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A inteligência armou a mão e os sentidos do homem de instrumentos poderosos para agir sobre a natureza, mas, se extraordinários foram e é os progressos da ciência e da técnica relativamente aos processos da produção de bens, talvez o mesmo, não se possa afirmar quanto ao critério social de sua repartição.

As descobertas da ciência, o aperfeiçoamento da técnica e os equipamentos mecânicos criaram para o homem dos nossos dias condições superiores e nunca imaginadas de segurança, de comodidade e de conforto, mas determinaram, por outro lado, a concentração industrial e capitalista, tendo como consequência a formação do proletariado moderno.

A produção de utilidades converteu-se numa fonte ilimitada de lucros para os que dispõem dos meios de produção e de troca, mas essas mesmas utilidades são as mais das vezes inacessíveis aos que contribuem com o seu trabalho para produzi-las.

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Se a produção pressupõe, de um lado, necessidades humanas e, de outro lado, trabalho humano, não parece justo que poucos, favorecidos da sorte, acumulem proventos ilimitados à custa desse trabalho e dessas necessidades.

Porque, há duas maneiras de viver: do trabalho próprio ou do trabalho alheio. Parece-me que esta segunda forma é um desafio lançado à face de Deus. Não disse o Criador que o homem haveria de ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto? In sudore vultus tuivoscerispane.

No entanto, há os que se subtraem ao cumprimento da lei divina, há os que a iludem e a defraudam, conseguindo, não o pão quotidiano, mas todas as comodidades da vida, com o suor de rostos alheios.

Há, pois, um erro fundamental na organização social e econômica do mundo, erro tantas vezes apontado e assinalado, erro das mais funestas consequências e que coloca num dos extremos do sistema os que trabalham e no outro extremo, os que usufruem os benefícios.

Hoje, mais do que nunca, o compreendemos e mais do que nunca sentimos a  necessidade de corrigi-lo.

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O capitalismo, quando na sua forma individualista e egoísta, é a origem e a causa de todos os males que atormentam o mundo.

É esse egoísmo, na sua avidez ilimitada de lucros, que cria os monopólios, que explora o homem, que maquina as guerras, que gera a miséria, que oprime os povos. E ele a negação da solidariedade humana e o repúdio das leis divinas.

Toda a existência humana, as relações entre os indivíduos e as relações entre os povos estão envenenadas e animalizadas pela ideia de luta. Luta pela dominação, luta pelo ganho, luta pelo espaço, pelos mercados, pelas matérias-primas. Lutam os indivíduos, lutam as classes, lutam os povos, lutam os continentes.

Já na educação da criança se procura, por várias formas, desenvolver esse instinto animal, incutindo-lhe a ideia de que é necessário “vencer” na vida. Nessa luta, não há contemplações, não há piedade.

Cada homem vê no seu próximo um adversário virtual e cada povo enxerga nos demais povos inimigos potenciais.

As guerras são romanceadas e os feitos bélicos tanto mais exaltados quanto mais ferozes e mais sangrentos os embates e maior o número de vítimas que se contar nos campos de batalha.

Há os que sustentam que essa forma de luta é uma contingência biológica animal e há os que afirmam, principalmente os que têm interesse em que não desapareça, ser ela fator de progresso.

E por essa forma que se procura explicar e justificar as guerras, essas espantosas e estúpidas carnificinas que têm ensanguentado o mundo, causado os maiores sofrimentos à humanidade e degradado o homem à categoria do mais cruel dos animais.

As guerras foram, por isso, industrializadas, e se converteram num negócio e numa profissão.

Mas, se a luta é uma característica biológica, se é as expressões da natureza e de instintos animais não deveram esquecer que há no homem, além da animalidade, todo um conjunto de atributos psicológicos que lhe permitem distinguir o bem do mal, o justo do injusto e de formular, enfim, julgamentos morais.

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Além das tendências egoístas, manifestações do instinto de conservação, há na psique humana, mais ou menos desenvolvida, os sentimentos sociais de simpatia e de solidariedade e cuja inexistência ou desaparecimento tomaria impossível a vida em sociedade.

