O Que é Metapolítica?

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Há exatamente setenta anos, na Escola Superior Alemã de Política, o filósofo Max Scheler (1874-1928), a mente mais fértil daquele tempo, ao falar de Ortega y Gasset (1883-1955), sustentava em sua conferência intitulada “O homem na etapa da nivelação” que:

“E ainda que demasiado restrita à crítica da cultura, esteja madura para a realidade da vida, de maneira que seja capaz também de aparecer no espírito de nossa política, a fim de suplantar aos governantes e mantenedores da presente condução alemã.”

A ideia que desprende-se desta citação é que o trabalho intensivo na ordem cultural é condição prévia e necessária para a tomada do poder político. Eis aqui a primeira acepção de metapolítica, como mera atividade cultural, porém que precede necessariamente à ação política.

Poucos são os que sabem que este é o antecedente mais distante da noção de metapolítica que começou a manejar-se em fins dos anos sessenta por um grupo cultural francês conhecido como “nouvelle droite“.

Seu animador principal vai atribuir, não a Scheler senão ao marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937), a paternidade da ideia ao sustentar explicitamente que: “Gramsci mostrou que a conquista do poder político passa pela do poder cultural.”

Assim pois, a metapolítica em uma primeira acepção significa a tarefa de desmitificação da cultura dominante cuja consequência natural é retirar sustentação ao poder político, para finalmente substituí-lo, e para esse fim último há que fazer política.

E aqui surge o paradoxo da nouvelle droite, desde este ponto de vista, e é que adotando esta primeira acepção quis desenvolver metapolítica sem política. Assim afirma-o enfaticamente seu fundador quando sustenta: “Onde nós sempre situamos nossa ação é sobre um plano metapolítico ou trans político, ao mesmo tempo cultural e teórico, e é esta uma vocação que não saberíamos mudar.” Sobre este tema, o politólogo Marco Tarchi observa que a nouvelle droite não leva a cabo nenhuma ação política partidária, pois considera que os partidos políticos foram superados em poder e iniciativa pelos mega-aparatos da mídia de massa e que, é ali onde esta corrente de pensamento tenta levar adiante a disputa.

Não obstante esta acertada observação, o fato de autolimitar-se e limitar a metapolítica a uma tarefa cultural sem projeção política, tende a reduzir esta corrente a uma espécie de torre de cristal cartesiana onde a competência por sutilezas teóricas substitui, muitas vezes, ao compromisso com a realidade política por parte de seus cultores.

Uma segunda significação do conceito de metapolítica encontramo-a na convergência, sobre este tema específico, das correntes hermenêuticas e analíticas. A filosofia hermenêutica, ao ter a preocupação pela história dos conceitos que leva a cabo através da reflexão sobre a linguagem com o resgate do “contexto” dos conceitos políticos enquanto condição indispensável para compreender, converge com a crítica analítica dos conceitos, com a diferença de que esta última tende à adoção de uma linguagem conceitual unívoca como o das ciências duras.

Manfred Ridel (1936-2009), discípulo e continuador de Leo Strauss (1899-1973) , afirma esta coincidência explicitamente ao sustentar que: “A metapolítica exige uma analise dos conceitos no sentido de uma reflexão hermenêutica e analítica das atuais opiniões políticas pré-concebidas, que é a que há de abrir o acesso a uma política sem metafísica política.”

Vemos pois, claramente, como a intenção desta linha interpretativa consiste em tentar a dissecação das opiniões políticas pré-concebidas através da análise da linguagem política porém sem predicação de existência, pressuposto metafísico da filosofia analítica. Isto é, uma filosofia sem metafísica.

Observa-se nesta segunda acepção de metapolítica um paradoxo irresoluto, pois enquanto que a hermenêutica sabe que toda interpretação pressupõe uma valoração, e enquanto que analítica, autolimita-se ao terreno exclusivamente neutro-descritivo, com o agravante da suspensão do juízo de valor, como consequência da não predicação de existência.

Esta concepção da metapolítica tendente a eliminar toda metafísica política da política, não devém em outra coisa que na justificação do status quo reinante.

Uma terceira acepção da metapolítica está dada pelo que denomina-se tradicionalismo, corrente filosófica que ocupa-se do estudo de um suposto saber primordial comum a todas as civilizações. Cabe distinguir este tradicionalismo que por definição é histórico, da tradição de um povo particular como história de valores a conservar.

