As marcas de civilização perdida na Amazônia

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Por mais de 40 anos as estranhas formas geométricas gigantescas vem intrigando os cientistas e os fazem voltar os olhos para a mata amazônica. Eles não tem explicação formada e não se encaixam com tudo que se sabe até hoje sobre os processos populacionais da Amazônia, os quais se achava que se conhecia até então. Mas a grande verdade é que a arqueologia brasileira revela um passado incrível e totalmente diferente daquilo que somos ensinados na escola. Onde hoje se encontra o território brasileiro, já abrigou potências civilizacionais no mundo antigo. Um mundo totalmente “novo” para nós do qual fomos inteiramente desconectados e só nos restam hoje pequenos resquícios, lampejos de sua exuberância, magia e profundidade.

Os cientistas chamam esses desenhos de geoglifos. Normalmente, esses desenhos são quadrados, círculos e octógonos feitos perfeitamente e visíveis em sua forma total do céu. Alguns mais bem preservados e elaborados que outros. Do solo não é possível visualizar suas formas nem as suas dimensões. Em um avião, voando a 500 metros do solo, os geoglifos se tornam visíveis.

Antes de mais nada, um geoglifos é uma grande figura feita no chão, em morros ou regiões planas. Eles podem ser feitos pela disposição organizada de terra e rochas, criando um desenho em relevo acima da superfície do solo, ou pela retirada de terra e rochas da superfície expondo uma rocha de baixo, criando um relevo abaixo do nível do solo. Esse último é o caso dos da mata amazônica.

“A Amazônia era estudada como tendo um passado inóspito, uma região com pouca população e estas estruturas arqueológicas que estamos a ver aqui demonstram o contrário”, disse à agência de notícias espanhola EFE Ivandra Rampanelli, arqueóloga doutora em pré-história e responsável pela mais recente descoberta de geoglifos no Acre.

Pesquisadora na cratera de novo geoglifo descoberto na Amazônia. Ivandra Rampanelli

segundo Rampanelli, que pesquisa os registros há 11 anos ao todo, há 818 geoglifos na parte oriental do Acre, no sul do Amazonas, no noroeste de Rondônia e na Amazônia boliviana descobertos, dos quais 523 estão no Acre, um dos estados brasileiros mais pobres.

Somente a partir de 2005 que um estudo sistemático destes locais avançou, nomeadamente com a ajuda de ferramentas diferenciadas como os satélites de alta resolução, como as imagens disponíveis no Google Earth, por exemplo, possibilitaram um aumento nas descobertas.

As dimensões são colossais: variam de 50 a 350 metros de diâmetro. No solo, os geoglifos são como grandes valas de até 11 metros de largura por 4 metros de profundidade. É impressionante o imenso volume de terra que teve que ser removido para a sua construção, o que implica um grande contingente populacional.

Geoglifos são escavações no solo, valetas e muretas, que criam figuras. Divulgação/José Iriarte

O paleontólogo Alceu Ranzi quem iniciou isso tudo. Essas áreas correspondiam a um grande sistema que se estendia por centenas de quilômetros na região amazônica. Ranzi, se dedica a mais de 40 anos ao assunto e fez parte da equipe que descobriu os desenhos em 1977. Ele coordena o chamado Projeto Geoglifo.

Numa reportagem da Rede Globo de fevereiro de 2010, feita pelo repórter Álvaro Pereira Júnior, visitou de helicóptero junto à Ranzi, os geoglifos em Boca do Acre, no estado do Amazonas que nunca haviam levado vista aérea.

A reportagem entrevistou o senhor Jacob Queiroz, morador local de uma fazendo em Boca do Acre onde existem geoglífos. Ele, como qualquer outro facilmente vê a perfeição da elaboração dos geoglifos no chão ainda visíveis onde não há matas densas que os encubram. A equipe se dirigiu, dentro das terras de seu Jacob para um geoglifo quadrado de 200 m quadrados. A terra, cuidadosamente escavada e empilhada do lado de fora.