A simpatia, como sabeis, é uma sintonização de estados afetivos, a nossa identificação na situação de outrem.

Quando nos comovemos diante da dor e da miséria alheias, quando corremos em auxílio dos nossos semelhantes, agimos sob o influxo dos sentimentos de simpatia e solidariedade.

E nesses sentimentos, cujas raízes mergulham na nossa própria constituição orgânica, que tem a sua origem o direito e a justiça, que nada mais são, psicologicamente, que a dosagem, a medida e o equilíbrio das reações ego-simpáticas, materializadas nas suas diversas formas de expressão.

O individualismo na ordem social corresponde à predominância das reações egoísticas na esfera psicológica e, portanto, a uma diminuição ou obscurecimento dos sentimentos de simpatia e de solidariedade.

O individualismo consiste, precisamente, na desconsideração do semelhante e, por essa razão, os seus processos são os da luta.

Creio que a mais primária manifestação de individualismo na espécie humana foi a antropofagia. Segue-se-lhe a escravidão e a servidão. Do direito de devorar o vencido, passou-se ao de dispor dele como coisa, como propriedade. Segundo Aristóteles, o escravo é uma máquina animada, como uma máquina é um escravo sem alma. Na concepção romana, os escravos eram, exatamente, um produto da luta, isto é, da guerra e da conquista. O vencedor tinha o direito de vida e morte sobre o vencido: jus vitae et necis.

Os imperadores, porém, em vez de matarem os prisioneiros, os vendiam como escravos, conservando-lhes, assim, a vida: servabant. Daí a denominação de servo.

A escravidão e a servidão, tais como existiam antigamente, foram abolidas nos nossos tempos entre os povos civilizados, e nos inspiram hoje o mais profundo horror. Subsistem, porém, não raro, sob outras formas e subsistirão sempre enquanto o individualismo, nas suas manifestações exclusivistas e agressivas e na sua sede de dominação e de lucros, continuar a cavar desigualdades e a produzir desequilíbrios sociais.

O processo social se define por duas tendências: a individualista e a socialista; a primeira, tendo como centro os instintos egoístas e a segunda os sentimentos de simpatia e de solidariedade.

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E em torno do ponto de equilíbrio dessas duas tendências que se agita a humanidade e há de continuar sempre convulsionada e angustiada enquanto não o encontrar.

Os métodos do individualismo são os da luta – da luta pela dominação, pelo sujeitamento do indivíduo a outro indivíduo, da luta pelo ganho sem limite e sem considerações: os métodos do socialismo, que aqui defino simplesmente como uma crescente extensão da solidariedade social, são os da cooperação.

Se examinarmos a evolução do homem, veremos que todo o seu progresso moral consiste na ampliação do círculo da solidariedade social, de modo que se estenda além da família, do clã, da classe, do grupo, da nacionalidade, para abranger todas as criaturas humanas.

A grande tragédia do mundo é ser ainda governado pelos instintos – muitas vezes os instintos mais primários – e não pela razão e os sentimentos.

Deve-se substituir a concepção individualista, irracional e animal de luta pela vida, pela ideia moral e cristã de cooperação para a vida. Cooperação dos indivíduos, cooperação dos povos, cooperação dos continentes. As tendências egoístas de supremacia, de dominação, de exclusivismo, devem ceder lugar aos sentimentos de justiça e de igualdade. Os instintos de pugnacidade devem ser sublimados e aplicadas as suas energias na conquista da natureza e na debelação dos males que afligem a humanidade. O homem deve lutar, mas lutar unicamente para libertar-se da miséria, do medo, do ódio, da opressão e nunca para escravizar os seus semelhantes.

Nossa era está desgraçadamente ainda muito imbuída de concepções agonísticas, de guerras, de lutas, de vitórias, de conquistas de vencedores e vencidos, de hegemonia e dominação. No próprio âmbito da vida quotidiana, quando alguém, por força de circunstâncias, acumula riquezas, é considerado e saudado como um “vencedor”. Venceu na vida e recebe as honras e as homenagens que a fortuna impõe.

