A Europa é Uma Colônia dos Mercados Financeiros

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O conhecido escritor e filósofo francês Alain de Benoist, nesta entrevista exclusiva, dá sua opinião sobre o que ele chama de Europa continental ocupada e eventos atuais, como a tentativa dos EUA de deter o Nord Stream 2 e o poder dos mercados.

Qual o impacto da ocupação nos ocupados? O liberalismo reconhece apenas uma forma de soberania: a do indivíduo. Assim, povos, nações e culturas são vistos apenas como agregados de indivíduos cujas relações essenciais são reduzidas a contratos legais e trocas de mercado. Os europeus se tornaram consumidores na esfera anglo-americana – eles não são mais cidadãos de seus respectivos países, acredita Benoist.

Sr. de Benoist, o embaixador dos EUA em Berlim, escreveu cartas de chantagem há algumas semanas para empresas alemãs envolvidas na construção do Nord Stream 2. O direito americano de se sentir em posição de força sobre a Alemanha e a Europa?

Benoist: os americanos se sentem fortes porque sabem que os europeus são fracos. As notícias provam todos os dias que a União Europeia não é uma potência europeia, mas apenas um mercado europeu. Neste mercado, no entanto, os americanos têm uma alavancagem significativa. Um dos princípios mais importantes é a extraterritorialidade da lei dos EUA. Isso permite que Washington se defenda de operações e influências financeiras ou comerciais. Por exemplo, vários bancos franceses foram multados em bilhões de euros por não levar em conta as sanções dos EUA contra este ou aquele país.

Pergunta curta: A Alemanha, a Europa – ou melhor, a UE – é um “território ocupado”?

Benoist: Sim, podemos falar de um “território ocupado”, mas o termo “ocupação” é ambíguo. Nós não estamos em um tipo brutal de heteronomia, mas em um condicionamento progressivo pelo chamado “soft power”. Pode-se falar também de “colonização” – mas de uma colonização que começou com a colonização de atitudes e valores.

Existe algum tipo de “Síndrome de Estocolmo” – isto é, que o ocupante demanda ocupação?

Benoist: Conhecemos o exemplo de escravos que amam suas correntes. No que diz respeito aos EUA, os europeus contentam-se com o domínio dos EUA e também com a cumplicidade, precisamente porque as suas ideias, o seu quadro de referência e os seus valores foram colonizados por influências e modas do exterior. A partir de então, eles só podem pensar dentro da ideologia predominante, que, como sempre, é a ideologia da classe dominante.

E a França sob Macron? A França é uma “zona ocupada”? A França não tem um forte senso de independência e soberania?

Benoist: A soberania francesa, cujo melhor e mais conhecido representante foi o general Charles de Gaulle, é hoje pouco mais que uma lembrança. A França não foi poupada da onda de erosão da soberania que foi uma das consequências da globalização capitalista liberalizada. Os estados-nação foram gradualmente roubados de sua soberania política, econômica, financeira e até mesmo militar, sem mover essa soberania perdida para um nível mais alto. Carl Schmitt disse com razão que aquele que decide é soberano.

Quem decide hoje?

Benoist: Hoje são os mercados financeiros que impõem suas decisões.

Como o chamado “catálogo liberal de valores transatlântico” influencia a vida na Alemanha e na Europa?

Benoist: Primeiro, através das redes de informação, a indústria do entretenimento, a proliferação dos chamados “gigantes da Internet” (o “sistema GAFA”: Google Apple Facebook Amazon). Mais geralmente, no entanto, os estados mentais podem ser explicados pelo desaparecimento dos marcadores existenciais causados ​​pela lógica do capital. O capitalismo é baseado em uma lógica de imoralidade (hubris) e infinito. Isso torna necessário remover todas as barreiras culturais, políticas e sociais que impedem a expansão global agressiva do mercado. Isso nos leva a um sistema em que nada vale nada, mas tudo tem um preço.

Que impacto psicológico-cultural tem a hegemonia americana?

Benoist: A América é o principal vetor do sistema capitalista, mas não é seu centro. Tal sistema não tem centro, e é inútil encontrar “os responsáveis”. Karl Marx falou corretamente de um “automatismo”. As principais consequências dessa hegemonia são a crença no progresso, a crença nos chamados “direitos humanos”, a crença de que apenas os valores do mercado são importantes. Soma-se a isso o dano causado na Europa pela disseminação maciça de idéias especificamente americanas, como a correção política e a chamada “teoria do gênero”.

Pode um povo esquecer ou até “desaprender” a soberania?

Benoist: Claro! A única forma de soberania reconhecida pelo liberalismo é a soberania do indivíduo baseada no “homo economicus”. Povos, nações e culturas são, aos olhos dos liberais, apenas agregados de indivíduos cujas relações essenciais são reduzidas a contratos legais e trocas de mercado. Nesta perspectiva, as pessoas se definem como consumidores e não como cidadãos.

