Nenhum museu dos anos vinte, o fascismo não acaba sob uma vitrine. E graças a Deus

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Roma, 4 de agosto – Felizmente, a ideia de um museu do fascismo a ser instalado em Roma parece ter desaparecido antes mesmo de tomar forma. No entanto, foi divertido ver a emoção de terror de Raggi [1] e da esquerda com a mera ideia de que tal museu, independentemente das intenções dos organizadores, pudesse se tornar um polo de atração para os simpatizantes de Mussolini. É sempre revigorante testemunhar esse estado de alerta constante, essa proibição incessante, essa histeria moralista em que se baseia o antifascismo, no medo constante de que as defesas imunológicas contra o mal absoluto sejam afrouxadas. É bom vê-los assim, fanáticos sem fôlego, policiais da memória, puritanos com a síndrome do cerco, incapazes de qualquer autolegitimação minimamente positiva.

É bom que este museu sobre o fascismo não seja construído

Mas, fora isso, é bom que este museu não seja construído. Essa minha crença talvez vá ao encontro do ceticismo daquela direita que, em resposta à iconoclastia de Black Lives Matter, recentemente descobriu sua vocação de museu, mas a verdade é que essa ideia só teria problemas. Primeiro, porque a Itália tem uma relação que não se reconcilia com o fascismo e, portanto, o museu teria sido colocado sob a supervisão da ANPI [2] e teria colecionado apenas uma coleção de erros e horrores. Claro, a força dos símbolos é tão poderosa que, provavelmente, mesmo uma exibição de respingos assim teria acabado evocando sugestões politicamente indesejáveis. Em suma, teria sido divertido da mesma forma. Mas a questão, para ser honesto, não é nem isso.

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O fascismo não pode ser “normalizado” (felizmente)

A verdadeira razão pela qual este museu não existe é outra, mesmo que ainda tenha a ver com a relação inconciliável que a nossa sociedade tem com os vinte anos. A questão é que essa falta de conciliação é, afinal, um legado precioso a ser mantido por perto. O fato de o fascismo representar algo incongruente, algo que não pode ser assimilado, que não pode ser normalizado é a melhor prova de sua vitalidade. Não do Regime, não de suas formas externas, não de suas estruturas, mas de ser um fenômeno histórico que tocou cordas e marcou bacias que ainda estão vivas e sangrando na carne.

A história faz sentido porque é divisiva

Eu entendo que isso pode soar estranho aos ouvidos da Brigada Montanelli, mas a história faz sentido mesmo que divisiva, na verdade, tem justamente porque é divisiva, porque divide os campos, porque causa discussão, porque é um campo de batalha entre hegemonias, porque causa revisões, reescritas, sobrescritas, cancelamentos, redescobertas. O fascismo sob um relicário não pode ficar aí. Isso é bom. Além disso, seria um absurdo que Mussolini acabasse no museu agora que Júlio César e Napoleão também estão partindo. A época presente, isto é, propicia um re-questionamento do espírito conciliador com que até poucos anos atrás víamos épocas mais fixas em nossa memória. Tudo é questionado, todo um passado é desafiado em todas as suas facetas, o significado puramente político de um legado antes considerado neutro é redescoberto. Dante e Leopardi voltam à arena da hegemonia. E agora nós gostaríamos de tirar Mussolini disso? Ele não ficaria nada feliz.


Fonte: Il Primato Nazionale


[1] Nota da edição: O autor faze referência a Virginia Elena Raggi, advogada e política italiana atual prefeita de Roma desde 2016 filiada ao Movimento 5 Estrelas, se tornando a primeira prefeita de Roma.

[2] Nota da edição: Com sede em Roma, Itália, a ANPI (Associazione Nazionale Partigiani d’Italia) é uma associação fundada por participantes da Resistência italiana contra o regime fascista italiano e a subsequente ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. A ANPI foi fundada em Roma em 1944, enquanto a guerra continuava no norte da Itália. Sua atual presidente é Carla Federica Nespolo, a primeira mulher comunista do Parlamento italiano.


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Adriano Scianca
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