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Esta tradução de Maria C. A. L. S. de Andrade do clássico De origine et situ Germanorum ou simplesmente Germania de Cornélio Tácito de 98 d.C., foi apresentada como uma dissertação à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) em 2011 e encontra-se disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP enquanto documento público em formato bilíngue, com longos acréscimos de notas explicativas, estudos comparativos e comentários anexos, os quais foram afastados na presente edição sem pretender qualquer prejuízo ao entendimento ou à exaustiva pesquisa da autora, com o zeloso propósito de primeiro contato com um imortal etno-historiográfico. Entretanto, com efeito, sugere-se a leitura integral da pesquisa da autora, de modo algum preterível.

Tácito divide Germania em duas partes: a primeira, que vai do parágrafo 1 ao 27, trata brevemente dos aspectos geográficos da região, discute sobre a origem dos bárbaros e apresenta suas características e costumes como se compusesse um grande e homogêneo grupo; a segunda, que vai de 28 a 46, trata de cada nação germana em particular, discorrendo sobre suas peculiaridades.

As sentenças em negrito são de minha responsabilidade, bem como a revisão e as correções ortográficas a serem notadas no texto original. Notas explicativas foram acrescidas nos casos de necessidade.

Referência bibliográfica: ANDRADE, Maria Cecília Albernaz Lins Silva de. A Germania de Tácito: tradução e comentários. 2011. 118 f. Dissertação (Programa de Pós- Graduação em Letras Clássicas do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-20042012-114933/publico/2011_MariaCeciliaALSilvadeAndrade_VRev.pdf>. Acesso em: 02 jan. 2021.

J. O. Bilda

Brusque, 02 de janeiro de 2021.

GERMÂNIA

  1. Toda a Germânia está separada dos gauleses, retos e panônios pelos rios Reno e Danúbio, e dos sármatas e dácios pelo medo mútuo e pelas montanhas. O Oceano circunda as demais regiões, abarcando amplas baías e vastidões insulares, das quais algumas gentes e reis se tornaram recentemente conhecidos, pois a guerra os revelou. O Reno, que nasce do cimo inacessível e escarpado dos Alpes réticos, depois de se curvar um pouco para ocidente, deságua no Oceano setentrional. Já o Danúbio, a espraiar-se brandamente modesto do elevado cume da montanha Ábnoba, percorre mais povos, até que se precipita no mar Pôntico por seis embocaduras; a sétima é sorvida pelos pântanos.
  1. Quanto aos próprios Germanos, eu os julgaria nativos e de forma alguma imiscuídos aos que vêm de outras gentes, porque outrora aqueles que desejavam mudar de moradia lá chegavam não por terra, mas em naus. Além disso, o imenso e, por assim dizer, oposto Oceano é visitado por poucos navios do nosso mundo. E quem, fora o perigo do mar violento e desconhecido, deixaria a Ásia, a África ou a Itália e dirigir-se-ia à Germânia, de aspecto tosco, clima rigoroso e desagradável para viver e mesmo para observar, a não ser que fosse sua pátria?

Por meio de cantos antigos, que é a única espécie de recordação e de anais que há entre eles, celebram o deus Tuistão, nascido da terra. Atribui-se a ele um filho, Mano, origem e fundador da gente, e a Mano três filhos. E a partir dos nomes destes, são chamados ingévones os que habitam próximo ao Oceano, hermíones os da região central e istévones os demais. Alguns asseguram, conforme a licença que é dada à Antiguidade, haver mais filhos do deus e mais nomes de povos, marsos, gambrívios, suevos e vândalos, e serem estes os nomes antigos e verdadeiros. A denominação de “Germânia”, pelo contrário, é recente e foi introduzida há pouco, porque os primeiros que atravessaram o Reno, expulsaram os gauleses e são chamados agora tungros, eram antes chamados germanos; assim, o nome que era de uma nação e não de um povo paulatinamente prevaleceu, de tal modo que todos foram denominados germanos, primeiramente pelo vencedor, para causar medo, e logo depois pelos próprios vencidos, ao descobrirem o nome.

  1. Também recordam que Hércules viveu entre eles e, quando vão para a batalha, celebram-no como o primeiro dentre os bravos varões. Eles também possuem cantos com cujo conteúdo, que denominam barditum, acendem os ânimos ao serem entoados, e por meio destes predizem a sorte da batalha futura. Amedrontam ou abalam- se, conforme o grito do exército, e isso mostra não tanto a união de vozes quanto de valor. Almejam a aspereza do som e um ruído irregular quando põem diante de suas bocas os escudos, para que a voz se amplifique, mais forte e grave, pela reverberação. Voltando ao assunto, alguns creem que Ulisses, levado a este Oceano naquele longo e fabuloso errar, chegou em terras germânicas, e constituiu e deu nome à Ascibúrgio, que está situado às margens do Reno e é atualmente habitado. De fato, o altar consagrado a Ulisses, com o acréscimo do nome de seu pai Laertes, outrora encontrado naquele mesmo lugar, bem como monumentos e alguns túmulos com inscrições em grego ainda existem nos limites da Germânia e da Récia. Estas informações, não as pretendo confirmar pelos argumentos nem as refutar, cada qual que retire ou acrescente-lhes credibilidade conforme seu entendimento.
  2. Eu próprio concordo com aqueles que julgam que os povos da Germânia não se mesclaram, por meio do casamento, com outras nações, dada a peculiaridade, pureza e tamanha similaridade de sua gente. Até o aspecto de seus corpos, embora haja um grande número de pessoas, é igual em todos: olhos azuis e ameaçadores, cabelos ruivos, corpanzis vigorosos somente ao embate; não com a mesma firmeza suportam o trabalho e os afazeres e muito menos toleram a sede e o calor intenso, mas graças ao clima e ao terreno habituaram-se ao frio e à fome.
Figura 1: Mapa das províncias romanas em 117 d.C. sob o Imperador Trajano. As Panônias hoje correspondem às regiões da Croácia, Hungria, Sérvia, Eslovênia e região; a Nórica, Germânia e Rétia à Alemanha e Áustria.
  1. Ainda que a região difira um pouco em aparência, no geral, contudo, é temível pelas florestas e repugnante por conta dos pântanos, chove mais próximo às Gálias e venta mais próximo de Nórico e da Panônia; é bastante fértil, mas não dá árvores frutíferas e é abundante em gado que são, em sua maioria, de pequeno porte. Sua honra e glória certamente não derivam da aparência dos rebanhos: alegram-se com a quantidade, e estas são as únicas e mais agradáveis riquezas que possuem. Se foram deuses favoráveis ou encolerizados que lhes negaram o ouro e a prata, eu não saberia dizer. E também não afirmaria que nenhuma mina da Germânia produz prata ou ouro: quem a explorou? Não são afetados pela posse e pelo uso igualmente. Vê-se entre eles vasilhas de prata, dadas de presente a seus embaixadores e governantes, mas estas são tidas como ninharias não diversas das que são produzidas pela terra. Embora os mais próximos à fronteira, pelo hábito do comércio, vendam o ouro e a prata por um bom preço e conheçam algumas formas de nossa moeda e escolham, os povos das regiões interiores usam do modo mais simples e tradicional a permuta de mercadorias. Aceitam uma moeda antiga e conhecida, a serrilhada e com uma biga. Também buscam mais a prata que o ouro, sem nenhuma afetação íntima, mas porque uma soma de denários de prata é mais fácil para adquirir mercadorias comuns e de baixo custo.
  2. Na verdade, nem o ferro é abundante, como se pode inferir pelo tipo de suas armas. Raros são os que usam espadas ou lanças maiores: produzem lanças, ou pela denominação deles próprios frameas [1], com sua parte de ferro estreita e curta, de tal sorte afiadas e cômodas ao manejo, que com a mesma arma, consoante exige a razão, lutam quer de perto quer de longe. Um cavaleiro fica satisfeito com um escudo e uma “framea”, a infantaria atira armas de arremesso, e cada qual atira muitas a uma longa distância, pois ficam nus ou com um leve traje de guerra. Não há nenhuma ostentação em seu modo de viver; seus escudos se diferenciam somente pelas mais formosas cores. Poucos usam couraças, dificilmente um ou outro usa elmo ou capacete. Os cavalos não são notáveis nem pela aparência, nem pela velocidade, e não são adestrados a dar voltas para todos os lados como é hábito nosso: seguem em linha reta ou com uma curva à direita, de tal forma que, fechado o círculo, ninguém fique para trás. De forma geral, julgam haver mais vigor no soldado-infante e combatem unidos no mesmo local, sendo adequada e compatível à da pugna equestre a velocidade da infantaria, que é escolhida dentre a flor da juventude e posta na linha de frente. A quantidade também é determinada: de cada aldeia provêm cem, e por esse mesmo numeral são chamados entre os seus: o que a princípio era apenas um número passou a ser uma denominação e uma honra. O exército ordena-se em forma de cunha. Consideram que deixar o posto, contanto que sigas no encalço em seguida, seja questão de planejamento e não por medo. Levam os corpos dos seus mesmo em prélios ainda irresolutos. Ter abandonado o escudo é a pior desonra, e não é permitido ao ignominioso assistir aos ritos sagrados ou ir ao conselho; e muitos sobreviventes da guerra enforcaram-se para escapar à infâmia.