A “União Europeia” é mesmo uma construção europeia? Ou na realidade transatlântica?

Benoist: A União Europeia foi construída desde o início, apesar do bom senso. Seus horizontes políticos e ideológicos sempre foram a democracia liberal, a ideologia dos direitos humanos e a lógica capitalista. Durante a Guerra Fria, foi o anticomunismo que estava naturalmente ligado aos Estados Unidos. Naquela época, era sobre a defesa do “mundo livre”. Após o colapso do sistema soviético, essa posição não era mais necessária: a OTAN deveria ter desaparecido simultaneamente com o Pacto de Varsóvia. Mas os Estados Unidos nunca desistiram de sua hostilidade à Rússia, que sempre foi a verdadeira base de sua inimizade em relação à União Soviética. É por isso que Washington ainda quer uma Europa que não seja orientada e se mova para o leste.

Em que medida a imigração em massa desenfreada para a Europa está associada ao estado de ocupação?

Benoist: De uma perspectiva liberal, a imigração não é o problema real: não são os turcos, os argelinos, os malianos ou os afegãos que se instalam na Europa, mas apenas pessoas solteiras, indivíduos consumidores. Porque não reconhecemos mais as diferenças de cultura, religião, etc., as pessoas são intercambiáveis. Os empregadores têm usado a imigração desde o início para reduzir os salários. A “esquerda moral”, que está no terreno “humanitário” da imigração, contribui para o uso deste “Exército de Reserva do Capital”. Assim, ele atua como o fiador de esquerda do aparato do capital político. Tudo isso obviamente não tem nada a ver com o que o socialismo uma vez foi.

Qual o papel das identidades culturais, nacionais, regionais e religiosas nos “valores transatlânticos”?

Benoist: Como eu disse antes, um papel secundário. As identidades coletivas não têm valor na visão de mundo “transatlântico”, capitalista e liberal. A ideologia dos direitos humanos, baseada na teoria dos direitos subjetivos resultante do nominalismo medieval, sugere que somos principalmente humanos e secundariamente homens ou mulheres, ou habitantes deste ou daquele país. Nós também não somos mais portadores desta ou daquela cultura, falemos esta ou aquela linguagem.

Isso não contradiz o senso comum?

Benoist: Sim. No mínimo, pertencemos à humanidade apenas pela mediação de uma cultura que, para salvaguardar sua identidade, deve dominar as condições de sua reprodução social.

Existe uma maneira pacífica de sair da ocupação?

Benoist: Primeiro de tudo, devemos concordar em acabar com a “ocupação”. Então vemos por que meios.

Como você vê o papel da Alemanha e da Europa entre os polos de poder do Ocidente, da Rússia e da China?

Benoist: Em um mundo cada vez mais multipolar, as principais categorias da geopolítica estão recuperando importância. A distinção fundamental entre a terra e o mar, as potências terrestre e marítima, que definem a distinção entre política e comércio, sólido e líquido, área e rede, fronteira e rio, se tornará mais importante novamente. A Europa deve deixar de depender do poder marítimo dos EUA e de se solidarizar com a lógica continental da Terra.

Fonte: Free West Media

Publicado originalmente em 25/2/2019.

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Alain de Benoist

Escritor filósofo em Les Amis d´Alain de Benoist
Alain de Benoist (1943 – ) é um acadêmico e jornalista francês formado em Direito (Universidade de Paris, especializado em Direito Constitucional) e Filosofia (Universidade de Sorbonne, especializado em Sociologia e História das Religiões). De vasta obra literária, escreveu mais de 60 livros assim como ultrapassou a marca de 4500 artigos escritos, 50 teses universitárias, e 140 reportagens, e na atualidade é uma das mais respeitadas autoridades sobre a cultura ocidental. Por quatro anos foi editor da revista semanal L'Observateur europée, depois foi editor da L'Echo de la presse et de la publicité's, em 1969 assumiu o cargo de editor da Nouvelle Ecole, cargo que ocupa até hoje, e desde 1988 tem sido editor da revista Krisis.

Dentre seus livros foram traduzidos para português:

Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas; Editora Afrodite, 1981, Lisboa – Portugal.

Comunismo e nazismo – 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917 – 1989), Editora Hugin, 1989, Lisboa – Portugal.

Odinismo e Cristianismo no Terceiro Reich – a Suástica contra a Irminsul – Editora Antagonista, 2009, Portugal; capítulo A fábula de um “paganismo nazi”.

Para Além dos Direitos Humanos – defender as liberdades – Editora Austral, Porto Alegre, 2013.
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