Chegou-se a pensar, tempos atrás, que algumas dessas valas (como são chamados os locais onde delimitam-se os geoglífos fossem trincheiras das batalhas da Revolução Acriana, revolta do início do século XX contra a dominação boliviana na região onde hoje é território brasileiro que corresponde ao Acre e parte do Amazonas. Mas essa teoria já está fora de cogitação. As análises geológicas publicadas mostram que os geoglifos são muito mais antigos, remetendo ao século XIII d.C.

Para Ranzi, esses geoglifos eram áreas de rituais religiosos. “Devido a elaboração, monumentalidade, espaço…” afirma. Outra questão intrigante é como os habitantes daquelas época conseguiram fazer esses desenhos na Terra, visto em sua totalidade apenas de aeronaves e dentro de uma floresta densa como é a Amazônia. Ranzi explica que essa região deveria estar passando por um “problema climático”.

Descoberta de novos geoglifos no Acre. Ivandra Rampanelli

Uma hipótese científica afirma que na época da construção dos geoglífos, a Amazônia pode ter passado por um forte período de seca que transformou a floresta dense e tropical numa imensa savana, deixando-a muito parecida com o cerrado brasileiro.

Mas a principal pergunta ainda está sem resposta. Que tipo de sociedade ou civilização projetou esses monumentos? Tudo que sabemos é que os povos que viviam na região na época cabralina, século XVI, não possuíam tamanha sofisticação tecnológica. E se fosse outro povo, certamente era bem mais avançado e organizado.

O antropólogo da Universidade Federal do Acre Jacó Piccolo, explica que essa civilização pode ter um passado estreito relacionado aos povos nativos atuais no Acre mas admite que podem também ter sido outras populações que habitaram a região pois oque torna difícil estabelecer uma origem clara para os geoglífos é o fata de que não existem pistas ou analogias semelhantes nas tradições dos índios que vivem hoje no Acre. “Eles não tem na sua memória, nas suas lendas, nos seus costumes estas figuras”, indica Ranzi.

Os cientistas brasileiros também procuram, tal como se manda uma pesquisa abrangente, em indícios materiais, restos civilizacionais deixados pelos povos, como centenas de fragmentos de cerâmica retirados dos geoglífos. “Mas ainda não entramos uma cerâmica maravilhosa, uma coisa, assim, de ‘encher os olhos'”, afirma Ranzi. O que existe de concreto são alguns objetos encontrados na região, como os chamados “vasos caretas”, alguns inteiros espalhados nas áreas. A questão é que esses vasos também foi encontrados apenas por habitantes da área, não por pesquisadores cientistas, coisa que não permite estabelecer uma conexão direta entre esses vasos e os geoglífos.

© Foto Universidade de Exeter

Segundo os moradores locais, como o senhor Jacob, entrevistado na reportagem, as valas, que representam os desenhos no solo estranhamente nunca alagam e do chão, sobe uma espécie de zumbido. Som que ele comprara a um “enxame de abelhas”.

Em algumas áreas isoladas da região para onde foi a reportagem, Ranzi conta que nem mesmo mapeamento de satélite existe em algumas áreas e sobrevoando de volta, ele contam pelos menos “5 ou 6” que nunca havia mapeado antes. Os próprios cientistas brasileiros afirmar que suas estimativas é de que nem 10% dos geoglifos foram ainda catalogados.

Comparações no Nazca

Certamente os geoglífos amazônicos estão no mesmo patamar das Linhas de Nazca, no Peru ou as Pirâmides egípcias devido suas formas geométricas extremamente detalhadas e perfeitas. Os geoglifos acrianos situam-se mil quilômetros a nordeste do desértico vale de Nazca.

Linhas de Nazca. Foto: Tv Perú

Descobertos em 1927, os animais esculpidos no solo do deserto de Nazca, no Peru, teriam sido feitos há 3.000 anos. Vistos do solo, as figuras peruanas parecem linhas sem-fim que se perdem no horizonte. Só de bem alto, a 1.500 metros de altura, suas formas começam a fazer sentido. Os antropólogos afirmam que a intenção dos nativos era enternecer os deuses, convencendo-os a fazer chover. Mas no Acre, a falta de chuva não é um problema.