 

  1. Eles escolhem seus reis segundo a nobreza e seus generais segundo a força. O poder para os reis não é ilimitado e irrefreado, os generais antes dão o exemplo que ordens, e são os mais admirados se estão preparados e visíveis na linha de frente. Ademais, castigar, acorrentar, açoitar, somente é permitido aos sacerdotes, não como uma forma de punição ou por ordem do general, mas como uma ordem do deus que creem estar junto a eles na batalha. Algumas imagens e símbolos são retirados dos bosques sagrados e carregados para o prélio; e isto é o principal estímulo da coragem, pois não foi o acaso nem a reunião fortuita que compôs a armada e a formação em cunha, mas as famílias e as amizades; e ainda têm perto de si as pessoas que lhes são mais caras, em local donde se pode ouvir os berros das mulheres e o choro das crianças. Estas são as testemunhas mais sagradas para cada um deles, estas são suas maiores lisonjeadoras: levam suas feridas até suas mães, até suas esposas, as quais não temem contar seus ferimentos ou examiná-los, trazendo alimentos e exortações aos guerreiros.

 

  1. Contam as narrativas que algumas batalhas, já a ponto de perder-se, foram restabelecidas pelas mulheres, dada a constância de suas preces e a interposição de seus peitos, assim indicado de perto o cativeiro, o que eles temem mais arrebatadoramente com relação a suas mulheres, a ponto de serem mais eficazmente constrangidos os ânimos dos povos a quem se exige, dentre os reféns, garotas nobres[2]. Ademais disso, julgam haver nas mulheres algo de sagrado e previdente e não desprezam seus conselhos nem negligenciam suas predições. Sob o império de Vespasiano, vimos Veleda ser considerada como uma divindade, durante muito tempo, pela maioria dos homens; e outrora veneraram também Aurínia e muitas outras, não com vil lisonja nem como se forjassem deusas.

 

  1. Dentre os deuses, cultuam sobretudo Mercúrio, a quem crêem ser permitido até, em certos dias, imolar vítimas humanas. Abrandam Hércules e Marte com animais permitidos. Uma parte dos Suevos também sacrifica a Ísis; pouco conheço do motivo e origem do rito estrangeiro, apenas sei que o próprio símbolo, figurado à maneira libúrnica, mostra que é um culto trazido se fora. Além do mais, entendem que reter os deuses entre paredes ou forjá-los com rostos semelhantes aos de humanos não está de acordo com a grandeza divina; consagram bosques e florestas e designam com nomes de deuses algo oculto, que veem somente por meio da reverência.

 

  1. Os germanos observam os auspícios e o oráculo mais que qualquer um. O costume de se fazer predições não varia: cortam uma vergôntea retirada de uma árvore frutífera em pequenos ramos e estes, diferenciados por certos caracteres, eles espalham a esmo e fortuitamente sobre um tecido branco. Logo em seguida é consultado o sacerdote da cidade, se for para o interesse público; se particular, o próprio pai de família, que após ter rogado aos deuses, dirige seu olhar ao céu e apanha um a um dos pequenos ramos por três vezes. Feito isso, ele os interpreta segundo o sinal gravado neles anteriormente. Se algo for vetado, nenhuma consulta a respeito do mesmo assunto é feita no mesmo dia, mas se for permitido, uma prova ainda é exigida dos auspícios. Também lhes é algo conhecido buscar respostas nos sons e no voo das aves é algo conhecido por eles, mas é próprio desse povo também consultar presságios e predições utilizando cavalos. Para o interesse público, alguns cavalos brancos intocados pelo trabalho humano são criados naqueles mesmos bosques e florestas, estes são atrelados ao carro sagrado e o sacerdote e o rei, ou o líder da Cidade, os acompanham e observam seus relinchos e frêmitos. Nenhum outro auspício inspira maior confiança, não só na plebe, mas também nos chefes e sacerdotes; de fato, estes últimos consideram-se servos dos deuses, e aqueles animais, seus confidentes. Há ainda outro tipo de observação dos auspícios, por meio do qual consultam o desenlace das duras guerras. Põem em combate um prisioneiro apanhado do povo contra o qual se guerreia, com um escolhido dentre os seus, cada qual com as armas de sua pátria: a vitória deste ou daquele é tomada como prognóstico.

 

  1. Consultam os líderes quando se trata de assuntos menores, os maiores são tratados por todos; entretanto, é de tal forma que também estes últimos, cuja decisão cabe ao povo, são previamente tratados entre os líderes. Reúnem-se em dias determinados: quando a lua começa a crescer ou quando ela se torna cheia, a não ser que sobrevenha algo fortuito e súbito; pois creem ser este início o mais auspicioso para empreender as ações. Não contam, como nós, o número de dias, mas sim de noites. Assim constituem, assim concordam: a noite parece conduzir ao dia. É um vício derivado de sua liberdade não se encontrarem ao mesmo tempo, como se convocados, e assim um dia a mais, e ainda um terceiro, é consumido pela delonga dos participantes. Logo que a multidão tenha aprovado, sentam-se armados. O silêncio é exigido pelos sacerdotes, os quais detém também o direito de reprimir. Logo depois, o rei ou os líderes, de acordo com a idade de cada um, com a nobreza, com a glória nas guerras e com a eloquência, são ouvidos mais pelo poder de persuasão que pela capacidade de dar ordens. Se a proposição desagradar, eles a rejeitam com um grande alarido, porém, se agradar, agitam as frameas; este louvor com armas é o tipo mais honroso de aprovação.

