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A ESPIRITUALIDADE ESLAVA PRÉ-CRISTÃ

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Uma contribuição propedêutica nos foi concedida por Waldomiro O. Piazza, intelectual cristão de espírito sintético, que em seu popular Religiões da Humanidade [2] dedicou algumas páginas à mitologia eslava, organizando-a em dois núcleos eslávicos a partir das fontes documentais legitimadas disponíveis, todas escritas por cronistas cristãos que não raro limitavam-se a demonizar seu objeto de observação.

Os primeiros são os eslavos da Rússia que, a partir da célebre Crônica de Nestor ou Crônica dos Anos Passados, no início do século X, já sob o governo cristão de Vladimir I de Kiev, afirma-se que cultuavam a Perun, deus guerreiro dos trovões, e Veles, deus pastor e patrono dos rebanhos, em ídolos de madeira. O próprio Vladimir I, ao iniciar seu reinado, teria erguido vários desses ídolos em uma colina fora dos muros da capital, destacando-se além daqueles dois, os de Hors, deus solar e da medicina, Stribog, deus dos ventos e tempestades, Simargl, deus canino do fogo, Mokosh, deusa da colheita e tecelagem e, mais tarde, um ídolo de Svarog, deus ferreiro celestial. Nos sermões dos monges descritos na Crônica, citam-se ainda várias divindades e espíritos das águas, bosques e campos. Ao que tudo indica, a princípio, Vladimir tentou conciliar esta antiga religião com o cristianismo, em vão.

O segundo núcleo religioso nos remete aos eslavos do Báltico, e conforme faz notar o padre Piazza, as fontes documentais e arqueológicas são muito mais ricas e detalhadas precisamente porque os povos bálticos resistiram por mais tempo ao cristianismo, isto é, até finais do século XIII. Algumas das fontes são a Crônica de Thiemar, Saga Knythlinga, Atos dos Bispos da Igreja de Hamburgo e outras tidas por menores. Elas indicam que havia dois centros de maior importância religiosa: Riedegost, uma antiga cidade no atual norte alemão em que se situava um grande templo em madeira repleto de imagens de Svarozich, uma variação do ferreiro Svarog; e Arkona, na atual Rúgia, uma ilha alemã do mar Báltico, em que também havia um santuário com vários deuses entalhados e pintados, com destaque aqui para os policéfalos Sventovit, que realizava oráculos, e o misterioso Triglav. Indo um pouco mais além, vestígios arquitetônicos indicam que na cordilheira Свwiętokrzyskie no sul polonês houve um grande santuário no século VIII dedicado ao Sol, destacando-se ali vários símbolos solares, bem como vários templos menores com muralhas arredondadas no distrito de Łysa Góra.

O ídolo de Zbruch, na Ucrânia, hoje em exibição no Museu Arqueológico de Cracóvia, e comumente associado ao divino Sventovit, indica uma grande cidade-templo que reunia diversos clãs e tribos eslavas. De modo geral, os eslavos dividiam similaridades com as religiões celta e germânica: culto ao fogo, às forças da natureza, ao Sol e aos antepassados – e este intimamente ligado com a ideia de fertilidade da terra, de ciclo eterno e de renascimento. Há relatos de que cultuaram um Ser Supremo, supondo um sistema religioso henoteísta. Algumas peculiaridades eslávicas eram a importância do culto ao cavalo, a riqueza dos templos que recebiam um terço dos espólios de guerra e a importância dos sacerdotes frente ao clã por serem os intérpretes do destino humano. Acreditavam os eslavos de ambos os núcleos espirituais num tipo de vida espiritual após a morte física. Atribuíam um senso de dignidade peculiar ao homem, que por sua vez, meio a todos os seres vivos e abaixo dos deuses, detém o seu lugar próprio.

