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Não estou falando de “futilidades” aqui. E sim do que certas coisas informam sobre o todo, o que escondem/relevam sobre a sociedade.

O que o surfe e o skate têm em comum com as futuras modalidades olímpicas já oficializadas ou em vias de serem oficializadas, como break dance e pole dance, é que, quando criticadas, o argumento é sempre o mesmo: 1) “é difícil”; 2) “pessoas passam anos em duro treinamento”.

Como disse hoje, noutra publicação, “o esporte (a competição esportiva/olímpica) é uma máquina de fazer heróis, e cada sociedade/época tem um tipo de cabeça sobre o qual escolhe pôr os louros da glória; cada uma produz seus heróis conforme os valores, ideais e aspirações que norteiam sua existência.” “Heroicizar” significa imortalizar a pessoa (se não de fato, ou seja, em sentido “teúrgico”) na memória coletiva, fazendo dela um modelo orientador das individuações psíquicas das gerações seguintes, isto é, um modelo do que as crianças devem se tornar.

O argumento de que a uma prática deve ser dado um lugar no sistema social de glorificação/heroicização só por “ser difícil” e por “exigir longo treinamento”, além de absurdo, revela o que nossa sociedade quer premiar, qual é seu principal valor: o adestramento e o “trabalho duro”: a ética do shudra; a ética do homem-proletário, expressa, por exemplo, no título do livro do Bernardinho, técnico da vitoriosa seleção brasileira de vôlei: “transformando suor em ouro”: a alquimia do trabalhador, e uma ideologia burguesa, já que a burguesia também transforma suor (dos outros) em ouro. Todas estas novas modalidades (“novos esportes”) são produtos da indústria cultural americana; uma delas saída da periferia afro-americana e outra de casas de divertimento e prostituição.* E não estou as julgando moralmente aqui; é apenas um fato. É isso que os filhos da geração presente estão sendo instruídos a se tornar: bons trabalhadores, curtidores de vida praieira, dançarinos de rua e strippers.

*Esta última é interessante. Pois se tornou símbolo de “empoderamento”. Uma mulher dançando enroscada em um eixo fálico vertical. (Profanação do simbolismo de Purusha e Prakriti, no qual o Masculino é o eixo imóvel e o Feminino a manifestação?) Não deixa ela escapar que, mesmo quando pensa girar “sobre o próprio eixo” (é isso que ela pensa simbolizar essa dança), o pênis está sempre presente? Mas essa é outra questão.


Fonte: Medium

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