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A intervenção Norte-americana na Primeira Guerra Mundial foi justificada?

Um assunto que passa despercebido entre os meios dissidentes é o revisionismo sobre a Primeira Guerra Mundial enquanto assuntos relativos à Segunda, são muito mais conhecidos e debatidos, no artigo á seguir vemos um pouco sobre a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial de forma revisionista.

O trabalho de Burton Yale Pines, America’s Greatest Blunder: The Fateful Decision to Enter World War One [A Maior asneira da América: a decisão fatídica de entrar na Primeira Guerra Mundial] não é um livro novo. (Foi lançado em 2012.) Nem foi publicado por uma grande editora comercial, apesar da longa e distinta carreira do autor como correspondente da revista Time e, posteriormente, como vice-presidente da Heritage Foundation. Meu único e breve contato com Pines foi nossa participação conjunta em um painel apresentado pela Sociedade da Filadélfia em 1986, no qual fomos colocados uns contra os outros como críticos e defensores da influência dos neoconservadores no movimento conservador norte-americano. Nossas trocas foram extremamente amargas; e nunca mais vi a pessoa com quem debati. Embora eu tenha tentado localizar Pines depois de ler seu livro, todos os meus esforços (e os de duas de minhas filhas, que têm habilidades de computador muito melhores) falharam. Eu queria parabenizar o autor pela produção de seu trabalho, que apresenta um caso abrangente do por que os EUA deveriam ter ficado fora da Primeira Guerra Mundial. Pines também mostra (se houver necessidade de mais provas) que desde o início o governo norte-americano tomou partido na conflito europeu e fracassou todas as oportunidades de fazer a paz entre os blocos beligerantes.

 

A maioria desses argumentos foi feita antes, de Harry Elmer Barnes na década de 1920 a Jim Powell do Cato Institute em 2009 e de forma menos dramática, nos estudos históricos de Justus Doenecke. Na verdade, existem tantos historiadores revisionistas sólidos que escreveram sobre a participação dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial que seriam necessárias várias páginas para listá-los todos. Mas não importa o quão convincentes sejam seus raciocínios e evidências, esses estudiosos têm sido geralmente ignorados pela imprensa nacional e, desde o surgimento dos neoconservadores, nas publicações republicanas estabelecidas. Isso pode muito bem explicar o destino do estudo de Pines, que foi escrito com força e amplamente documentado. Suas alegações de que uma tentativa honesta de mediar a paz teria sido melhor do que a intervenção militar norte-americana no lado aliado e sua repulsa óbvia pela “cruzada pela democracia” de Wilson podem ter custado a ele a boa vontade de seus aliados de longa data.

Em 3 de fevereiro de 1917, o presidente norte-americano Woodrow Wilson (à esquerda) rompeu relações com a Alemanha com a justificativa dúbia de uma represália ao anúncio de uma guerra de submarinos que teria sido feita pelo imperador alemão, o qual supostamente ameaçava navios mercantes dos EUA. Crédito: Reuters/Livraria do Congresso dos EUA

Permitam-me observar, no entanto, que não compartilho totalmente da visão de Pines, conforme expressa em seu título, de que o envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial de alguma forma tornou inevitável a ditadura bolchevique na Rússia e a violência de Hitler pela Europa. A participação dos EUA na [Primeira] Grande Guerra custou mais de 115.000 vidas, garantiu um tratado injusto e ajudou a transformar os EUA no que Walter McDougall caracterizou como um “estado cruzado”, travando o que Richard Gamble deplorou como “guerras pela justiça”. Essas coisas são ruins o suficiente sem ter que culpar a decisão fatídica de Wilson (que, a propósito, teve o apoio republicano esmagador) por acontecimentos para os quais contribuiu apenas de forma remota. A República de Weimar teria sobrevivido, apesar dos esforços dos Aliados para arrancar indenizações obscenas da democracia constitucional da Alemanha, enquanto culpava os alemães exclusivamente pela guerra que perderam. Foram os efeitos da Grande Depressão e uma série de contingências, provocadas em grande parte pelas conspirações dos conselheiros do presidente von Hindenburg, que levaram os nazistas ao poder. Embora a continuação da monarquia (uma possibilidade contra a qual Wilson se enfureceu) pudesse muito bem ter evitado a ocorrência desse desastre, a República teria sobrevivido se outras circunstâncias não tivessem intervindo.

