A revolução cultural dos ricos

Por José Javier Esparza
Tradução de Chauke Stephan

Estamos vivendo uma autêntica revolução. Mais ou menos discreta, mais ou menos doméstica, sem barricadas nem palácios de inverno, sem uma Marianne de pomos despidos guiando o povo, liberdade de peito nu conduzindo o povo como na pintura de Delacroix, mas revolução, enfim. Revolução política pela decomposição das soberanias nacionais, revolução econômica pela transformação do capitalismo, revolução cultural pela alteração absoluta dos valores sociais. Antigamente, as revoluções eram conduzidas pelo povo, ou assim queríamos acreditar. Hoje, não. Hoje a revolução não tem o povo como protagonista, mas a elite, isto é, aqueles que mandam. São eles que patrocinam o grande movimento de destruição das identidades históricas, de aniquilação dos papéis tradicionais de homem e mulher — o que inclui a inversão das funções sexuais, de recomposição das divisões sociais (substituindo as divisões antigas por outras novas). Tudo isso enquanto a ordem econômica se transforma por completo num movimento que, também aqui, não pretende atender às necessidades comuns, de nenhuma forma, mas sim garantir a sobrevivência do próprio sistema. E o que deve ser entendido é isto: a revolução cultural niilista que caracteriza o nosso tempo não representa a subversão do poder estabelecido, mas se trata, antes, de um instrumento a serviço desse poder, uma arma na mão dos que mandam.

Meio século atrás, o sociólogo dos Estados Unidos Daniel Bell, naquela altura muito conceituado, compilou em livro alguns de seus estudos com o título As contradições culturais do capitalismo. A tese central dele, resumidamente, é esta: o capitalismo ascendeu com base nos valores do esforço, do trabalho, do sacrifício, da abnegação e da austeridade, mas no tipo de sociedade que o próprio capitalismo gera, muitos são induzidos a adotar valores contrários e, logo, comportamentos contrários, caindo no hedonismo, no consumismo, nos gastos suntuários… Em suma, o capitalismo do pós-guerra triunfou graças a certos valores que depois seriam socavados pelo próprio triunfo do capitalismo. Trata-se de um caminho que todos os nascidos no baby-boom conhecemos muito bem: a passagem do espírito da poupança para o espírito da gastança, da sociedade do trabalho para a sociedade do consumo, da cultura do esforço para a cultura do gozo. Por conseguinte, já se podia deduzir que o mundo capitalista tinha os dias contados, visto como os novos valores eram incompatíveis com o capitalismo tradicional. Nossos pais, educados na austeridade, construíram um mundo que nossos filhos, criados na abundância, seriam incapazes de sustentar. Por reação a tal desenvolvimento, o que temos vivido nas últimas décadas é que o capitalismo produziu sua própria cultura, ele se demudou, buscando adaptação às transformações dele mesmo originadas.

O capitalismo do consumo acelerado de produtos modelou uma mentalidade social de desfrute individualista, e este individualismo hedonista, por sua vez, revelou-se excelente estímulo para a colocação em circulação de mais e mais produtos rapidamente consumidos e substituídos por outros. Por assim dizer, o capitalismo resolveu a contradição de sua cultura original criando nova cultura que melhor lhe correspondesse, conciliando o ócio com a superprodução.

Todas essas coisas que hoje vemos ao nosso redor e que nos parecem — e com razão, signos de desordem, mais não são, enfim, que a face da nova ordem. O capitalismo do século XXI, fazendário e globalizado, só pode se desenvolver plenamente com a prévia remoção das bastidas tradicionais: a pequena propriedade, as soberanias nacionais, as redes de solidariedade comunitária, as estruturas familiares, as religiões e, enfim, todas essas coisas que hoje o discurso dominante condena como “reacionárias”. Por isso o poder persegue sem trégua os recalcitrantes. E seguirá perseguindo cada vez mais.

Com as coisas assim, fica sendo hilário contemplar as piruetas da esquerda ocidental com o crachá da Agenda 2030 à lapela. Essa esquerda é só massa de manobra do capitalismo global. Talvez alguns de seus gurus pensem que poderão, um dia, aproveitar o impulso em seu próprio benefício, conforme o velho princípio leninista que manda “enforcar o burguês com a corda que ele mesmo vende”. Eles, porém, estão equivocados: a potência revolucionária do novo capitalismo é muito maior, muito mais destrutiva, muito mais cabalmente niilista do que essas ideologias “progressistas” que o acompanham. Os verdadeiros revolucionários, aqueles que estão construindo uma nova e medonha humanidade, não são os ideólogos, mas sim os financistas, que mais cedo ou mais tarde devorarão também os seus néscios tribunos.

O que estamos esperando para começar a contrarrevolução?

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Fonte: El Manifiesto. Autor: José Javier Esparza. Título original: La revolución cultural de los ricos. Data de publicação: 19 de janeiro de 2022. Versão brasilesa: Chauke Stephan Filho.

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