Eu não ousaria afirmar, como São João Crisóstomo, que ninguém pode enriquecer honestamente. Talvez se apoiasse o santo padre da Igreja na palavra de Jesus, segundo a qual é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus. E que, no pensamento de Jesus, a riqueza traz consigo o estigma da injustiça.

Mas, por pregar essas doutrinas, foi Cristo crucificado. Se ele voltasse hoje ao mundo, muitos dos que se dizem seus discípulos ou seus adeptos talvez não o reconhecessem e o negassem antes que o galo cantasse pela primeira vez.

O que é certo, o que não pode merecer dúvida, é que também nas lutas econômicas, onde há vencedores, há vencidos e, para que a riqueza se acumule nalguns pontos, é necessário, a não ser que se negue o princípio da conservação da energia, que desapareça ou se rarefaça noutros.

Se for utopia pretender erradicar a causa do mal, se não seria sensato nem conveniente, nesta fase da evolução humana, eliminar o capitalismo como propriedade privada dos meios de produção e como instrumento de lucro, deve-se, pelo menos, cortar-lhe os excessos e impedir a exploração do homem pelo homem, que conduz a uma nova forma de escravidão.

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É necessário, antes de tudo, como proclamava Leão XIII na sua famosa encíclica, subtrair os trabalhadores do egoísmo desumano dos especuladores que, na sua avidez ilimitada de lucros, deles abusam como se fossem coisas: personis prorebus ad questum abutentes. E se é unicamente o trabalho, como ainda observava o grande pontífice, que gera a riqueza das nações, manda então a justiça que se atribua aos trabalhadores àquela parte dos benefícios a que eles têm direito.

Corrigir os malefícios do capitalismo na ordem interna e banir o imperialismo na ordem externa será, certamente, o programa do futuro. Porque, o imperialismo é a forma internacional do capitalismo, como o capitalismo é a forma individual do imperialismo.

E certo que, desde os tempos em que a escravidão era considerada uma instituição natural e justa, desde os tempos em que, segundo a doutrina de Aristóteles, se sustentava haver homens cuja natureza é de serem escravos, muitos progressos foram feitos nas instituições jurídicas e sociais.

Estamos, porém, ainda muito longe do termo final dessa evolução.

Todos hoje compreendem e admitem que não pode haver paz, que não pode subsistir uma organização econômica e social em que uns possuem em excesso e outros não tenham como satisfazer as necessidades mais elementares da vida.

Não há nenhuma razão natural, nem jurídica, nem moral que possa excluir uma parte da humanidade do uso e gozo dos bens da terra, dos frutos e dos benefícios da cultura e da civilização. O mundo deverá propender para uma organização social em que todos possam usufruir desses benefícios na justa proporção do seu trabalho. E a isso e apenas a isso que denominamos socialismo.

Ter em excesso, quando outros possuem o suficiente, é admissível possuir, porém, em excesso, quando outros não têm o indispensável, é profundamente injusto e desumano e, como queria Santo Ambrósio, quase um ato de violência: pius quam suficeret swnptui violenter obtentum est.

Eu não creio que aqueles mesmos que bafejados pela sorte, conseguiram acumular riquezas, possam julgar-se felizes e tranquilos, tendo diante dos olhos o espetáculo quotidiano da miséria e da necessidade. Talvez se sentissem mais em paz com a própria consciência se, possuindo menos, pudessem enxergar um pouco, um pouco mais de afeto e um pouco menos de rancor nos rostos dos seus irmãos, abatidos pelo trabalho e torturados pelo sofrimento. Porque como adverte a Escritura, é melhor ter pouco com justiça do que muito iniquamente: Melius estpanim ctimjustitia quam multifrudus cum iniquitate.

Mas, uma ordem material e exterior baseada na justiça somente será possível quando tiver plena correspondência com um estado interior e espiritual.

A organização social e econômica será sempre o reflexo de uma mentalidade e enquanto essa mentalidade não evoluir e se aperfeiçoar, enquanto o homem não aprender a moderar os seus instintos egoístas e incluir, como condição de sua felicidade, a felicidade alheia, não poderemos ter esperanças de que haja, no mundo, paz, segurança e bem-estar.