 

  1. Também é permitido, no Conselho, acusar e apresentar penas capitais. A distinção entre as penas é estabelecida a partir dos delitos. Os traidores e desertores são enforcados, os fracos, covardes e pervertidos são mergulhados na lama ou num pântano, e uma grade é colocada por cima. A diversidade de suplícios diz respeito à ideia de que é preciso mostrar os crimes no momento de sua punição e esconder as ignomínias. Mas a pena para delitos mais leves é proporcional: os condenados são multados em uma quantia de cavalos e gado. Uma parte da multa é paga ao rei ou à cidade, a outra parte é para aquele que foi lesado, ou para seus familiares. Nestes mesmos Conselhos também são eleitos os líderes, os quais administram a justiça pelos povoados e rincões. Para cada qual há uma centena de acompanhantes populares, que lhes proporcionam conselhos e autoridade.

 

  1. Não tratam de nenhum assunto, público ou privado, senão armados. Mas, como é de costume, ninguém pega em armas antes que os cidadãos[3] reconheçam que haverão de ser capazes e daí então, durante o próprio Conselho, um dos líderes ou o pai ou os parentes ornam o jovem com o escudo e a framea; isso, entre eles, é como a toga, a primeira honra da juventude. Antes desse momento, ele é considerado membro de uma família e, logo em seguida, membro da república. A ilustre nobreza ou os grandes méritos dos pais dão, mesmo aos adolescentes, o reconhecimento do príncipe; os demais são agregados aos outros mais vigorosos, já há muito aprovados, sem que se veja sinal de vergonha quando junto a seus companheiros. Porém, o próprio agrupamento apresenta graduações, estabelecidas de acordo com o julgamento daquele que seguem; e então é grande a rivalidade entre companheiros na disputa pelo primeiro lugar ao lado de seu líder, e também entre os líderes, na disputa pelo agrupamento mais numeroso e mais enérgico. Traz tal dignidade e poderio estar sempre rodeado por um grande pelotão de jovens escolhidos: a glória na paz e a defesa na guerra. Aquele cujo agrupamento se destaca em número e coragem não apenas entre seu povo, mas também nas cidades vizinhas, tem renome e glória. Então são procurados por embaixadores, são ornados com presentes, e o mais das vezes sua própria reputação leva as guerras quase a cabo.

 

  1. Quando entra na batalha, é vergonhoso para o líder ser vencido em bravura e é vergonhoso para os companheiros não se igualar com o líder em bravura. Além disso, é infame e ignominioso pelo resto da vida ter abandonado a batalha e sobrevivido a seu líder; defendê-lo, protegê-lo e também atribuir-lhe seus próprios feitos grandiosos para a glória dele é a principal consagração militar. Os líderes lutam pela vitória, os companheiros pelo líder. Se a Cidade, na qual nasceram, está entorpecida por uma longa paz e pelo ócio, a maioria dos nobres adolescentes procura por nações que estejam guerreando com outras naquele momento, não só porque a inação é desagradável para seu povo como também mais facilmente tornam-se ilustres em situações de perigo e não se mantém um grande agrupamento sem violência e guerra: é, portanto, da generosidade de seu líder que reclamam aquele famoso cavalo de guerra, aquela sanguinária e vitoriosa framea. Com efeito, banquetes e abundância em apetrechos, ainda que sejam grosseiros, equivalem ao soldo. O material para sua munificência provém de guerras e roubos. Não os convencerias a arar a terra ou a esperar pela colheita tão facilmente como a desafiar o inimigo e conseguir ferimentos. Mas antes consideram improdutivo e sem valor adquirir pelo suor aquilo que pode ser alcançado pelo sangue.

 

  1. Todas as vezes que não vão para a guerra, dedicam-se muito às caçadas, porém vivem mais na ociosidade, entregues ao sono e à comida. Os homens mais fortes e belicosos nada fazendo, o cuidado da casa, dos penates e dos campos confiado às mulheres, aos velhos e aos mais incapazes da família; e eles mesmos ficam ociosos, devido a uma notável contradição em sua natureza, que leva os mesmos homens a amarem assim a indolência e a odiarem a inação. É costume nas cidades servir aos líderes, de modo espontâneo e individualmente, de uma parte de seu rebanho e de sua seara, o que é aceito como honra, mas que também cobre suas necessidades. Alegram-se, sobretudo, com presentes dos povos vizinhos, que não só são enviados por indivíduos, mas ainda em nome da Cidade: cavalos seletos, magníficas armas, colares e braceletes; e já os ensinamos a aceitar dinheiro.

 

  1. Bem se sabe que povos germanos não habitam em centros urbanos, na verdade, não admitem moradias juntas umas com as outras. Moram separados e afastados, conforme agrade uma fonte, um campo ou um bosque. Estabelecem povoados não com edificações contíguas e conjugadas, segundo é nosso costume, mas cada qual circunda sua casa com um espaço, como prevenção contra incêndio ou por falta de habilidade para construir. Nem mesmo fazem uso de cascalho ou telhas, o material usado em todas as circunstâncias é amorfo e sem ornamento ou deleite. Diligentemente revestem certos locais com terra tão limpa e esplendente, que simula pintura e esboços coloridos. Costumam também abrir cavernas subterrâneas e cobri-las com muito esterco, como um refúgio no inverno e despensa de grãos, porque locais assim aliviam o rigor do frio e quando o inimigo chega, destrói aquilo que está à vista, mas os lugares escondidos e debaixo da terra são desconhecidos e ludibriam exatamente porque devem ser procurados.

 

  1. Todos vestem um saio fechado com uma fivela ou, na falta desta, com um espinho[4]; nus quanto ao mais, passam dias inteiros junto ao calor do fogo. Os mais ricos são diferenciados pelo uso de uma veste, que não é larga como a dos Sármatas e dos Partos, mas justa, marcando todas as formas do corpo. Também trazem em si peles de fera, negligentemente os povos às margens do rio, de modo mais cuidado os que habitam o interior, dado que estes últimos não obtêm adornos por relações comerciais.

Primeiro eles escolhem as feras e depois retiram suas peles e forram-nas com fibras e couro de grandes animais, criados pelo Oceano exterior e desconhecido mar. Este é o traje de homens e mulheres; todavia, as mulheres cobrem-se mais frequentemente com mantos de linho, matizados de púrpura. Não alongam a parte superior do vestido em mangas, deixando nus os braços e o colo à mostra.

 

  1. Embora os casamentos lá sejam austeros, não louvarias tanto nenhum outro costume deles. Pois eles são praticamente os únicos bárbaros que se contentam com uma só esposa, com exceção de alguns poucos que são requisitados a contrair matrimônios, não por lascívia, mas pela nobreza. Não é a esposa que oferece o dote ao marido, e sim o marido à esposa. Os parentes e amigos estão junto e avaliam os presentes, os quais não são buscados de acordo com caprichos femininos nem se enfeita com estes a recém-casada, são bois, cavalos com rédeas e escudo com framea e gládio. Com estes presentes arranja-se uma esposa, e ela, por sua vez, leva alguma arma ao marido: nisto veem o maior dos vínculos, o mistério sagrado, os deuses conjugais. Para que a esposa não se considere sem pensamentos de coragem e sem riscos de guerra, ela é admoestada a se tornar companheira dos trabalhos e perigos desde os auspícios iniciais do matrimônio, e há de sofrer e arriscar-se igualmente na paz e no prélio; os bois jungidos, o cavalo aparelhado, as armas dadas declaram isso. Assim deve viver, assim deve criar: o conhecimento que adquire, inviolado e o conveniente, transmite a seus filhos, e as noras têm de aprender e, em seguida, expor aos netos.