RODNOVERIE: O RENASCIMENTO ESLAVO

Impossível falar em cultura ou tradição próprias, isto é, criações objetivas nascidas da experiência cotidiana meio às idiossincrasias climáticas, geográficas e biológicas de um povo, e ainda muito menos em sua conservação, defesa e resgate, excluindo-se o fundamento ou centro dispensador de seus significados e razão de ser: a religião nativa. Os movimentos reconstrucionistas [3] e neopagãos [4] são um dos caminhos possíveis não apenas para autoconhecimento a nível individual, mas para a reconquista da união orgânica entre as atividades espirituais de um povo, isto é, sua religião, arte, filosofia e política como um direito e dever nacionais. O neopaganismo eslavo, enquanto denominação universal, abraça todas as iniciativas de renascimento da espiritualidade pré-cristã eslávica que se espalharam na Polônia e Ucrânia a partir do trabalho do arqueólogo e etnógrafo Zorian D.- Khodakovsky, O Sławiańszczyźnie przed chrześcijaństwem (“Sobre o eslavismo antes do cristianismo”) de 1818 em que defendia a importância do renascimento da religião nativa. Mas é em 1921 com a fundação do Koło Czcicieli Światowida (“Círculo Sagrado dos Seguidores de Syvatovit”) do estudioso polonês Vladislav Kolodzey que o neopaganismo eslavo enquanto organização religiosa tomou forma e, a partir de uma revista publicada no Canadá em 1964 pelo estudioso ucraniano Lev Sylenko intitulada Рідна Віра, “Ridna Vira”, que traduziu-se por “Fé Nativa”, o movimento passou a denominar-se Rodzimowierstwo na Polônia, Ridnovirya na Ucrânia, Rodnovĕří em República Tcheca, e na forma mais usual, Родноверие, “Rodnoverie”, na Rússia.

A Noite de Kupala ou Купалец (Kupalets) é a celebração do fogo e da água no solstício de verão, em honra da deusa Купала (Kupala) a deusa das ervas e feitiços, das árvores e do verão, cultuada como mãe das águas e sua contra-parte masculina Kupalo, de possível origem polonesa, cujo nome diz literalmente “banhar-se” em russo e “verão” em ucraniano. Em sua festa solsticial há banhos e queima de piras ao fim do dia, celebrando a água e o fogo – o fogo representaria o duplo masculino de Kupala, Kupalo, cultuado em outras regiões separadamente –, e uma divertida perseguição propiciatória e cantante de rapazes às donzelas solteiras nos bosques, cujo desempenho dirá se terão feliz vida conjugal, se ela será em breve ou se seus desejos se realizarão. Kupala é representada como uma jovem nua com um diadema de flores e velas acesas meio a lagos ou bosques. Fonte: BILDA, J. O. Livro de Veles: o livro sagrado da fé nativa eslava. RJ: Multifoco, 2020. p. 77, 134.

As primeiras associações e grupos na Polônia, Ucrânia e Rússia, ao logo do século passado, foram fundadas por círculos de intelectuais formados em sua maioria por psicólogos, etnólogos, historiadores e artistas em geral que lutaram judicialmente pelo seu reconhecimento enquanto organizações religiosas independentes em tensão constante com a Igreja Ortodoxa Russa e, até 1991, com a repressão do Estado soviético. Um marco histórico do movimento Rodnoverie foi o registro da Московской славянской языческой общины (“Comunidade Pagã Eslava de Moscou”) em fevereiro de 1994, que impulsionou outros grupos à luta de seu reconhecimento nacional e internacional a ponto de organizarem em 2004 o Primeiro Congresso Internacional de Comunidades Eslavas, realizado na cidade russa de Kaluga. Dentre os pontos destacados neste congresso, um dos mais importantes foi a caracterização e diferenciação entre a comunidade Rodnoverie, seja ela neopagã ou reconstrucionista, dos grupos esotéricos, sincréticos, extremistas e cristãos, dentre os quais se inclui a famosa Igreja Yngliista Russa. A principal razão de tal diferenciação é evitar peremptoriamente às pseudociências e toda forma de contaminação por outras doutrinas alheias às tradições eslávicas. Há atualmente uma longa listagem de associações neopagãs na Bielorrússia, Estônia, Eslováquia, Bulgária, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia e Eslovênia, além das pioneiras ucranianas, polonesas, tchecas e russas.

Segundo artigo [5] do colunista G. Manáev do Russia Beyond de agosto deste ano, um dos maiores portais de mídia sobre a Rússia na Internet, uma das mais influentes comunidades russas é a União de Comunidades de Crenças Nativas Eslavas, criada em 1997. Uma página encontrada na maior rede social russa, o VKontakte ou apenas VK, chamada Eslavos, Paganismo, Rus, possui mais de 250 mil membros. Em entrevista para a matéria, uma devota russa enarra sobre as celebrações neopagãs que frequenta: “Não há uma lista comum de orações, feitiços ou coisa que se assemelhe: o sacerdote faz um discurso falando sobre os lugares nativos, a Terra Nativa e os objetos naturais próximos, como rios ou lugares memoriais ligados aos ancestrais. O discurso é inventado por quem o profere e ninguém faz objeções, porque a visão de mundo é a mesma entre todos na celebração”.