Estudos estrangeiros

A arqueóloga inglesa Jennifer Watling, realizando seu pós-doutorado na FAPESP, estudou e defendeu sua tese na University of Exeter, no Reino Unido, sobre o impacto ambiental das populações pré-históricas por conta da construção desses geoglifos. Graças a seu estudo, podemos colher alguns dados sobre o ambiente e alguns habitados dessa civilização.

Em 2017, Watling estava se dedicando ao pós-doutorado, sob orientação do arqueólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).

Ela estudou o Sítio Arqueológico Jacó Sá e Fazenda Colorada, nas proximidades de Boca do Acre (AM), publicando seu estudo na Proceedings of the National Academy of Sciences, ganhando visibilidade internacional sendo publicada até no The New York Times.

Segundo seus estudos, por ironia do destino, não fosse o aumento da ocupação humana no atual Acre, os mais de 450 geoglifos pré-históricos hoje catalogados continuariam ocultos pela mata (a floresta evidentemente esconde muitos outros). Esses geoglifos se espalham pelos vales dos rios Acre, Iquiri e Abunã, entre Rio Branco e Xapuri, e também na direção do Estado do Amazonas.

Ela constatou que o local, antes do desmatamento para construção dos geoglifos, era dominado por bambuzais. Watling queria entender como era a vegetação naquela região na época em que os geoglifos foram construídos e qual foi a extensão do impacto ambiental associado à construção deles. Se era coberta por florestas antes da chegada dos povos que os construíram ou já era um cerrado, por quanto tempo as áreas desmatadas permaneceram abertas, o que aconteceu com a vegetação quando os geoglifos foram abandonados e como foi o processo de regeneração da mata.

Usando técnicas de paleobotânica para obter respostas, passou 6 meses no Acre entre 2011/12. Ela concluiu que o ecossistema de bambuzais existiram no local há pelo menos 6.000 anos, sugerindo que o bambu não foi introduzido pelos nativos, mas fazia parte da composição paisagística original.

A presença do homem no local data de pelo menos 4.400 anos atrás e a intensificação do desmatamento se iniciou 4.000 anos antes do presente. A a época da construção dos geoglifos teria sido entre 2.100 e 2.200 anos atrás, sem evidências de desmatamentos significativos em qualquer período.

Segundo ela, os geoglifos não ficavam dentro de uma área totalmente desmatada. Eles eram cercados pela copa das árvores e sua vegetação local jamais foi mantida completamente aberta durante todo o período pré-Colombiano. Isso é consistente com evidências arqueológicas de que os geoglifos eram usados em bases esporádicas em vez de continuamente habitados. O fato de não terem grande quantidade de artefatos indica também que os habitantes da população não moravam lá.

Outra constatação é que os geoglifos não foram construídos sobre floresta virgem que foi derrubada. Os dados coletados sugerem que as estruturas foram erigidas em terrenos previamente ocupados, ou seja, em florestas antropogênicas, que foram derrubadas ou tiveram sua composição alterada pela ação humana ao longo de milhares de anos. Seus habitantes tiveram 2.000 anos de manejo da floresta antes da construção dos geoglifos.

Pesquisas em outros geoglifos mostram que o povo que construía aquelas enormes estruturas cultivava milho e abóbora. Suas pesquisas indicaram que após a limpeza da mata pelos primeiros habitantes da região, eles teriam passado a permitir a proliferação apenas das espécies vegetais que faziam uso. Isso explica o fato de que a derrubada da floresta por meio de queimadas entre 4.000 e 3.500 anos atrás foi seguida pelo aumento de palmeiras na composição da floresta. As palmeiras têm diversos usos. Seus cocos são alimento, seus troncos servem para construir ocas e suas folhas para cobri-las. Não existe outra explicação natural para o aumento de palmeiras, já que o clima na região era – e continua sendo- úmido e portanto favorável à árvores de grande porte que tornam a mata densa.