 

  1. Vivem, portanto, em restrita pudicícia, que não é corrompida pelos atrativos dos espetáculos ou pelos excitamentos dos banquetes. Homens e mulheres, igualmente, desconhecem a conversação secreta por meio de cartas. Para uma população tão numerosa, há pouquíssimos casos de adultério, os quais têm punição imediata e concedida aos maridos: depois de ter seus cabelos cortados, ela é despida e na frente dos conhecidos o marido a expulsa de casa e a persegue com uma vara por todos os cantos. Não há perdão para a pudicícia prostituída: nem pela beleza, nem pela idade, nem pelas posses ela encontrará um marido. Lá ninguém ri dos vícios e não dizem que corromper ou ser corrompido é próprio da época. Certamente, ainda são melhores essas cidades em que apenas as donzelas se casam e vive-se com esperança e voto de esposa uma só vez. Assim, casam-se com um único marido, de forma a haver um único corpo e uma única vida e não haja outro pensamento ou paixão posterior e para que o amem não por ser um marido, mas por ser um matrimônio. Determinar o número de filhos ou matar algum dos que nascerem a mais é considerado ação torpe; e bons costumes ali valem mais que boas leis em outro lugar.

 

  1. Em todas as casas, as crianças crescem nuas e sujas quanto a braços e pernas e quanto aos corpos, os quais admiramos. Sua mãe alimenta-as com os seios, e não as confia a criadas ou amas. Você não conseguiria discernir o senhor do escravo por caprichos de criação; eles passam o tempo em meio aos mesmos animais e no mesmo chão, até que a idade distinga os nascidos livres e a virtude os reconheça. A vida sexual dos jovens demora para começar e por isso a mocidade é vigorosa. As moças não se apressam em casar; elas vivem a mesma juventude que eles e têm estaturas semelhantes. Quando se unem, são iguais em idade e força e seus filhos reproduzem em si a robustez dos pais. Com relação aos filhos das irmãs, a consideração do tio é a mesma que a do pai. Alguns julgam ser esse vínculo sanguíneo mais sagrado e estreito e, ao receber prisioneiros, isso é o que mais exigem, como se assim obtivessem um caráter mais firme e uma família maior. Entretanto, os herdeiros e sucessores de cada qual são seus filhos e não há nenhum testamento; se não houver filhos, os graus de parentesco mais próximos para a posse dos bens são irmãos, tios paternos e tios maternos. Quanto mais parentes, quanto maior o número de amigos, tanto mais favorecida será a velhice; e não se paga preço algum pela falta de filhos.

 

  1. É necessário adotar as inimizades de seu pai ou parente assim como suas amizades; e não subsistem os renitentes, pois por um homicídio paga-se com certa quantia de gado e animais de seu rebanho e a família inteira aceita a reparação, com proveito para todos, porque as inimizades são mais perigosas entre pessoas livres.

Nenhum outro povo concede tão abundantemente familiaridade e hospitalidade. É considerado crime negar abrigo a qualquer ser humano; cada um, conforme suas posses, acolhe com um magnificente banquete. Depois de terminado, aquele que há pouco era o hóspede, é o que indica quem hospedará e acompanha, então adentram na casa vizinha sem terem sido convidados. Mas não importa, eles são recebidos com a mesma polidez. Ninguém faz distinção entre conhecidos e desconhecidos no que diz respeito ao direito de hospitalidade. Se os que estão de saída reclamarem algo para si, é costume conceder; em contrapartida, há a mesma liberdade de pedir-lhes. Alegram-se com presentes, mas não se gabam pelo que dão e não se obrigam pelo que recebem. [O modo de viver entre hóspedes é generoso.]

Figura 2: Com respeito às origens étnicas, evidências desenvolvidas por arqueólogos e linguistas sugerem que um povo ou grupo de povos partilhando uma cultura material comum residia no norte da atual Alemanha e sul da Escandinávia durante o final da Idade do Bronze (700−600 a.C.). Essa cultura é chamada de Idade do Bronze Nórdica e abrange o sul da Escandinávia e o norte da Alemanha. A longa presença de tribos germânicas no sul da Escandinávia (uma língua indo-europeia chegou provavelmente por volta de 2 000 a.C.) e o fato de não ter sido encontrados nomes de lugares pré-germânicos na região assentam esta hipótese. Os primeiros contatos dos germanos com os romanos ocorreram no ano 113 a.C., com derrotas para os romanos. Pouco depois, o general Mário mudou muito o exército e conseguiu algumas importantes vitórias sobre os germanos, de estatura muito superior aos romanos. Júlio César (século I a.C.) escreveu alguma coisa sobre os germanos. Nesse período, as tribos germânicas viviam em aldeias rudimentares, praticando uma economia comunal baseada na agricultura, na pecuária e nas pilhagens. Quando as terras se esgotavam, partiam à procura de outras. As áreas cultiváveis e os bosques eram de uso comum aos habitantes das aldeias. Apenas os rebanhos permaneciam como propriedade particular, constituindo a principal riqueza dos guerreiros.

 

  1. Depois de despertarem do sono, que quase sempre prolongam pelo dia, lavam-se geralmente em água quente, já que entre eles o inverno é predominante. Limpos, fazem a refeição em cadeiras individuais e cada qual em sua mesa. Então, vão aos negócios, e não raras vezes aos banquetes, armados. Passar o dia e a noite bebendo não é vergonha para nenhum deles. As duras brigas entre bêbados, raramente com gritarias, terminam geralmente em derramamento de sangue e ferimentos. No entanto, quase sempre deliberam nesses banquetes sobre a reconciliação recíproca de inimigos, a formação de alianças, a eleição de chefes e até mesmo a paz e a guerra, como se em nenhum outro momento o espírito estivesse mais aberto a simples reflexões ou se aquecesse mais para as grandes. O povo, que não é astucioso nem sagaz, expõe os até então segredos do coração pela licença da circunstância; portanto, a mente de todos está descoberta e nua. No dia seguinte, a argumentação é retomada, sem prejuízo de um ou outro momento: deliberam quando não conseguem fingir e decidem quando não podem duvidar.

 

  1. Para beber há um líquido feito de cevada e grãos, que depois de fermentado guarda certa semelhança com o vinho. Os povos próximos às margens do rio também compram vinho. As refeições são simples, frutas do campo, carne fresca, leite coalhado; matam a fome sem refinamento, sem delícias. Com relação à sede, não usam da mesma moderação. Se fores complacente com sua embriaguez, trazendo o quanto desejarem, tão mais facilmente serão vencidos pelos vícios como pelas armas.

 

  1. O tipo de espetáculo é um só e o mesmo em todo encontro: jovens nus, que consideram um divertimento lançar-se com um salto em meio a espadas e hostis frameas. A prática levou à habilidade e a habilidade à elegância, mas não para proveito ou por paga; ainda que sejam brincadeiras audaciosas, a satisfação dos espectadores é sua recompensa. Ocupam-se de jogos quando sóbrios como de um assunto sério, o que é de se admirar, com tanto desatino para ganhar ou perder que, quando se esgotarem todas as possibilidades, disputarão seu corpo e liberdade em um lance extremo e derradeiro. O perdedor segue em voluntária servidão e ainda que seja o mais jovem e mais forte, ele sofre por ser preso e vendido; tal a persistência em uma prática insensata, a que eles chamam de integridade. Comercializam escravos desta condição, para que também se liberem da vergonha de uma vitória assim.