UCRÂNIA, A TERRA MÃE

Com efeito, mesmo com novas evidências e estudos de ordem arqueológica, linguística e genética que apontam a bacia do rio Dnieper no atual território ucraniano como a terra natal eslava pela alta frequência do haplogrupo R1a em diversas etnias eslavas como poloneses, russos e ucranianos – certamente proveniente da uma dispersão protoindo-europeia desde o Quinto milênio AEC que, segundo a hipótese Kurgan da arqueóloga lituana M. Gimbutas [6] formulada em 1956 se iniciou na bacia do Dnieper com a domesticação de cavalos e cultura de montes funerários de pedra, seguidos de culto a ídolos, pecuária, agricultura e produção em cerâmica [7] –, velhas e novas disputas se acendem e os posicionamentos acadêmicos autorizados se submetem às suas respectivas políticas institucionais, estas determinadas por planificações estatais e recursos privados engajados em conveniências administrativas nacionais e internacionais, numa complexa rede de interesses político-econômicos de difícil captura e definição em seus fins, muito embora facilmente reconhecível por seus meios.

É, no entanto, indispensável que reconheçamos os méritos, muitas vezes heroicos, de  pesquisadores, ensaístas e escritores que resistem e até mesmo confrontam este espírito do tempo e ultrapassam o estreito de Messina do silêncio e do temor, pondo em risco não só suas carreiras profissionais mas, em alguns casos, até mesmo sua vida privada e familiar, simplesmente por sobreporem o espírito de inquérito, nos mais variados níveis e modos do saber, a todo e qualquer interesse e projeto alheio à busca pelo mais verdadeiro, ainda que menos conveniente. E é munido deste esforço de legitimação de tendências dissidentes que envolvem todas as questões fundamentais acerca da origem e desenvolvimento etnocultural dos povos eslavos até a conclusão do seu processo de conversão ao cristianismo no século X, que torno pública minha tradução inédita para o português diretamente do texto russo do Livro de Veles.


Notas

[1] Este artigo é um recorte de minha pesquisa central sobre História e Religião eslavas, e pode ser lido integralmente em minha edição do Livro de Veles à venda em meu site e através da Editora Multifoco. Cf. BILDA, J. O. Uma introdução à questão eslava. In: _____. Livro de Veles: o livro sagrado da fé nativa eslava. Rio de Janeiro: Multifoco, 2020. pp. 15-26.

[2] PIAZZA, W. O. Religiões da humanidade. São Paulo: Loyola, 1991.

[3] O termo reconstrucionista aplicado a religiões significa uma pretensão de restituição fiel de práticas, ou seja, sem tolerar alterações ou adaptações nos cultos antigos.

[4] O termo pagão vem do latino pagus, “campo” e paganus, “camponês, rústico”, e foi adaptado pelos cristãos romanos para designar aos povos não-abraâmicos, isto é, os politeístas europeus, a partir do sentido de “gentio” do judaísmo, que designava aos povos não-israelitas. A ideia de um neo, “novo” paganismo remete a não continuidade das antigas tradições em sentido ortodoxo, mas com adaptações e se difere dos sincretismos dos quais o Wicca é o maior exemplo.

[5] MANÁEV, G. Russia Beyond. Ainda existe paganismo eslavo?. 04 ago. 2019. Disponível em: <https://br.rbth.com/cultura/82635-ainda-existe-paganismo-eslavo>. Acesso em: 18 nov. 2019.

[6] Este tópico será tratado mais adiante. Cf. GIMBUTAS, M. The prehistory of eastern Europe. Part I. Mesolithic, Neolithic and Copper age cultures in Russia and the Baltic area. American Slavic and east European review, v. 17, n. 1, pp. 241, 1958. Disponível em: <https://www.cambridge.org/core/journals/slavic-review>. Acesso em: 17 nov. 2019.

[7] Todos elementos essenciais constituintes da vida tribal eslava, segundo consta em largas descrições no Livro de Veles. Cf. ANTHONY, D. W. The horse, the wheel and language: how bronze-age riders from the Eurasian steppes shaped the modern world. New Jersey: Princeton University Press, 2007.

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