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Os bolcheviques tomaram o poder porque o governo imperial russo mergulhou de cabeça em uma guerra da qual não conseguia se livrar. Ao contrário do Governo Provisório, que tomou o poder do regime czarista em março de 1917, Lenin e seus confrades prometeram tirar a Rússia de uma luta sangrenta e aparentemente sem fim. Os bolcheviques obtiveram o poder, permitindo o colapso da frente oriental. Embora o governo de Wilson tentasse manter vivo o esforço de guerra russo enquanto apelava à fraternidade “democrática” contra o “militarismo alemão”, na época em que os EUA entraram na briga, a frente russa estava se desintegrando e os comunistas estavam esperando nos bastidores. Embora muitos pecados graves possam ser atribuídos aos intervencionistas americanos, o golpe de estado bolchevique pode não ser um deles. Foram os alemães que trouxeram Lenin do exílio suíço para a Estação Finlândia em Petrogrado, a fim de expulsar os inimigos russos da guerra.

Pines também perde a oportunidade de contar a história completa sobre o naufrágio do navio de luxo britânico Lusitania por um submarino alemão na costa da Irlanda em 5 de maio de 1915. Embora o governo alemão tenha alertado os passageiros estadunidenses para ficarem longe deste “navio de guerra”, a morte de 128 estadunidenses como resultado do ataque permitiu que Wilson e seu governo pró-britânico fossem mais abertos sobre suas simpatias pró-Aliados. William Jennings Bryan, o secretário de Estado, renunciou quando ficou claro para qual direção o presidente estava indo; e o sucessor de Bryan (e tio de John Foster Dulles), Robert Lansing, que era apaixonadamente a favor do lado Aliado, o sucedeu. Pines trata como um mistério, bem como uma asneira catastrófica, o torpedeamento do Lusitania, mas depois deixa cair esta informação: Em dezembro de 2008, os mergulhadores “descobriram uma nova peça do quebra-cabeça” sobre por que o navio “afundou tão rapidamente”. O relatório subsequente do British Daily Mail (19 de dezembro de 2008) afirmou que o navio carregava balas e outras munições que seriam usadas para matar soldados alemães. Afundou tão rapidamente porque a carga de contrabando em um navio registrado como navio de guerra britânico explodiu assim que um torpedo o atingiu. O mesmo artigo também menciona que Churchill saudou a destruição do navio porque esperava que isso atraísse os EUA para a guerra.

Destroços do Navio Lusitania no fundo do mar. O RMS Lusitania foi um navio da Cunard Line, lançado em 1906. Imagem: Reprodução

Apesar dessa omissão, Pines demonstra que os relatos convencionais do perigo alemão enfrentado pelos EUA em 1917 foram imprecisos. A Alemanha não representou absolutamente nenhuma “ameaça militar ou de segurança” aos EUA, quando Wilson arrastou os EUA para a guerra na primavera de 1917: “A única realidade naquela data era o impasse extraordinariamente sangrento e caro em que a guerra se tornou, com a sola certeza de que nenhuma nação sairia vitoriosa ou mesmo saudável e que todos sairiam fracos, feridos e desiludidos”. Os alemães recorreram a ataques submarinos a navios aliados, a fim de quebrar um bloqueio de fome britânico que tirou muitas centenas de milhares de vidas de civis alemães e que pode ter matado mais habitantes alemães do que todos os bombardeios aéreos da Segunda Guerra Mundial. Pines destaca que o governo Wilson era totalmente indiferente ao uso dessa arma ultrajante, que era contrária ao direito internacional (embora essa arma fosse permitida para a Inglaterra, que se recusou a assinar a Convenção de Haia que a barrou). O bloqueio da fome só foi levantado em março de 1919, meses após o fim dos combates, para garantir que os representantes da República de Weimar assinassem a “ditada” Paz de Versalhes. (Os alemães não foram autorizados a negociar os termos).