 

  1. Possuem escravos, que não são, como é nosso costume, designados para serviços domésticos. Cada um governa sua casa e moradia. O senhor demanda dele, como de um colono, uma quantidade de grãos, animais ou vestes, e o escravo é bastante obediente. A esposa e os filhos realizam os demais afazeres do lar. Bater em um escravo e castigá-lo com trabalho e amarras é raro: costumam matá-los, não por disciplina ou rigor, mas por impulso e raiva, como a um inimigo, fora isso não há punição. Os homens livres não são muito superiores aos escravos; estes raramente possuem alguma influência na casa, nunca na Cidade, com exceção apenas daqueles povos comandados por reis; lá, com efeito, eles sobrelevam-se aos homens livres e aos nobres, mas para os outros, as desigualdades entre os libertos são prova de liberdade.

 

  1. É desconhecida a prática da usura e o acúmulo de dinheiro por juros, por isso tal atitude é mais observada do que se fosse proibida. Os campos são, sucessivamente, ocupados por todos os agricultores, de acordo com a quantidade deles, e depois partilhados entre eles conforme a posição social. A extensão dos territórios facilita a partilha. Mudam de terreno ano a ano e ainda sobra campo a cultivar, pois não desgastam a fertilidade e a dimensão do solo pelo cultivo, já que plantam pomares, separam os prados e regam os vegetais. Exige-se da terra somente grãos, por essa razão, não dividem o próprio ano em tantas estações: inverno, primavera e verão têm significação e nomes, do outono ignoram igualmente a denominação e as vantagens.

 

  1. Não há ostentação nos funerais. Cuidam apenas em cremar os corpos dos homens ilustres com a madeira adequada. Não alimentam as chamas da fogueira funerária com roupas ou perfumes; mas para cada um, suas armas, e ainda o cavalo de alguns é atirado ao fogo. Uma leiva forma o túmulo, pois rejeitam a difícil e trabalhosa homenagem dos monumentos como se fosse pesado para os defuntos. Rapidamente deixam de lado as lamentações e as lágrimas, vagarosamente, a dor e a tristeza. Às mulheres é decoroso chorar, aos homens, recordar.

 

Soubemos em geral estas coisas a respeito da origem e costumes de todos os germanos. Agora apresentarei os ritos e as convenções de cada povo, até que ponto diferem entre si, e quais nações migraram da Germânia para as Gálias.

 

  1. O divino Júlio, o melhor dentre os escritores, relata que a posição dos gauleses, outrora era mais forte e certamente por isso é crível terem os gauleses passado para a Germânia. E quanto um rio opunha-se a que cada povo que se fortalecera ocupasse e trocasse de sítio, até então públicos e não divididos pelo poder dos reinos? Assim sendo, os helvécios habitaram a região entre a floresta Hercínia e os rios Reno e Meno, as terras para além as ocuparam os Boios, um e outro povos gauleses. O nome Boiemos permanece até hoje e atesta a antiga tradição do local embora tenham mudado seus moradores.

Mas se foram os araviscos que, provindos dos osos [nação de germanos], migraram para a Panônia ou se foram os osos que, provindos dos araviscos, migraram para a Germânia, não se sabe ao certo, já que até hoje utilizam o mesmo idioma e os mesmos princípios e costumes; porque outrora se igualavam em pobreza e liberdade e havia as mesmas coisas boas e más em ambas as margens do rio. Os trévoros e os nérvios são os primeiros a pretenderem com fervor a origem germânica, como se por esta relação sanguínea gloriosa eles se apartassem da semelhança e inação dos gauleses. Sem dúvida, povos germânicos habitam a margem do Reno: vangíones, tribocos e nêmetes. Nem mesmo os úbios, ainda que tenham merecido ser colônia romana e por vontade própria sejam chamados “agripinenses” devido ao nome de seu fundador, envergonham-se de sua origem; há muito tempo, atravessam o Reno e, após provarem sua fidelidade, foram estabelecidos sobre a margem desse rio, não para serem observados, mas para que impedissem a passagem.

 

  1. De todos estes povos, os mais corajosos são os batavos, que não ocupam grande extensão da margem, mas habitam uma ilha do rio Reno. Antigamente, eram uma população dos catos e por causa de uma guerra civil passaram a esses sítios, onde se tornariam parte do Império Romano. Permanecem a honra e a insígnia da antiga aliança, então eles não são rebaixados com tributos nem são oprimidos pelo cobrador de impostos; são isentos de encargos ou contribuições e poupados para o uso em batalhas somente: do mesmo modo que armas e armamento são reservados às guerras. O povo matíaco desfruta do mesmo benefício, pois a grandeza da população romana propagou a reverência ao império para além do Reno e para além das vetustas fronteiras. Assim, em sua própria margem está seu assentamento e território, mas estão conosco em mente e espírito; no mais são similares aos batavos, sem contar que em sua terra recebem maior disposição do solo e do clima.

Não enumerarei dentre as populações da Germânia, embora tenham se assentado além do Reno e do Danúbio, aqueles que cultivam campos decimados. Os mais ágeis gauleses, levados pela temerária pobreza, ocuparam o solo cuja propriedade era incerta; logo depois, com os limites traçados e os postos de defesa movidos adiante, estas terras foram consideradas a extremidade do Império e parte de uma província.

 

  1. Para além destes povos, os catos[6] começam seu assentamento a partir da floresta Hercínia e o local não é tão amplo ou pantanoso como as outras Cidades que compõem a Germânia. Se, contudo, as colinas se estendem, paulatinamente se rarefazem, e a floresta Hercínia acompanha seus catos e os deixa apenas ao final de seu assentamento. Esta gente possui corpos mais robustos, membros trabalhados, feição ameaçadora e maior vigor de espírito. Eles têm grande raciocínio e sagacidade, que os destaca dentre os germanos: elegem homens excelentes, ouvem os eleitos, sabem sua posição hierárquica, reconhecem as oportunidades, retardam o ataque, organizam-se durante o dia, entrincheiram-se à noite, incluem a sorte dentre as coisas incertas e a coragem dentre as coisas certas e – algo raríssimo e somente concedido à disciplina romana – confiam mais no comandante que no exército. Todo poder militar está na infantaria, que além de armas, carrega também utensílios de ferro e provisões: os outros povos, vês irem para a batalha, os catos vão para a guerra. A incursão e a luta casual são raras. De certo, é próprio da força equestre alcançar rapidamente a vitória e rapidamente retirar-se: a celeridade está muito próxima ao medo, já a demora é ligada à firmeza.

 

  1. A prática empregada poucas vezes por outras populações dos germanos, e pela ousadia individual, tornou-se um consenso entre os catos: deixar o cabelo e a barba crescerem logo que se tornassem rapazes e não tirar a vestimenta do rosto, devotada e prometida à coragem, até que tivessem matado o inimigo. Sobre sangue e espólios revelam sua face, só então eles mostram que mereceram ter nascido e que são dignos da pátria e de seus familiares: junto aos pusilânimes e covardes permanece a miséria. Além disso, os mais valentes usam um anel de ferro (o que é ignominioso para este povo) como se fosse um grilhão, até o momento em que a morte de um inimigo o liberta. Este aspecto agrada à maioria dos catos, e mesmo com os cabelos embranquecendo ainda portam as insígnias que os revela tanto aos inimigos quanto aos amigos. É com estes homens que toda batalha tem início: são sempre a linha de frente do exército, imagem surpreendente. Pois nem na paz se abrandam com um semblante mais tranquilo. Não possuem casa, campo ou outra preocupação; em cada lugar que vão recebem comida, são pródigos com os bens alheios, indiferentes com os seus, até que a débil velhice os torne incapazes de tão aguerrido ânimo.