O máximo representante desta corrente, neste tema, é o italiano Silvano Panunzio que em sua obra “Metapolítica: A Roma Eterna e a nova Jerusalém” ocupa-se detalhadamente dos fundamentos da metapolítica e sua funcionalidade em nosso tempo.

Não obstante, é seu continuador o agudo pensador ítalo-chileno Primo Siena, quem melhor define esta significação de metapolítica quando sustenta:

“Transcendência e metapolítica são conceitos correlativos, por ser a metapolítica veraz expressão de uma ciência não profana e sim sagrada; ciência que portanto eleva-se à altura de arte régia e profética que penetra no mistério escatológico da história entendido como projeto providencial que abarca a vida dos homens e das nações. Por conseguinte, a metapolítica expressa um projeto que – pela mediação dos Céus – os homens retos esforçam-se de realizar na terra, opondo-se às forças infernais que tentam resistir-lhes.”

Desprende-se da longa citação precedente que para esta interpretação a metapolítica é o fundamento último da política e por sua vez estabelece o paradigma em função do qual a política deve atuar. Em definitivo, para esta linha interpretativa, a metapolítica é a metafísica da política.

Temos visto três claras acepções da noção de metapolítica, em primeiro lugar, aquela da nouvelle droite que pretende fazer metapolítica a seca; isto é, sem política. Em segundo termo, temos a postura analítico-hermenêutica que aspira a realizar metapolítica sem metafísica política. E por último, temos a posição do tradicionalismo esotérico que tenta fazer metapolítica como metafísica política.

Ante este quadro, forçosamente sucinto, da polêmica em torno ao medular conceito de metapolítica, cabe perguntar-se se as posturas são contraditórias, complementares ou se, em todo caso, existe a possibilidade de oferecer outra acepção.

Existe uma certa coincidência entre as duas primeiras correntes enquanto a metapolítica ser uma reflexão crítica acerca dos preconceitos da política. Enquanto que a diferença entre ambas encontra-se na relação entre metapolítica e política. Assim, enquanto a nouvelle droite nega toda relação, a analítica-hermenêutica afirma que “abre o acesso à política”. Dá-se nesta comparação uma coincidência metodológica e uma dissidência de caráter funcional.

Se comparamos agora, estas duas correntes com a terceira, não existe nem mesmo uma coincidência de caráter metodológico, dado que o tradicionalismo não propõe-se um acesso metódico ao saber metapolítico, senão limita-se a propor um paradigma metapolítico – a cidade primigênia como cidade espiritual ou civitas Dei – à atividade política. E se bem há uma certa coincidência com a corrente analítico-hermenêutica enquanto que as duas outorgam funcionalidade política à metapolítica, ambas entram em flagrante contradição posto que uma propõe uma política sem metafísica enquanto que o tradicionalismo alenta uma metafísica política.

Conclusão

Sem pretender esgotar o tema e ao mesmo tempo evitar cair em um sincretismo acomodador nós propomos a seguinte acepção de metapolítica.

Como seu nome indica-o em grego “thá methá politiká”, a metapolítica é a disciplina que vai mais além da política, que transcende-a, no sentido de que busca sua razão última de ser, o fundamento não-político da política. É uma disciplina que tem uma dupla face, é filosófica e política ao mesmo tempo.

É filosófica enquanto que estuda em suas razões últimas as categorias que condicionam a ação política dos governos em turno, pois, “entende a política desde as grandes ideias, a cultura dos povos, os mitos mobilizadores da história.”

E é política, enquanto busca com seu saber criar as condições “para suplantar aos governantes e mantenedores da presente condução”, segundo palavras de Max Scheler.

Como disciplina filosófica exige um método e este poder ser o fenomenológico-hermenêutico, realizando a “epoché” (suspensão) das opiniões pretéritas, pré-conceituais ou ideológicas, para tentar uma descrição eidética (dos traços essenciais) o mais objetiva possível dos “fatos mesmos”. Para, em um segundo momento, passar à interpretação da linguagem política.

Até aqui coincidiríamos em parte com a segunda corrente, porém a metapolítica, para nós a contrario sensu que esta, não pode ficar em um mero juízo descritivo, senão que por seu duplo caráter de filosófica e política está obrigada a emitir juízos de valor tentados. E isto último, a emissão de juízos de valor na crítica cultural, não conformista e contra-corrente ao discurso da mídia de massa do establishment é o mérito mais significativo da nouvelle droite.