Para constar, Winston Churchill como primeiro lorde do Almirantado iniciou seu bloqueio no Mar do Norte em 1º de agosto, um dia antes de os alemães entrarem na guerra, ou seja, ao mesmo tempo que o aliado da Grã-Bretanha, a Rússia, mobilizou cerca de um milhão de soldados na fronteira alemã e austro-polonesa. Dadas tais circunstâncias, Pines acha impossível atribuir a culpa exclusiva ou mesmo primária pela eclosão da guerra aos alemães e seus aliados austríacos. Eles foram, como reclamou o governo alemão, “cercados” por potências hostis, a saber, Rússia, França e, mais distantemente, a Inglaterra. E pode ter parecido que os alemães foram levados a dar o primeiro tiro, exceto pelo fato de que, por mais beligerante que os franceses tivessem se comportado antes da guerra, eles pareceram genuinamente surpresos quando os exércitos alemães se chocaram contra seu país. Foram as Potências Centrais, nunca os Aliados, que a partir de 1916 procuraram terminar a guerra com uma paz negociada e que se agarraram aos propostos (insinceros) esforços americanos de mediação. Em 1917, os alemães, para grande alívio deles, viram a Frente Oriental se desintegrar, mas seus aliados, Áustria-Hungria, Bulgária e Turquia, também estavam entrando em colapso militar e tentando desesperadamente sair da guerra.

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Embora Pines observe corretamente que uma Alemanha Imperial totalmente triunfante não teria se comportado melhor do que o lado que a derrotou, ele também afirma que a Alemanha não estaria em posição de ditar tal paz, mesmo se os EUA não tivessem ido à guerra. Esta pode ser a parte mais esclarecedora do trabalho de Pines, mostrando que a Alemanha no final de 1917 havia exaurido tanto seus recursos em uma guerra opressora de mais de três anos que teria sido extremamente difícil para seus exércitos conseguirem uma vitória unilateral. No outono de 1917, a Alemanha lutava sem aliados eficazes contra inimigos em número superior. Quer os americanos entrassem ou não no conflito, o bloqueio britânico teria continuado a estrangular a Alemanha internamente. Além disso, os alemães não tinham números na frente ocidental para alcançar mais do que uma possível posição de barganha superior, se e quando isso pudesse terminar a guerra. Claro que os britânicos não tinham motivos para encerrar a guerra, sem esmagar totalmente o Império Alemão, que tinha sido seu objetivo declarado desde 1914, uma vez que sempre contaram (com razão) com a eventual entrada dos EUA na guerra.

 

Pines acertou em um ponto que poucos norte-americanos que escrevem sobre esse assunto parecem estar cientes. No início de novembro de 1918, o comando militar alemão entrou em pânico e depressão. Eric Ludendorff e sua equipe instavam intermitentemente o Kaiser a abdicar. Isso foi feito para aplacar o fervor antimonarquista de Woodrow Wilson e para obter os termos de paz relativamente brandos oferecidos por Wilson em seus Quatorze Pontos, prometendo uma “paz sem anexações e reparações”. (Tal paz, observa Pines, rapidamente se tornou letra morta quando a vingança do lado vitorioso assumiu). Ao contrário de Ludendorff, o governo civil alemão advertiu contra a dissolução da Frente Ocidental da Alemanha, que colocaria seu país à mercê de inimigos vingativos. Também podemos notar que, em julho de 1917, uma maioria no Reichstag [Parlamento Alemão] havia clamado por uma “paz sem anexações”. Desnecessário dizer que nem os militares alemães nem os Aliados consideraram esses termos de paz aceitáveis. Mas havia aqueles no governo civil alemão, alguns dos quais desejavam “paz sem anexações, que mais tarde pediram a proteção da pátria contra a invasão dos Aliados. A acusação de “punhalada nas costas” usada para explicar a derrota da Alemanha foi particularmente agradável para alguns líderes militares que tomaram posições menos heroicas no final da guerra. Finalmente, a raiva pela forma como a Alemanha foi tratada após o armistício não era peculiar aos nacionalista. Foi compreensivelmente sentida, explica Pines, em todo o espectro político.


Fonte: American Thinker

Tradução de Maurício Pompeu

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