 

  1. Os usípios e os tencteros habitam próximo aos catos, às margens do Reno, cujo leito seguro já basta como fronteira. Os tencteros, mais do que é ordinariamente ilustre nas guerras, são excelentes na arte da disciplina equestre. O mérito da infantaria dos catos não é maior que o da cavalaria dos tencteros. Desta forma instituíram os antigos, seus descendentes os imitam. Estas são as brincadeiras das crianças, a emulação dos jovens, e os idosos continuam a fazê-lo. Os cavalos são legados aos escravos, à família e aos herdeiros por direito; diferentemente de outras coisas, essa herança quem a recebe não é o filho mais velho e sim aquele que for mais apto e intrépido na guerra.

 

  1. Os brúteros outrora vieram para perto dos tencteros. Conta-se que os camavos e os angrivários imigraram há pouco, após os brúteros terem sido completamente arruinados e expulsos por uma união entre as nações vizinhas, seja pela aversão a sua soberba, seja pelo atrativo dos despojos, seja por um certo favorecimento dos deuses para conosco, porque certamente não invejam a visão da batalha. Mais de sessenta mil morreram, não por armas ou lanças romanas mas para o deleite de nossos olhos, o que é magnífico. Eu rogo que esta situação permaneça e se prolongue entre os povos, se não por amizade a nós, seguramente por ódio a eles; quando os destinos do Império o ameaçam, a Fortuna já não pode oferecer nada melhor que a discórdia entre os inimigos.

 

  1. Os angrivários e os camavos são cercados pelos dulgúbnios, pelos casuários e por outros povos não tão célebres ao sul e são sucedidos pelos frísios ao norte. Os frísios são chamados maiores ou menores à proporção de suas forças. Estes dois povos têm o Reno por limite até o oceano e ainda cercam os imensos lagos antes navegados por naus romanas. Foi por ali que tentamos chegar ao oceano. Espalhou-se o boato de que até hoje existem colunas de Hércules lá, seja porque Hércules visitou o local, seja porque concordamos em atribuir à sua celebridade tudo aquilo que encontramos de magnífico em qualquer lugar. Não que tenha faltado ousadia a Druso Germânico, mas o Oceano impediu que investigassem a ele e a Hércules. Então, ninguém mais tentou, pois perceberam que era mais virtuoso e reverente crer nas ações dos deuses a compreendê-las.

 

  1. Até este ponto nós tomamos conhecimento do ocidente da Germânia; mas esta se volta ao norte com uma grande inflexão. E logo em primeiro lugar encontramos os caúcos[7], que embora principiem após os frísios e ocupem uma parte do litoral, estendem-se pela lateral de todos os povos dos quais tratei até que fazem uma curva em direção aos catos. Os caúcos não apenas são proprietários de um vasto território, mas também o povoam. Eles são a mais nobre população dentre os germanos, que prefere manter sua grandeza pela justiça. Não são cobiçosos nem soberbos; tranquilos e afastados, não provocam guerras, não causam devastação com raptos ou latrocínios. A principal prova de sua coragem e força é que não obtém por meio de injustiças o título de superiores. Há armas preparadas para todos e inclusive, se a situação exigir, um exército muitíssimo numeroso em homens e cavalos; e eles conservam a mesma fama mesmo vivendo em paz.

 

  1. Ao flanco dos caúcos e dos catos há os queruscos, que por muito tempo não foram atacados e desenvolveram uma paz ociosa e desmedida. E isto foi mais por deleite que por segurança, pois em meio a povos violentos e fortes, perderás tempo descansando. Onde se vive pelo poder, moderação e probidade compõem a reputação do mais poderoso. Assim, os queruscos, que outrora eram chamados de bons e justos, agora são os tolos e fracos: para os vitoriosos catos a sorte contou por sabedoria. Os fosos, povo vizinho, foram arrastados pela destruição dos queruscos, com eles agora dividem igualmente as adversidades, ainda que tenham sido inferiores em épocas ditosas.

 

Os cimbros habitam o mesmo golfo da Germânia, próximo ao Oceano; a Cidade é pequena agora, mas de grande glória. Ainda permanecem amplos vestígios da antiga fama: espaçosos acampamentos em ambas margens do rio, cujo perímetro dá hoje a você a medida da multidão e força deste povo e convencem de tão grande êxito. Nossa cidade[5] contava seiscentos e quarenta anos quando pela primeira vez ouviu-se falar do exército cimbro, sob o consulado de Cecílio Metelo e Papírio Carbão. Se calcularmos a partir daí até o segundo consulado do imperador Trajano, reuniremos cerca de duzentos e dez anos: tanto tempo para vencer a Germânia. Durante tão longo espaço de tempo muitos foram os prejuízos a ambas as partes. Nem os samnitas, nem os cartagineses, nem os hispanos, nem os gauleses, nem os partos nos deram mais lições, pois que a liberdade dos germanos mostrou-se mais dura que a tirania de Arsaces[8]. Além da morte de Crasso, o que mais nos apresentaria o oriente, depois de este mesmo ter perdido Pácoro e ter sido subjugado por Ventídio? Já os germanos, tendo derrubado ou aprisionado Carbão, Cássio, Aurélio Escauro, Servílio Cepião e Máximo Málio, tiraram cinco exércitos consulares do povo romano de uma só vez e destruíram ainda Varo e com ele três legiões de César. Não foi impunemente que C. Mário os derrotou na Itália, o divino Júlio nas Gálias e Druso, Nero e Germânico em sua própria casa. A grande ameaça de Caio César logo se transformou em zombaria. Desde então houve paz, até que por ocasião de nossa discórdia e dos confrontos civis tomaram de assalto os quartéis de inverno das legiões e buscaram apoderar-se das Gálias; mas em seguida foram expulsos dali e nos últimos tempos tivemos mais triunfos que vitórias sobre eles.

 

  1. Agora se deve tratar dos suevos, que não compõem um povo uno como os catos ou os tencteros. Com efeito, eles ocupam a maior parte da Germânia, mas ainda são separados em nações com nomes próprios, embora geralmente os chamem de suevos. É característica deste povo por os cabelos para o lado e amarrá-los com um nó; desta forma distinguem-se os suevos dos demais germanos e os suevos livres dos escravos. Em outros povos, quer por haver alguma relação com os suevos quer por imitação (o que sói ocorrer), esse costume é raro e próprio da juventude. Entre os suevos, até na velhice os cabelos eriçados são colocados para trás e com frequência presos na própria cabeça. Os líderes trazem mais ornatos. Estes são os cuidados com a aparência, todavia inocentes. O motivo não é para que amem ou sejam amados, mas para, ornadamente, prover àqueles que vão à guerra de uma imagem de certa estatura e aterrorizante aos olhos do inimigo.

