Direitos humanos: uma religião secular

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A Edições Fides publica um clássico de Alain de Benoist sob o título “Direitos humanos; Desconstrução de um Mito Moderno”, obra na qual também colaboram outros autores, como Rodrigo Agulló, Jesús Sebastián Lorente e Charles Champetier. O livro desmascara as falácias dessa religião moderna secular em que se transformaram os Direitos humanos, fazendo-se arma de propaganda da globalização neoliberal.

Na pluralidade ruidosa e multiforme que caracteriza o sistema – pluralidade ilusória sob todos os aspectos e tendente a mascarar a substancial convergência de suas formas – destaca-se, pela unanimidade que o rodeia, o tema dos “direitos humanos”. Hoje em dia não há ninguém – ninguém – que tenha a coragem de publicamente se declarar um desafeto da moral dos direitos do homem e da filosofia na base deles. Isso pode ser facilmente comprovado com a simples observação do “debate” que rola nestes dias de guerra, debate destinado essencialmente a “demonstrar” se o melhor modo de exportar os valores “universais” dos direitos do homem para o mundo é mediante a utopia cosmopolita e pacifista ou por meio do temerário pragmatismo ianque a la Bush. Duas perspectivas, como se vê, tão distantes e ainda assim muito próximas; nenhuma das duas, sob qualquer aspecto, distancia-se dos mesmos valores de fundo e da mesma ideologia implícita. Os direitos humanos seguem sendo sempre o pressuposto, o valor supremo tacitamente assumido.

Em virtude disso, compreender a essência dessa moderna religião, descobrir suas origens e seu desenvolvimento parece-nos hoje essencial para qualquer pessoa disposta a se bater contra o Sistema, sem ter embotadas logo de saída as suas armas, ficando como quem combate o fogo com gasolina.

Genealogia da Doutrina dos Direitos Humanos

Os “direitos do homem” são a suprema expressão do igualitarismo, ou seja, daquela tendência histórica que nasce e se afirma pela primeira vez na história com o judaico-cristianismo e, posteriormente, no seguir da história, ramifica-se em variantes laicas (democracia liberal, comunismo, mundialismo etc.).

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi o documento saído da síntese ideológica da Revolução Francesa (1789), onde grupos ocultistas ideológicos disputaram o poder para derrubar a Ordem real, definindo os direitos individuais e coletivos dos homens como universais, influenciados pela doutrina dos “direitos naturais”. No quadro, o “Olho da Providência” brilhando representa a “homologação divina” às normas presentes (que divindade? Que ordem?). Claro rastro do tipo de ordens que tais homens pertenciam e seus verdadeiros fins. I Imagem: quadro de Jean-Jacques Le Barbier, 1789.

A fase originária – a qual Giorgio Locchi chama “mítica” – do igualitarismo já contém toda a potência de seus desenvolvimentos futuros, ainda que de forma latente e não expressa. Nisso se encaixa também a doutrina dos direitos humanos. Com efeito, Stefano Vaj adverte que o monoteísmo judaico-cristão contém, em sua primeira formulação, todos os postulados teóricos que se encontram na base da moderna doutrina dos direitos do homem: a crença num direito natural cuja validade transcende todo direito positivo concreto e que é expressão de uma moral objetiva e universal; a afirmação da primazia do indivíduo sobre toda comunidade orgânica, afirmação diretamente consequente da ideia de salvação individual; a crença na existência de uma “pessoa humana” independente de toda determinação concreta, isto é, o primado do “Homem” tout court ante todos os homens historicamente situados; a mentalidade universalista e cosmopolita que considera o gênero humano como unidade indiferenciada em relação à qual toda pertença é um acidente sem relevância.

Todos esses mitemas estão presentes de modo claro e explícito na formulação originária da tendência histórica igualitarista; o que não quer dizer, entretanto, que na Bíblia estejam expressos, também de modo explícito, os mesmos direitos do homem tais quais os conhecemos hoje. Até chegar a isso, o igualitarismo deveu desenvolver-se totalmente, atravessando e consumando completamente sua fase “ideológica” – usamos sempre a linguagem de Locchi – a fase, portanto, na qual as diferentes ideologias irmãs, provindas do mesmo berço, alinham-se umas contra as outras. Esta é a fase histórica entre a afirmação do protestantismo e o final do oitocentos.

Por toda essa época, as distintas formas ideológicas do igualitarismo, deslembradas de sua origem comum, digladiam-se, cada uma arrogando-se a primazia na afirmação da mesma visão do mundo. Os fundamentos teóricos da doutrina dos direitos humanos surgem de modo cada vez mais evidente no interior da reflexão igualitarista (pensamos em Grocio, em Locke, em Kant, na constituição estadunidense, nas declarações solenes da França pós-revolucionária, nos ideais da fraternidade universal que constantemente emergem na tradição marxista etc.), e, apesar disso, não se pôde “recompor a ruptura”, como dizia Benjamin.