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Não haverá transformações sociais estáveis e duradouras se não se reformar, ao mesmo tempo, o caráter do homem. O que é necessário, por isso, é educá-lo, cultivar-lhe o lado bom e nobre da personalidade, desenvolver-lhe os sentimentos de simpatia e de solidariedade, ensinar-lhe a amar os seus semelhantes e a reprimir os instintos egoístas.

Não creio, porém, que essa educação do homem se possa realizar sem Liberdade.

Nossos sentimentos estão em relação com as nossas ideias e concepções. Para sentir, é preciso compreender. Mas, para compreender, é necessário que exista a possibilidade da transmissão e do debate das ideias, pois é por essa forma que se amplificam os horizontes do pensamento e se retificam os seus erros.

Educar consiste precisamente em incutir representações mentais capazes de provocar determinados sentimentos, atos e atitudes. Educar é ensinar a compreender, a sentir e a reagir. Educar é formar convicções.

Para que possa haver educação é necessário, pois, antes de tudo, que haja liberdade de pensamento e de sua expressão. Onde essa liberdade não existe, jamais poderá haver consciências; haverá, sim, almas deformadas como as plantas que rastejam esmagadas sob o peso dos rochedos.

O horrendo espetáculo que hoje oferece o mundo nos indica, com uma evidência que não poderia ser mais eloquente nem mais cruel, e a que extremos de barbárie e de ferocidade pode chegar o homem quando se lhe tira a Liberdade de pensar, quando se lhe exaltam os instintos animais e quando se lhe ensina que a paz é uma utopia, um sonho de pusilânimes e que a maneira mais gloriosa e heroica de viver e de servir à pátria é saber manejar vim engenho de guerra para trucidar outros homens, filhos de outras pátrias.

A humanidade é como uma seara imensa e imperecível em que alguns frutos amadurecem mais cedo e outros mais tarde. O dia virá, porém, em que todos estarão sazonados, em que as ideias de bondade, de fraternidade e de justiça frutificarão em todos os corações. Então, e só então, haverá a paz. Paz, que não será o emudecimento da razão diante da força, o estrangulamento da liberdade, a humilhação, da justiça, o silêncio dos oprimidos, a resignação dos desgraçados. Paz, que não será a paz gelada dos sepulcros, caiados por fora e podres por dentro, mas a paz que iluminará um mundo livre de torpezas, de misérias, de podridões, um mundo redimido de todas as iniquidades.

Se tudo isso é utopia, lembrai-vos de que não haverá para vós, que sois a mocidade, tarefa mais nobre, mais digna e mais gloriosa do que trabalhar, ainda que em vão, pela realização dessa utopia. E, com a alma isenta de preconceitos, liberta de ódios e purificada de egoísmos, com o coração voltado para todos os homens e todos os povos, repeti, como numa oração de cada dia, as palavras de Sêneca:

Contemplarei todas as terras como se fossem minhas e a minha como se fora de todos e viverei como quem sabe que nasceu para os outros e, por essa razão, darei graças à natureza que, por tal forma, não poderia tomar melhor a minha existência. Pois, sendo eu um só, deu-me a todos e assim fez que todos se dessem a mim

Tudo o que eu possuir nem guardarei com avareza nem desperdiçarei com prodigalidade e pensarei sempre que nenhuma coisa será tão minha como quando a tiver dado de coração.

Saberei que a minha pátria é o mundo governado por Deus e que Deus está acima de mim, junto de mim, como supremo censor dos meus atos e das minhas palavras.

Quando a natureza me chamar novamente ao seu seio; partirei dando testemunho que amei a retidão da consciência e as nobres finalidades da vida, que não ofendi a Liberdade de ninguém e que ninguém diminuiu a minha.

Aquele que assim agir, aquele que tentar agir assim, ainda que nada consiga, ainda que sucumba, terá realizado coisas admiráveis e entrará no caminho que leva até Deus: iter faciet ad Deos.


PASQUALINI, Alberto. A organização social do mundo. (Discurso pronunciado como paraninfo dos bacharéis de economia e finanças). Correio do Povo, Porto Alegre, 29 dez. 1944, p. 4.

Digitalizado por Alerta Nacionalista (blog)

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