 

  1. Os semnones dizem ser a nação mais antiga e nobre dos suevos; a certeza da antiguidade é assegurada pela religião. Em data marcada, “em uma floresta sagrada pelas previsões dos antepassados e prisco terror”, reúnem-se todas as populações de mesmo nome e sangue por meio de seus embaixadores e, depois de matarem um homem publicamente, celebram as horrendas origens do bárbaro ritual. E há outra reverência ao bosque sagrado: ninguém ali adentra a não ser que atado por um liame, mostrando-se inferior ante ao poder da divindade. Se por acaso caírem, não é permitido que sejam erguidos ou se ponham de pé, devem sair rastejando. Toda a superstição volta-se para o seguinte: como foi lá que se originou o povo, é lá que está o deus soberano de todas as coisas; os demais devem ser subordinados a ele e obedientes. A ventura dos semnones adiciona autoridade à crença; eles habitam em uma porção de aldeias e tão grande corporação os faz crer que são os cabeças dentre os suevos.

 

  1. Os langobardos, ao contrário, enobrecem-se por serem poucos. Rodeados por nações muito numerosas e valentes, eles não estão a salvo graças à submissão e sim às batalhas, e por exporem-se ao perigo.

A seguir vêm os reudignos, os aviões, os anglos, os varinos, os eudoses, os suardones e os nuítones, todos estes fortificados com rios ou florestas. Nenhum destes é particularmente notável, exceto pelo culto comum a Nerto, a mãe terra, que pode, segundo creem, intervir em questões humanas e investir contra as populações. Em uma ilha do Oceano há um bosque sagrado e lá existe um carro consagrado, coberto por um véu; apenas um sacerdote pode tocá-lo. Ele percebe a presença da deusa em seu santuário e acompanha com muita veneração, ela ser transportada por vacas. Então os dias são felizes, há festividades em todo lugar que ela julga digno para ir e hospedar-se. Eles não vão a guerras e não pegam em armas, todas as espadas são guardadas. Só neste momento a paz e o sossego são conhecidos e amados; até que o mesmo sacerdote leve de volta ao seu templo a deusa, já saciada do convívio com os mortais. Logo depois, o carro, o véu e, se você quiser acreditar, a própria divindade são banhados em um lago secreto. Os escravos fazem o serviço e sem demora são engolidos pelo mesmo lago. Daí o misterioso terror e o santo desconhecimento  sobre o que acontece nesse rito, só assistido por aqueles que vão morrer.

 

  1. Esta parte dos suevos estende-se pelos rincões mas remotos da Germânia. A mais próxima a nós – para seguir agora pelo Danúbio, como há pouco fiz com o Reno – é a Cidade dos hermúnduros, leal aos romanos; dos germanos, apenas com eles comercializamos não só às margens do rio, mas também ao longe, na esplendorosa colônia da província da Récia. Eles transitam para cá e para lá sem serem vigiados; e enquanto expomos aos outros povos tão somente nossas armas e fortes, a estes nós mostramos nossas casas e vilas, porque não as cobiçam. No território dos hermúnduros nasce o Elba, outrora um rio célebre e reconhecido, atualmente apenas conhecem-no de nome.

 

  1. Perto dos hermúnduros vivem os naristos e, mais adiante, os marcomanos e os quados. A glória e a força dos marcomanos são notáveis, sua própria região foi obtida pela coragem quando, antigamente, expulsaram de lá os boios. Os naristos e os quados equiparam-se a eles, povos estes que são como a fronte da Germânia até onde o Danúbio a cerca. Os marcomanos e os quados, até os nossos dias, mantiveram-se reis de seus próprios povos, como as nobres famílias de Moroboduo e de Tudri (mas já admitem estrangeiros); a força e poder dos reis, entretanto, vem da consideração romana. Amiúde são ajudados por nosso dinheiro e raramente por nossas armas, nem por isso são menos valorosos.

 

  1. Os marsignos, os gotinos, os osos e os búrios encerram-se às costas dos marcomanos e dos quados. Destes, os marsignos e os búrios parecem-se com os suevos na linguagem e nos costumes. A língua gaulesa dos gotinos e a língua panônia dos osos provam que eles não são germanos, por isso aturam os tributos. Parte dos tributos é imposta pelos sármatas e parte pelos quados, para quem eles são estrangeiros. Os gotinos ainda mineram ferro, o que é mais vergonhoso. Todas essas populações possuem poucas planícies, habitam então desfiladeiros e o topo das montanhas. Pois divide e separa a Suévia uma cadeia de montanhas, para além da qual vivem miríades de povos; dentre eles, o nome mais amplamente divulgado é o dos lígios, que se estendem por muitas Cidades. Bastará ter nomeado as mais fortes: os hários, os helveconas, os manimos, os helísios e os naarvalos. Entre os naarvalos apresenta-se um bosque sagrado de uma antiga religião: um sacerdote preside o ritual vestido de mulher, mas segundo a interpretação romana, referem-se ao culto aos deuses Castor e Pólux. Tal a natureza daquela divindade, cujo nome é Alcos. Não utilizam imagens e não há vestígio de nenhuma crença estrangeira; no entanto, essas duas divindades são veneradas como jovens irmãos. Quanto aos hários, além da força, que excede a das populações enumeradas pouco antes, eles são ferozes e aumentam seu aspecto selvagem por meio de artifícios e do momento certo. Os escudos são enegrecidos e os corpos pintados; escolhem noites sem lua para as batalhas e causam terror usando o próprio medo e as sombras deste exército funesto. Nenhum inimigo suporta a nova e, por assim dizer, infernal aparência.

Para além dos lígios, há o reinado dos gotões; seu soberano governa mais duramente que o dos outros povos germanos, mas não a ponto de suprimir a liberdade. Logo em seguida e ao lado do Oceano estão os rúgios e os lemóvios. São sinais distintivos de todos estes povos os escudos redondos, os gládios curtos e a obediência aos reis.

 

  1. Adiante há as Cidades dos suíones[9], localizadas no próprio Oceano e vigorosas por seus homens, armas e, sobretudo, por suas frotas. A estrutura de seus navios é diferente da dos demais, porque existe proa em ambas as pontas, então a parte frontal está sempre preparada para o impulso. Não os dirigem à vela nem fixam remos em fileiras às laterais; seguem a velas soltas, como se faz em certos rios, mas o curso pode ser alterado para qualquer direção, conforme a ocasião exigir. Entre eles há consideração pela riqueza e um homem apenas manda, sem quaisquer restrições e com direito irrevogável à obediência. As armas não são carregadas em público, como se vê nos demais povos germanos, mas ficam trancadas e sob a proteção de um guarda, seguramente um escravo; porque o Oceano impede a súbita incursão do inimigo e, além disso, as mãos desocupadas dos homens armados facilmente cometem excessos; sem dúvida, não é útil ao rei armar um nobre, um homem livre ou mesmo um liberto.

 

  1. Para lá dos suíones há outro mar, preguiçoso e quase imóvel, que rodeia e cerca o mundo; a prova disto é que o último brilho do sol ao se pôr continua claro até o nascer novamente do sol, de modo que ofusca as estrelas; a crença ainda acrescenta que é possível ouvir o barulho de quando ele emerge e ver as imagens dos cavalos e os raios de sua cabeça.