Falta o quê? O óbvio: falta um inimigo absoluto ante o qual coligar-se e reencontrar a unidade perdida. Este inimigo, quase nem é preciso dizer, está representado pela manifestação na cultura europeia de uma tendência nova, anti-igualitária e anti-humanista, que logo se cristaliza politicamente nos movimentos fascistas europeus. Na guerra contra o fascismo é que o igualitarismo encontra sua síntese final sob a bandeira dos direitos humanos. Esta unidade reencontrada terá a sua celebração na farsa judicial de Nuremberg. Todo o período posterior à Guerra servirá para limpar tudo de todo “resíduo ideológico”. Nesse sentido se entende o afã com que os “progressistas”, durante toda a metade do novecentos, buscaram um comunismo “de rosto humano”, um ideal de libertação depurado finalmente de toda veleidade revolucionária, de todo impulso de heroísmo, de toda tentação autoritária – em meio a crises de fé, arrependimentos, conversões, apostasias e psicodramas. Isso por que eles ansiavam, eles o encontraram no culto dos direitos humanos, verdadeiro ponto de convergência de todas as ideologias igualitárias antigas e novas, instância comunial para todos os que haviam lançado o hábito da revolução às urtigas e para os maoistas em crise de consciência. O ano de 1989, ano da queda do muro de Berlim – e bicentenário da revolução francesa… – representará, pois, o momento do triunfo da doutrina dos direitos humanos como nova religião laica do Sistema.

Triunfo de Uma Moral

ONU debate agravamento da crise provocada na Venezuela.- Agência Brasil. Foto: ONU/Elma Okic

Havendo sido elevada definitivamente a “horizonte moral de nossos tempos” (Robert Badinter), a religião dos direitos humanos celebra hoje seu triunfo e sua expansão planetária. Vírus ideológico de capacidade etnicidade quase total, esta moral presuntivamente universal proporciona a armadura ideológica para um neocolonialismo que, em vez do “fardo do homem branco”, tem hoje como justificação um coquetel devastador de angelismo e hipocrisia. “Tratando de impor norma moral particular a todos os povos, (a religião dos direitos humanos) pretende voltar a dar boa consciência ao Ocidente, permitindo-lhe, uma vez mais, instaurar-se como modelo e denunciar como bárbaro a quem rechaçar esse modelo” (Alain de Benoist).

A destruição dos povos passa também, a partir daqui, pela imposição dos “valores” ocidentais em escala planetária e pela consequente desintegração de todo vínculo orgânico, de toda tradição particular, de todo resto de comunidade – obstáculos, todos esses, para a tomada de consciência da nova “identidade global” por parte do cidadão da era da globalização. Como edificar a sociedade multirracial? Evidentemente extirpando toda identidade precedente (e, destarte, toda diferença). A eliminação das diferenças é o a priori transcendental, a condição de possibilidade da sociedade multirracial. Porém, como preencher esse vazio? Recorrendo-se necessariamente a um instrumento abstrato (e, por isso, ideológico). Respondendo, então: a resposta é o direito; unir todos os homens mediante o direito… A resposta é óbvia: por meio de uma concepção abstrata e antipolítica dos direitos do homem. Se a globalização é nosso destino – como reza a vulgata – então os direitos humanos trazem consigo uma verdade pararreligiosa, sendo verdadeiramente a expressão de uma moral com fundamento num renovado “sentido da história”. Pretendendo-se verdade auto evidente (cf. a Declaração de Independência americana: “Consideramos como verdade evidente por si mesma que os homens nascem iguais…”), a moral dos direitos humanos erige-se em dogma, subtraindo-se a todo questionamento. Quem a isso se opõe, ou aquele que simplesmente se mostra indiferente, situa-se contra uma espécie de Verdade inatacável, contra uma espécie de Lei imanente na história; esse é um herege, blasfemo, inimigo do Homem. Daí o ardor inquisitório da “nova classe” contra povos e indivíduos increpáveis de transgredir os dogmas do politicamente correto.

E Daí?

Não aceitemos os lugares-comuns induzidos pelo Sistema: rechaçar a doutrina dos direitos do homem não significa tomar partido a favor do extermínio, da injustiça ou do ódio. Seja lá o que for dito da Declaração Universal, não é o reconhecimento de tal doutrina o que funda “a liberdade, a justiça e a paz no mundo”. Liberdade, justiça e paz já existiam antes que a expressão “direitos humanos” tivesse algum sentido.

O reconhecimento dos direitos humanos, por si mesmo, não funda em realidade nada mais do que o tipo de justiça e de liberdade que, tautologicamente, se encontra expresso…na doutrina dos direitos humanos! Em que pese o fato de os defensores de tal doutrina continuarem pensando que eles “inventaram a felicidade”, urge afirmar com decisão que outra justiça, outra liberdade, outra paz são possíveis. Contestar os direitos humanos significa recusar uma moral, uma antropologia, uma certa ideia das relações internacionais e da política, uma visão do mundo global filiada em tendência histórica claramente identificável; contestar os direitos humanos “é o primeiro e fundamental gesto subversivo que se impõe a quem quiser combater o universalismo mercantilista ocidental para regenerar a história”.

Fonte: El Manifesto

Publicado originalmente em 21/12/2016.

Edição: André Marques I Diego Sant´Anna.

Tradução de Chauke Stephan Filho

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Adriano Scianca

Adriano Scianca em Il Primato Nazionale
Nascido na Itália, 1980, é formado em Filosofia pela Universidade Sapienza de Roma e é jornalista profissional. Trabalhou com os jornais "Libero" e "Il Foglio", atuou na redação do "Secolo d'Italia" e atualmente escreve para "The Truth" e é diretor do jornal online "Il Primato Nazionale", assim como chefe nacional de cultura da CasaPound Italia.

Entre seus ensaios, estão citados:

"Riprendersi tutto" (Aga, 2011)

"Ezra fa surf" (Zero91, 2013)

"Lidentità Sacra Dèi, Popoli e Luoghi Al Tempo Della Grande Sostituzio" (Aga, 2016)

"L'ità sacra" (Aga, 2016)

"Contro l'eroticamente corretto: uomini e donne, padri e madri nell'epoca del gender" (Bietti, 2017)

"La nazione fatidica. Elogio politico e metafisico dell'Italia" ( Altaforte Edizioni, 2019)
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