Enquanto à terceira acepção, a do tradicionalismo, acreditamos que a mesma vincula-se muito mais estreitamente, tanto por seu saber iniciático e esotérico como por sua proposta paradigmática, a uma teologia política do que a uma disciplina reflexiva e exotérica como a metapolítica.

Ademais, a metapolítica enquanto disciplina bivalente não é um pensamento simplesmente teórico senão que exige abrir-se à ação política como produtora de sentido dentro do marco de pertencimento ou ecúmena cultural onde situa-se o metapolítico.

Resumindo nossa proposta, temos uma disciplina cujo objetivo é duplo. É filosófico (ocupa-se dos fundamentos não-políticos da política) e políticos (ocupa-se da projeção político-social de ditos fundamentos). Que pode utilizar com proveito o método fenomenológico-hermenêutico, porém que por seu caráter de bivalente está obrigada a emitir juízos de valor (práticos) e não somente juízos descritivos (teóricos). Ao tempo que por sua própria índole exige o acesso à política.

Fonte: BUELA, Alberto. “Disyuntivas de Nuestro Tiempo – Ensayos de metapolitica”. Prólogo de Aquilino Duque. Ediciones Barbarroja, Madrid 2012.

Sobre o autor

Alberto Buela Lamas nasceu em Buenos Aires, Argentina, 1946. Ele é um filósofo que trabalhou em três tópicos específicos: metapolítica, teoria da dissidência e teoria da virtude.

Destaca-se como o fundador da metapolítica na América. Suas obras a este respeito são múltiplas e variadas: “Qué es metapolítica” (O que é metapolítica); Metapolítica y Tradicionalismo” (Metapolítica e Tradicionalismo); El katechon como Idea Metapolítica” (O Katechon como Ideia Metapolítica), Algo más sobre Metapolítica” (Algo mais sobre Metapolítica), Metapolítica de lo Social” (Metapolítica do Social); Suramérica como Katechon Metapolítico” (América do Sul como Catatônica Metapolítica); Visión Metapolítica de la Elección del Papa” (Visão Metapolítica da Eleição do Papa), etc.

Publicou mais de 200 artigos acadêmicos no exterior e uma quantidade de livros, tanto sobre filosofia clássica e contemporânea, quanto sobre política, geopolítica e metapolítica. Seu pensamento é baseado em autores clássicos como Platão e Aristóteles e em autores europeus contemporâneos como Scheler, Heidegger e Bollnow, e em americanos como McIntayre, Wagner de Reyna, Nimio de Anquín e Saúl Taborda, entre outros. Como propulsor na América do estudo da metapolítica, como uma interdisciplina que estuda as grandes categorias que condicionam a ação política, propôs a teoria da dissensão, contrario sensu da Escola de Frankfurt, como a mais apropriada para criar a teoria crítica.

Alberto Buela

Alberto Buela (1946 -) nasceu em Buenos Aires, Argentina. É um filósofo atuante em três tópicos específicos: metapolítica, teoria da dissidência e teoria da virtude. Ele também foi o fundador e diretor da revista Disenso de 1994 a 1999.
Sua alma mater é a Universidade de Buenos Aires (1972) e a Universidade Paris-Sorbonne (MA, 1981; PhD, 1984). Buela foi altamente influenciado por filósofos latino-americanos como Gilberto Freyre, Saúl Taborda e Julio Ycaza Tigerino. Ele também listou como influência a obra fenomenológica de Max Scheler , o existencialismo de Martin Heidegger, Hegel, Aristóteles e as teorias práticas de Carl Schmitt.

Seu trabalho foi baseado em uma troca com a fenomenologia como método e nos conceitos expostos por Heidegger em suas obras. Buela é autora de inúmeros livros e artigos sobre metapolítica, ontologia , filosofia política , entre outros tópicos.

Professor de filosofia na Universidade Tecnológica Nacional e na Universidade de Barcelona, ele é mais conhecido por seus trabalhos filosóficos sobre a metapolítica, Aristóteles e Peronismo. Buela também trabalha como pesquisadora na Universidade de Barcelona.

Ele se destaca como o fundador da metapolítica na América. Suas obras a este respeito são múltiplas e variadas. Para suas exposições éticas, é possível ressaltar que ele trabalhou na recuperação do sujeito das virtudes e dos valores.
Alberto Buela

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