Tão somente até ali, e os boatos são verdadeiros, chega a natureza. Portanto, agora iremos para o litoral à direita do mar dos suevos, onde são banhados os povos éstios[10], cujos costumes e aparência são suevos, mas a linguagem é mais próxima à britânica. Eles veneram a mãe dos deuses. Como símbolo desta superstição, carregam imagens de javalis; isto substitui armas e a proteção dos homens, mantém seguro o adorador da deusa mesmo em meio a inimigos. O uso de espadas é raro, mas o de bastões é frequente. Cultivam grãos e outros frutos da terra mais pacientemente que pela costumeira inércia dos germanos. E também exploram o mar, são os únicos germanos a recolher o âmbar, chamado por eles de glesum, do fundo do mar e da própria praia. Com qual substância e por qual método cria-se esse material, eles não investigaram ou descobriram, já que são bárbaros. Porém, durante muito tempo ficou misturado aos outros resíduos marinhos, até que nossa luxúria o nomeou. Não possui utilidade para eles; recolhem-no bruto, trazem-no sem forma e admiram-se ao receber o pagamento. Você pode conceber que o âmbar seja produto da seiva das árvores, porque certos animais terrestres e mesmo voadores geralmente são encontrados no meio dela: pegados ao líquido, logo ficam presos à matéria endurecida. Eu poderia pensar, portanto, que assim como em recônditos locais do oriente são produzidos incensos e bálsamo, há nas ilhas e terras do ocidente florestas e bosques muito mais férteis, que são comprimidos e liquefeitos pelos raios do sol quando este se avizinha; essa seiva escorre até o mar mais próximo e, pela força das tempestades, é carregada às praias opostas. Se você testar as propriedades do âmbar levando-o ao fogo, verá que ele queima como uma tocha e desenvolve uma chama oleosa e odorífera; logo quando amolece transforma-se em pez ou resina. Os povos sítones confinam com os suíones. Em tudo o mais semelhantes, diferem deles apenas em um ponto: a mulher é quem manda; desta forma degenera-se não só a liberdade, como também a escravidão.

 

  1. Aqui termina a Suévia. Estou em dúvida se referirei as nações dos peucenos, dos vênedos e dos fenos como germanos ou sármatas, embora os peucenos, chamados de bastarnas por alguns, sejam como os germanos na linguagem, aparência, por fixar moradia e pelo tipo de habitação. Todos são sujos e os chefes indolentes; por conta dos casamentos entre os povos, eles recebem alguma coisa do aspecto horrível dos sármatas. Os vênedos contraíram muitos de seus costumes; com seus assaltos, percorrem todas as florestas e montanhas que se elevam entre os peucenos e os fenos. No entanto, estes povos são preferencialmente mencionados como germanos, pois fixam domicílio, levam escudos e alegram-se por usarem os pés e pela velocidade da corrida. Em tudo isso diferem dos sármatas, que passam a vida andando de carro ou a cavalo. Os costumes selvagens dos fenos são espantosos e sua pobreza vergonhosa: não possuem armas, cavalos ou penates. Eles utilizam ervas como alimento, peles como vestes e o chão como leito. Sua única esperança reside nas flechas; na falta do ferro, fazem suas pontas com ossos. O mesmo tipo de caça alimenta igualmente homens e mulheres, pois elas os acompanham por toda parte e pedem um quinhão da presa. E não há outro abrigo contra as feras e as chuvas para as crianças a não ser a proteção de algum entrelaçamento de galhos; para lá voltam os jovens, lá é o refúgio dos velhos. Mas acreditam haver mais felicidade nisso que em gemer trabalhando nos campos, construir suas casas e ficar de olho, por esperança ou medo, em sua fortuna e na alheia. Tranquilos com relação aos homens, tranquilos com relação aos deuses, alcançaram algo dificílimo: eles não têm necessidade nem de fazer pedidos. Já o restante é fabuloso: que os helúsios e os oxiões têm rostos e expressões humanas, mas corpos e membros de feras; questão que eu deixarei em aberto, já que não foi esclarecida.

Notas:

[1] Lança curta, uma espada; estas ou outras denominações para essa arma tipicamente germânica poderiam ter sido usadas, mas por ser framea o nome germânico utilizado por Tácito no texto latino, seguido de sua definição, mantivemos a palavra framea todas as vezes que o objeto designado por esse termo é mencionado e também para destacar este vocábulo, um de apenas três que Tácito apresenta da linguagem dos germanos. N. da Tradutora.

[2] Civitas nesta passagem refere-se à organização social, podendo ser entendida como “Estado”, e por esta razão traduzimo-na como “Cidade”. N. da T.

[3] Neste caso civitas diz respeito aos próprios cidadãos e por isso foi traduzida por “cidadãos” e não por “Cidade”. N. da T.

[4] Este trecho retoma tanto as Metamorfoses de Ovídio, 14, 166 spinis conserto tegmine nullis, quanto a Eneida de Virgílio, 3, 594 consertum tegumen spinis. Ambos tratam de Aquemênidas, quem Odisseu deixa na terra dos Cíclopes. N. da T.

[5] Urbs é uma palavra utilizada em Germania apenas para designar a cidade de Roma. N. da T.

[6] Ou cáticos, chatti, eram uma tribo germânica que habitava a Baixa Saxônia meridional, ao longo do alto rio Weser. Os catos participaram da aliança de tribos germânicas que, sob a chefia de Armínio, derrotou as legiões romanas de Varo em 9, na Batalha da Floresta de Teutoburgo. Quando os romanos chegaram, foram localizados nas partes habitáveis mais altas, especialmente no leste e sul região dos Países Baixos, que residiam. N. do Editor.

[7] Do latino chauci, foram uma tribo germânica que habitou o extremo noroeste da costa da Alemanha, entre a Frísia a oeste e o rio Elba a leste. Seu nome vem do protogermânico xabukaz, “falcão” (em alemão: Habicht). Criavam gado, utilizavam cavalaria e praticaram pirataria. N. do E.

[8] Arsaces I da Pártia foi o fundador do Império Parta no Irã em 247 a.C. Ele é mais conhecido por fontes gregas e romanas, que lhe eram hostis e a sua dinastia devido às guerras romano-partas posteriores. N. do E.

[9] Do nórdico antigo Svíar para o latino Suiones, eram uma tribo germânica, composta por uma amálgama de grupos e clãs com diversos líderes, que viviam na Escandinávia, mas propriamente na Suécia. Mas adiante Tácito fará referência ao Mar da Noruega e ao antigo mito da Hiperbórea: “Para lá dos suíones há outro mar, preguiçoso e quase imóvel, que rodeia e cerca o mundo”. N. do E.

[10] Do latim: Aestii/Aesti refere-se a povos do extremo leste, atualmente região dos Estados do Báltico. Alguns relatos indicam que os éstios são os Antigos Prussianos, antigos habitantes da região que hoje compreende a Letônia e a Lituânia. No entanto esta hipótese não concorda com a descrição de Tácito. A hipótese mais concorde, por conta da presença do âmbar na região, identifica este como sendo o povo originário dos atuais estonianos ao lado dos lapões, falantes de idioma fínico e próximos aos finlandeses. N. do E.

By Jonas Otávio Bilda

Psicólogo com formação em Daseinanalyse, Filósofo com formação em Fenomenologia. Escritor livre-pensador, tradutor, revisor e consultor literário. Autodidata em História geral, Religiões comparadas, Teorias da Educação, Literatura e Política. É autor de pesquisas acadêmicas sobre Psicologia Clínica em “O Alvorecer das Artes do Ser” (Luminária, 2016), ensaios filosóficos sobre Educação em “Cartas de um Solícito Acompanhante” (Multifoco, 2018) e pesquisa político-cultural em "A Civilização Eterna" (Clube, 2020); tradutor e organizador do “Livro de Veles” (Multifoco, 2020), e do "Kalevipoeg, o épico da Estônia" (Clube, 2021). Autor anônimo de mais de dez traduções de livros. Amante da Alta Cultura, é autor de artigos na mídia independente O Sentinela.

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