizações da história).

[3] Nota do editor: É importante levar em conta, ao que talvez o autor não esteja totalmente ciente ou caia no mesmo erro da esquerda política de pensar que tais grupos efêmeros que pegam para si mesmos a alcunha de “integralistas” e herdeiros do legado político da AIB (Ação Integralista Brasileira), devido seu visual, sejam ainda condizentes com o integralismo brasileiro original. Mas não são nem agem de acordo com os princípios pregados pelos integralistas originais em suas ações políticas. Esses pequenos grupos de neointegralistas tem se concentrado ao passar dos anos em um apoio de qualquer força conservadora liberal que seja determinada pela política brasileira, sendo esses últimos, apenas um reflexo disso, mas com uniformes e trejeitos de integralistas. Suas ações falam por si só. Não podendo, portanto, ser considerados de forma alguma como “para-fascistas”, pois os mesmos renegam qualquer associação com as origens do integralismo nas mesmas fontes das quais os nacionalistas europeus de terceira posição basearam suas convicções, inclusive negando o próprio Gustavo Barroso, um dos fundadores mais envolvidos com o integralismo brasileiro original e o mais proeminente destes, devido suas denuncias ao sionismo internacional e o capital financeiro apátrida.

Andre Marques
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2 thoughts on “Bolsonaro: nem nacionalista nem fascista”

  1. Bolsonaro além de vigarista é miliciano. Ele batia tanto no peito falando de honestide e transparência política mas é tão desonesto e bandido quanto os outros que tanto criticava.

  2. O Bolsonaro foi “capado” pela mídia judaica (Globo, Veja, etc), eu já sabia que isso iria acontecer.

    “Democracia” significa judeus controlando a sociedade através da mídia.

    Já o governo patriota, feito pelo próprio povo e para o próprio povo, eles chamam de “facista” (e substituem pela “democracia” judaica).

    Quando Hitler chegou ao poder a primeira coisa foi tomar a mídia e os bancos dos judeus e nacionalizar.

    O Bolsonaro fez o contrário, e claro, se ferrou (e com nós junto, infelizmente).

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