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Esse pequeno comentário poderia se intitular “um filósofo crioulo responde os europeus”, pois vários amigos acabaram de me enviar um artigo publicado no periódico de esquerda Página 12 e outro da agência liberal progressista Infobae, intitulados mais ou menos assim: “O que pensam os filósofos sobre o coronavírus“. E ali aparecem as opiniões de Zizek, Byung Chu, Harari, Agamben, Chomsky, Esposito, Jean Luc Nancy e algum outro.

Todos esses filósofos – dos quais, na minha opinião, a maioria sequer é – falam sobre o futuro: que cairá a sociedade capitalista, que se instaurará o novo socialismo, que virá um totalitarismo sutil de manipulação das massas, etc, etc. Todas premonições, todas prognosis.

A sã filosofia, isto é, aquela que se realiza reflexivamente, aconselha, desde sempre, que a filosofia “como a coruja de minerva, saia para voar ao anoitecer” (Hegel). Isto é, quando a realidade se põe, quando o fenômeno acaba, quando está findado. E isso não ocorre com a pandemia do coronavírus, pois está em pleno desenvolvimento. Já Weber, Sombart e outros tantos grandes sociólogos aconselhavam que, diante de um fenômeno massivo como uma praga ou um grande evento, é conveniente deixar que se desenvolva antes de se pôr a estudá-lo. Do contrário, apenas realizaríamos conjecturas e não ciência.

E isso é o que se passou com esses “filósofos europeus”, falaram por falar, falar inutilmente; foram vítimas de uma das características da existência inautêntica da qual fala Heidegger em Ser e Tempo: os boatos. Isso da coruja de Minerva já estava no mito de Prometeu quando, na caixa de Pandora, permaneceu guardada a Élpis, que os tolos por completo traduziram por “esperança”, quando, na realidade, significa a espera ou, melhor ainda, a prognosis.  Ensina que o homem não pode conhecer o futuro, mas, no máximo, conjecturar sobre ele.

Do que não se pode falar, calar-se-á, aconselha Wittgenstein, na frase final de seu Tractatus. E o velho Sócrates dizia: tenho um daimon (=voz interior) que me diz quando devo me calar. Como vão ser filósofos se não podem fechar o bico e, além disso, falta-lhes o daimon  ou algo parecido. Nenhum deles esboçou falar das causas do coronavírus, como pode ser por manipulação genética e coisas afins, que fugiram do controle das ciências exatas.

Quando muitos dos meus amigos me exigem diariamente que escreva sobre o coronavírus, respondo-lhes que a filosofia não é horóscopo, não é adivinha, é um saber reflexivo, que, em algum momento, pode-se traduzir em sabedoria existencial, mas isso supõe um trabalho profundo numa ascese espiritual que não é para todos.

Traduzido por Breno Costa

By Alberto Buela

"arkegueta" (aprendiz constante), autor, articulista, conferencista internacional, filósofo e professor de filosofia argentino. Escreve sobre metapolítica, teoria do dissenso, teoria da virtude e peronismo. Fundador e diretor da revista Disenso (1994-1999). Professor de renomadas universidades em Buenos Aires, Barcelona e Paris (Sorbona). Teórico do iberoamericanismo, referencia-se pelas obras de Gilberto Freyre, Saúl Taborda e Julio Ycaza Tigerino. A fenomenologia de Max Scheler, o existencialismo de Martin Heidegger, Hegel, Aristóteles e as teorias práticas de Carl Schmitt são outras de suas influências. Destacou-se como o fundador da metapolítica na América.

One thought on “Alberto Buela: Filósofos e o coronavírus”
  1. “E ali aparecem as opiniões de Zizek, Byung Chu, Harari, Agamben, Chomsky, Esposito, Jean Luc Nancy e algum outro.

    Todos esses filósofos – dos quais, na minha opinião, a maioria sequer é – {…}”

    Penso assim também em relação a muitos pretensos filósofos.

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