Ela também constatou que os geoglifos não foram projetados para ser visíveis a distância, mas para ficar escondidos da vista, o que não deixa de ser uma conclusão inesperada. Isso se mostra pela ausência de carvão a 500 metros de distância dos geoglifos, significando que seu entorno não foi desmatado, ficando totalmente coberto visto do chão à distância. Como se somente os daquele povo soubessem seu caminho.

Os geoglifos estudados por Watling e pesquisadores do Brasil e Reino Unido foram abandonados há cerca de 650 anos, antes da chegada dos europeus nas Américas. Com isso, suas vegetações de palmeiras também declinaram.

Atualmente

Recentemente também uma expedição arqueológica britânica descobriu 81 zonas deste tipo no estado brasileiro de Mato Grosso (oeste), com vestígios de cerâmica e ferramentas de povos antigos.

Em 9 de novembro de 2018, o geoglifo do Sítio Arqueológico Jacó Sá, em Rio Branco (AC), foi tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O registro, escavado no solo há cerca de 2,5 mil anos, é o primeiro do tipo a ser reconhecido pelo órgão de patrimônio.

Fontes de pesquisa:

JN. Afinal, a história da Amazónia pode ser outra… Descoberta, Portugal, 13 ago. 2018. Mundo. Disponível em: https://www.jn.pt/mundo/afinal-a-historia-da-amazonia-pode-ser-outra-9712318.html. Acesso em: 20 dez. 2019.

WIKIPÉDIA. Geoglifo. Arqueologia, Land art. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Geoglifo. Acesso em: 20 dez. 2019.

G1. Marcas gigantes no solo da Amazônia intrigam cientistas. Globo.com, Fantástico, 7 fev. 2010. Arqueologia, p. 1. Disponível em: http://g1.globo.com/Amazonia/0,,MUL1479204-16052,00-MARCAS+GIGANTES+NO+SOLO+DA+AMAZONIA+INTRIGAM+CIENTISTAS.html. Acesso em: 20 dez. 2019.

Você também assistir a reportagem aqui:

R7. Marcas da história na Amazônia: Iphan tomba geoglifo. Cidades, [S. l.], 10 nov. 2018. Disponível em: https://noticias.r7.com/cidades/marcas-da-historia-na-amazonia-iphan-tomba-geoglifo-10112018. Acesso em: 20 dez. 2019.

SPUTNIK NEWS. Descoberta de geoglifos no Acre revela habitação da Amazônia há 2.500 anos. [S. l.], 16 ago. 2018. Brasil. Disponível em: https://sptnkne.ws/jtrC. Acesso em: 20 dez. 2019.

MOON, Peter. Pesquisa com geoglifos indica que Amazônia teve uso sustentável há milhares de anos. Agência FAPESP, 6 mar. 2017. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/pesquisa-com-geoglifos-indica-que-amazonia-teve-uso-sustentavel-ha-milhares-de-anos/24862/. Acesso em: 20 dez. 2019.

Andre Marques
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3 thoughts on “As marcas de civilização perdida na Amazônia”

  1. Estimado Andre Marques. Como professor de Geografia e História da Rede Pública Municipal de São Paulo, parafraseio as palavras de SÓCRATES: _EU SEI QUE NADA SEI. Porém, com o MÉTODO PAULO FREIRE Entre Nós, este comete um dos PIORES CRIMES, que é o de OMITIR de Nossos Discentes da REDE PÚBLICA, esta e diversas informações, que poderiam muito bem servir no DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL. UMA VERGONHA. Assim , refiro-me, pois, Nosso BRASIL Sempre Foi Ocupado de uma Maneira ou Outra, Creio eu, por diversas CIVILIZAÇÕES. A Presença Portuguesa, ao contrário do que muitos intelectuóides de esquerda dizem, não destruiu o nosso espaço geográfico. Simplesmente, realizaram a presença de uma Nova Civilização, da qual somos parte.
    Muito Obrigado. Estimado Andre Marques. Por vossa oportunidade, onde coloco minha opinião. Espero poder sempre contribuir com o melhor e engrandecer Nosso NACIONALISMO. Ainda muito emergente.
    Cordialmente,

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